O caso BES mostra bem porque há uma generalizada falta de confiança, que atinge políticos, economistas, empresários, dirigentes, comentadores, jornalistas. Um apanhado de duas ou três semanas de declarações sobre o BES seria bem elucidativo. E daria qualquer coisa como isto:
Os problemas do setor não financeiro do grupo não contaminarão o Banco.
O BES não é o GES.
O Banco é muito sólido.
Mesmo que o Banco venha a ter problemas há um almofada suficiente.
Não afetará os outros bancos nem a economia.
Não será necessário o Estado intervir.
O Estado acompanha com atenção este problema privado.
Há ligações entre o BES e empresas do GES que não se conheciam.
Terá que existir uma recapitalização.
Existirão efeitos na economia.
Espera-se que a economia seja resiliente a mais esta adversidade.
Há investidores interessados no BES.
Os prejuízos são muito superiores ao previsto.
Suspendam-se as transações do BES.
O Estado vai entrar no Banco.
Há o que não se sabe.
Há o que se julga saber.
Há o que se sabe e não se diz.
E há a realidade.
Mostrar mensagens com a etiqueta Economicamente. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Economicamente. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
domingo, 23 de junho de 2013
Desintoxicação, precisa-se!
O Jornal de Negócios noticiou, ontem, que o Governo "está a preparar uma proposta de lei prevendo benefícios fiscais para as empresas que empreguem doutorados e mantenham no país cientistas nacionais."
Há pouco mais de um ano, a Assembleia da República recomedou ao Governo que adotasse um conjunto de medidas para estimular o empreendedorismo jovem (recomendação 58/2012 de 30 de março), com 21 pontos onde se inclui:
- linhas de crédito bonificadas;
- a valorização do papel desempenhado pelos business angels, criando incentivos...;
- o estímulo a uma bolsa de tutores que acompanhem as iniciativas, de forma gratuita...;
- a afetação de recitas próprias das instituições de ensino superior (!) para apoio a spin-offs;
- a criação de uma bolsa de empreendedores a nível europeu;
- uma plataforma de partilhas de ideias e projetos;
- a promoção de políticas municipais neste domínio;
E em muitas outras áreas, como nestas, reclama-se sempre mais um estímulo. Para determinadas empresas fará todo o sentido empregar doutorados; será uma questão estratégica mesmo ou até de sobrevivência. Mas sem estímulo ...
Empreender - fazer - tem um risco; mas há quem acredite que possa eliminar o risco e criar, sem dor, o novo Homo imprenditoris: treinado desde o ensino básico ao superior, através de cursos variado cobirndo todas as fases possíveis e imaginárias do processo, ações de atualização, linhas de financiamento, bolsas, incubadoras e toda uma parafernália de instrumentos. O novo jovem Empreendedor pode passar a vida, dos 10 aos 25 anos, ou aos 30, ou aos 35, ou a qualquer outra idade, sem nunca ter estado verdadeiramente só ...
O estímulo é (quase) tudo! Para exportar e para importar; para semear e para colher; para fazer mais projetos; para escolher o mar, o espaço ou as profundezas da terra; para investir nas cidades ou no rural; para andar ou para estar parado.
O corpo - os corpos, singulares ou corporativos - estão dependentes do eterno estímulo, e vivem em ressaca quando ele cessa; e assim ficam, entre a prostração e a irritação, até à chegada da droga de última geração, vinda da Europa, de África ou da Ásia.
Desintoxicação, precisa-se!
Há pouco mais de um ano, a Assembleia da República recomedou ao Governo que adotasse um conjunto de medidas para estimular o empreendedorismo jovem (recomendação 58/2012 de 30 de março), com 21 pontos onde se inclui:
- linhas de crédito bonificadas;
- a valorização do papel desempenhado pelos business angels, criando incentivos...;
- o estímulo a uma bolsa de tutores que acompanhem as iniciativas, de forma gratuita...;
- a afetação de recitas próprias das instituições de ensino superior (!) para apoio a spin-offs;
- a criação de uma bolsa de empreendedores a nível europeu;
- uma plataforma de partilhas de ideias e projetos;
- a promoção de políticas municipais neste domínio;
E em muitas outras áreas, como nestas, reclama-se sempre mais um estímulo. Para determinadas empresas fará todo o sentido empregar doutorados; será uma questão estratégica mesmo ou até de sobrevivência. Mas sem estímulo ...
