domingo, 14 de junho de 2009

O partido das cadeiras vazias

E se a abstenção também contasse? Eis o relato de uma noite eleitoral diferente. Os resultados das eleições para o Parlamento Europeu deram, uma vez mais, uma clara maioria ao partido da Abstenção. Embora a vitória fosse dada como certa pelas diversas sondagens publicadas, pelos comentadores de diversos quadrantes e mesmo pelos adversários políticos, num consenso digno de nota, pairava ainda alguma dúvida quanto à expressão da mesma. Afinal, os números finais são ainda mais expressivos do que os registados em 2004. Desta feita foram quase 6.000.000 de eleitores que contribuíram para manter 15 cadeiras vazias , das 22 a que Portugal tem direito. Fica assim garantida uma significativa ausência, permanente e silenciosa, e que não se pronunciará, nunca, sobre qualquer matéria de interesse europeu ou nacional. Esta imagem de marca da abstenção contrastará, certamente, com a atitude dos restantes representantes nacionais, eleitos nesta circunstância pelo PSD (3), PS (2), BE (1) e CDU (1). As ilações serão certamente tiradas, por partidos e eleitores, ao longo das próximas semanas.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Globalização e Ensino Superior

A globalização do Ensino Superior vem sendo encarada, acima de tudo, como uma competição de mercado, sendo o objectivo atingir posições de supremacia ou de liderança. É a corrida ao prestígio, traduzido em rankings, na expectativa de assim obter uma maior procura por parte de estudantes, académicos e investidores. São as preocupações crescentes das nações ou dos blocos, como a União Europeia, pelo desempenho das suas instituições nestas novas ligas mundiais. São as fusões com o objectivo anunciado de aparecer, ou subir, nos rankings. No meio da acesa competição corre-se o risco de desvirtuar a missão da Universidade e o papel crítico que esta deveria assumir.

"... it is surprising to note how much the debate on global phenomena in higher education suddenly focuses on marketisation, competition and management in higher education. Other terms, such as knowledge society, global village, global understanding or global learning, are hardly taken into consideration.".

Ulrich Teichler, "The changing debate on internationalisation of higher education", Higher Education, 48: 5-26, 2004.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Soundbits de campanha

"Pelo direito ao TGV", lê-se num dos cartazes da campanha do PS - a Europa é Vital.

Eis como um determinado meio de transporte é elevado a direito. Direito que, fica implícito, é necessário defender. Direito que o PS defenderá melhor do que os outros partidos. Direito que apenas a Europa, ou as vozes certas na Europa, poderão assegurar (financiar?).

Não é uma apologia das redes ferroviárias como alternativas ou complementos a outros meios de transporte, assegurando cobertura geográfica, diversidade e vantagens ambientais e de segurança. Não é um "Pelo sim ao comboio" - mote que com o mesmo número de letras não desfiguraria o cartaz. Apenas o TGV!

sábado, 9 de maio de 2009

Falar verdade

A verdade anda por aí, como tema oportuno da campanha eleitoral que já se desenrola. O Presidente da República entendeu que era importante falar verdade aos portugueses; o PSD adoptou como slogan “política de verdade”; os discursos políticos dos mais variados partidos estão cheios de referências à verdade e, pelo menos em igual medida, à sua companheira do politiquês – a inverdade.

Confesso que me causa profunda desconfiança este anúncio sistemático de que se está a falar verdade. Como se alguém detivesse “a” verdade, absoluta, única, inatacável. Como se bastasse mencionar a verdade para dela se apropriar. Como se tal menção conferisse credibilidade e a sua omissão descrédito. E o que pensar das afirmações anteriormente proferidas, pelos mesmos, sem este novo quadro de verdade? Seriam inverdades?

Em política tenho, para mim, que falar verdade é:
- considerar que o único voto útil é o que expressa a opinião do eleitor;
- não pedir maiorias absolutas, ou o evitar das mesmas, quando essa questão não é colocada no boletim de voto;
- admitir que um voto, ou uma maioria, não significa a concordância com todos os pontos de um programa eleitoral;
- reconhecer que os votos têm muitas razões;
- apresentar candidatos que vão cumprir os seus mandatos;
- propor metas realistas;
- prometer apenas o que não depende de terceiros;
- admitir a gravidade da situação e a incerteza sobre os efeitos das medidas adoptadas;
- manifestar dúvidas;
- explicar as relações entre objectivos, medidas e meios;
- fomentar o voto em consciência dos deputados, sem uma disciplina de voto que os transforma num mero número;
- adoptar os princípios que se defendem mesmo quando estes não são traduzidos em lei;
- propor uma moção de censura quando se reputa um governo de prejudicial ao país;
- reconhecer as virtudes de medidas propostas pelos adversários;
- propor as alterações eleitorais consequentes com o desejo, ou não, de facilitar a formação de maiorias absolutas.

Mais verdade em política é sem dúvida necessária, nas palavras e nos actos.

Publicado no jornal Público, Cartas ao Director, em 9/5/09

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Coerência

Marcelo Rebelo de Sousa, numa das suas intervenções dominicais, defendeu a continuidade de Durão Barroso na presidência da Comissão Europeia alegando a necessidade de manter a estabilidade em tempo de crise. Será que, pelo mesmo princípio, também defende a renovação da maioria absoluta do PS e a recondução de José Sócrates como Primeiro-Ministro?