Empreender - fazer - tem um risco; mas há quem acredite que possa eliminar o risco e criar, sem dor, o novo Homo imprenditoris: treinado desde o ensino básico ao superior, através de cursos variado cobirndo todas as fases possíveis e imaginárias do processo, ações de atualização, linhas de financiamento, bolsas, incubadoras e toda uma parafernália de instrumentos. O novo jovem Empreendedor pode passar a vida, dos 10 aos 25 anos, ou aos 30, ou aos 35, ou a qualquer outra idade, sem nunca ter estado verdadeiramente só ...
O estímulo é (quase) tudo! Para exportar e para importar; para semear e para colher; para fazer mais projetos; para escolher o mar, o espaço ou as profundezas da terra; para investir nas cidades ou no rural; para andar ou para estar parado.
O corpo - os corpos, singulares ou corporativos - estão dependentes do eterno estímulo, e vivem em ressaca quando ele cessa; e assim ficam, entre a prostração e a irritação, até à chegada da droga de última geração, vinda da Europa, de África ou da Ásia.
Desintoxicação, precisa-se!
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Matemática básica
O nosso cérebro é bombardeado, diariamente, com muitos indicadores e comentários políticos e económicos, uma boa parte dos quais referidos em percentagem, ou seja relacionando duas grandezas.
Um exemplo do dia, do relatório do FMI, (http://www.imf.org/external/pubs/cat/longres.aspx?sk=40225.0): "The government's spending reduction target can only be achieved by focusing on major budget items, particularly the government wage bill and pension spending. Together these two items account for 24 percent of GDP and 58 percent of non-interest government spending. It would seem impossible to generate government's spending reduction goals without changes in these two areas, and relevant reforms should take priority."
Ora, ao contrário do que nos querem fazer crer, há vários caminhos para reduzir uma grandeza expressa percentualmente:
1. Aquele que domina praticamente toda a discussão política, económica, de café, de jornal ou de outra coisa qualquer, e que vai de encontro ao expresso pelo FMI: reduz-se o numerador, ou seja, a despesa, mantendo-se o denominador, ou seja o PIB, resultando numa fração menor.
2. Se o PIB diminui, então a despesa tem de diminuir mais acentuadamente, para que a fracção continue a diminuir. Talvez seja necessário entrar aqui com alguns limites, sob pena de se entrar na famosa espiral recessiva.
3. Mantém-se o numerador, ou seja, a despesa, mas aumenta-se o PIB, ou seja, a riqueza produzida pelo País; a fração também diminui!
4. Para uma variação mais expressiva, mas a que talvez corresponda a transformação geométrica usualmente conhecida por quadratura do círculo, reduz-se a despesa e aumenta-se o PIB em simultâneo.
Ora aqui entra outra variante, política, que o FMI dá por já definida pelo Governo e que, portanto, no exercício apenas faz parte das condições-fronteira para a definição do cardápio de cortes: a dimensão, ou melhor, o papel do Estado. E, por arrasto, ou arrastão, o papel da economia privada. O Estado consome demasiados recursos? A economia privada gera insuficiente valor? Ou, mais provavelmente, padecemos das duas maleitas em simultâneo?
Um exemplo do dia, do relatório do FMI, (http://www.imf.org/external/pubs/cat/longres.aspx?sk=40225.0): "The government's spending reduction target can only be achieved by focusing on major budget items, particularly the government wage bill and pension spending. Together these two items account for 24 percent of GDP and 58 percent of non-interest government spending. It would seem impossible to generate government's spending reduction goals without changes in these two areas, and relevant reforms should take priority."
Ora, ao contrário do que nos querem fazer crer, há vários caminhos para reduzir uma grandeza expressa percentualmente:
1. Aquele que domina praticamente toda a discussão política, económica, de café, de jornal ou de outra coisa qualquer, e que vai de encontro ao expresso pelo FMI: reduz-se o numerador, ou seja, a despesa, mantendo-se o denominador, ou seja o PIB, resultando numa fração menor.
2. Se o PIB diminui, então a despesa tem de diminuir mais acentuadamente, para que a fracção continue a diminuir. Talvez seja necessário entrar aqui com alguns limites, sob pena de se entrar na famosa espiral recessiva.
3. Mantém-se o numerador, ou seja, a despesa, mas aumenta-se o PIB, ou seja, a riqueza produzida pelo País; a fração também diminui!
4. Para uma variação mais expressiva, mas a que talvez corresponda a transformação geométrica usualmente conhecida por quadratura do círculo, reduz-se a despesa e aumenta-se o PIB em simultâneo.
Ora aqui entra outra variante, política, que o FMI dá por já definida pelo Governo e que, portanto, no exercício apenas faz parte das condições-fronteira para a definição do cardápio de cortes: a dimensão, ou melhor, o papel do Estado. E, por arrasto, ou arrastão, o papel da economia privada. O Estado consome demasiados recursos? A economia privada gera insuficiente valor? Ou, mais provavelmente, padecemos das duas maleitas em simultâneo?
sábado, 29 de setembro de 2012
1,25%
Faltam sempre milhares de milhões nas contas pública! Neste ano, por exemplo: receitas fiscais abaixo do previsto - 2530 milhões; agravamento das contas da Segurança Social - 700 milhões ou mais; em consequência, medidas extraordinárias - cerca de 2700 milhões. Para 2013, e tendo em consideração a necessidade de alterar as medidas inconstitucionais, compensar a "quebra do crescimento" (mistificadora linguagem) e maiores encargos com juros - qualquer coisa como 5000 milhões de euros.
Procura-se remediar, como sempre, seja alterando os objetivos, já perto da meta, seja recorrendo a toda uma série de medidas que deviam ser extraordinárias, e que permitem entrada súbita de receita ou corte rápido na despesa ... do ano. Deviam ser extraordinárias, mas não são. Há muito que passaram a ordinárias, palavra, apropriadamente, com vários sentidos.
Transferem-se fundos de pensões; privatiza-se a correr, com data anunciada e independentemente do número de interessados ou do setor em causa, garantindo, à partida, que o negócio será mau. Perde-se o sentido estratégico. O verdadeiro limite da estratégia é a próxima vinda da troika, a data de libertação da próxima tranche ou o final do ano.
Para trás ficam as reformas, por vezes iniciadas, mas que exigem tempo, reflexão, discussão, aceitação. Isto, claro, se se pretender que produzam efeitos; que sejam duradouras; que realmente permitam mudanças na sociedade e na economia; que sejam suportáveis e que permitam vislumbrar um futuro melhor. As tais reformas que estavam na base do "ajustamento", outra palavra enganadora, a que, por vezes, juntam "violento". Deve significar qualquer coisa como tentar colocar um cubo dentro de um cilindro, demasiado pequeno, com o auxílio de martelo.
Vi hoje, no Expresso, um número referente ao orçamento de 2012: 8810 milhões de euros gastos em juros. É mais do que o gasto com o serviço nacional de saúde. São, claro, o resultado de um montante em dívida muito elevado, mas também das taxas de juro impostas. Não resisti a um cálculo rápido: se fosse possível reduzir este montante em 1,25%, reduziríamos a despesa, apenas por esta via, em 110 milhões de euros; e com 2% chegaríamos aos 175 milhões de euros. Milhões que não seriam retirados da economia; milhões que não seriam retirados às pessoas; milhões que poderiam ajudar a dar tempo para mudar com sentido. Milhões que, no final, poderiam contribuir para, de facto, virmos a conseguir pagar o montante que devemos. E se juntarmos os milhões que não se teriam que gastar em 2013, 2014, 2015, ...
Procura-se remediar, como sempre, seja alterando os objetivos, já perto da meta, seja recorrendo a toda uma série de medidas que deviam ser extraordinárias, e que permitem entrada súbita de receita ou corte rápido na despesa ... do ano. Deviam ser extraordinárias, mas não são. Há muito que passaram a ordinárias, palavra, apropriadamente, com vários sentidos.
Transferem-se fundos de pensões; privatiza-se a correr, com data anunciada e independentemente do número de interessados ou do setor em causa, garantindo, à partida, que o negócio será mau. Perde-se o sentido estratégico. O verdadeiro limite da estratégia é a próxima vinda da troika, a data de libertação da próxima tranche ou o final do ano.
Para trás ficam as reformas, por vezes iniciadas, mas que exigem tempo, reflexão, discussão, aceitação. Isto, claro, se se pretender que produzam efeitos; que sejam duradouras; que realmente permitam mudanças na sociedade e na economia; que sejam suportáveis e que permitam vislumbrar um futuro melhor. As tais reformas que estavam na base do "ajustamento", outra palavra enganadora, a que, por vezes, juntam "violento". Deve significar qualquer coisa como tentar colocar um cubo dentro de um cilindro, demasiado pequeno, com o auxílio de martelo.
Vi hoje, no Expresso, um número referente ao orçamento de 2012: 8810 milhões de euros gastos em juros. É mais do que o gasto com o serviço nacional de saúde. São, claro, o resultado de um montante em dívida muito elevado, mas também das taxas de juro impostas. Não resisti a um cálculo rápido: se fosse possível reduzir este montante em 1,25%, reduziríamos a despesa, apenas por esta via, em 110 milhões de euros; e com 2% chegaríamos aos 175 milhões de euros. Milhões que não seriam retirados da economia; milhões que não seriam retirados às pessoas; milhões que poderiam ajudar a dar tempo para mudar com sentido. Milhões que, no final, poderiam contribuir para, de facto, virmos a conseguir pagar o montante que devemos. E se juntarmos os milhões que não se teriam que gastar em 2013, 2014, 2015, ...
sábado, 29 de outubro de 2011
Prefiro o verão!
Na madrugada de Domingo passaremos à hora de inverno. E assim, por decisão arbitrária, o sol que hoje nasceu às 08h00 levantar-se-á às 7h00, e o ocaso passará das 18h41 para as 17h41. A discussão sobre a adoção de um ou de outro horário costuma voltar, recorrentemente, à ribalta. Desta vez não parece ter sido o caso, talvez por causa da crise...
Declaro a minha parcialidade na matéria e que me leva a discordar desta medida: prefiro os "dias longos" de verão!
Mas podemos usar este tema como exemplo da maneira como discute e se decide, frequentemente: com base em muitos "acho que" e com pouca informação. Uma nota e duas questões a este propósito.
Os horários, quer em termos profissionais quer em termos individuais, têm-se vindo a alargar, mas de forma assimétrica incidindo mais sobre o início da noite que sobre o fim dela. A partir de amanhã, uma pessoa que tenha um ciclo de atividade das 06h30 às 23h30, não beneficiará de luz solar direta durante cerca de 30 minutos, ao início do dia, e durante 5h49, no final. Estes valores seriam, hoje, de 1h30 e 4h49, respetivamente.
Primeira questão. Gostaria de saber se uma ou outra hora têm impacto no consumo energético. Sendo a duração do período solar igual, tendo apenas ocorrido uma translação, a questão resumir-se-á a saber se o consumo de energia para iluminação (e aquecimento nos períodos mais frios) será maior às 08h00 ou às 18h00. Tendo a inclinar-me para a segunda hipótese, pois julgo que haverá aí uma maior concentração de atividades; mas não sei. Alguém sabe? E saberá se a diferença é significativa? Suficientemente significativa para uma decisão política?
Segundo aspeto. Recordo-me de ouvir o argumento de que estas alterações eram necessárias por causa da articulação internacional das atividades económicas. Mas será mesmo assim? Em que setores faz a diferença? E de que monta? Nem por isso adotamos, até agora, a hora da Espanha, nossa vizinha e parceira comercial; noto ainda que os territórios das grandes economias mundiais (EUA, China, Rússia, Europa) estendem-se por vários fusos horários.
Seja como for prefiro o verão!
Declaro a minha parcialidade na matéria e que me leva a discordar desta medida: prefiro os "dias longos" de verão!
Mas podemos usar este tema como exemplo da maneira como discute e se decide, frequentemente: com base em muitos "acho que" e com pouca informação. Uma nota e duas questões a este propósito.
Os horários, quer em termos profissionais quer em termos individuais, têm-se vindo a alargar, mas de forma assimétrica incidindo mais sobre o início da noite que sobre o fim dela. A partir de amanhã, uma pessoa que tenha um ciclo de atividade das 06h30 às 23h30, não beneficiará de luz solar direta durante cerca de 30 minutos, ao início do dia, e durante 5h49, no final. Estes valores seriam, hoje, de 1h30 e 4h49, respetivamente.
Primeira questão. Gostaria de saber se uma ou outra hora têm impacto no consumo energético. Sendo a duração do período solar igual, tendo apenas ocorrido uma translação, a questão resumir-se-á a saber se o consumo de energia para iluminação (e aquecimento nos períodos mais frios) será maior às 08h00 ou às 18h00. Tendo a inclinar-me para a segunda hipótese, pois julgo que haverá aí uma maior concentração de atividades; mas não sei. Alguém sabe? E saberá se a diferença é significativa? Suficientemente significativa para uma decisão política?
Segundo aspeto. Recordo-me de ouvir o argumento de que estas alterações eram necessárias por causa da articulação internacional das atividades económicas. Mas será mesmo assim? Em que setores faz a diferença? E de que monta? Nem por isso adotamos, até agora, a hora da Espanha, nossa vizinha e parceira comercial; noto ainda que os territórios das grandes economias mundiais (EUA, China, Rússia, Europa) estendem-se por vários fusos horários.
Seja como for prefiro o verão!
quarta-feira, 6 de julho de 2011
O outsourcing do risco
Os investidores, financiadores e outros operadores dos mercados recorrem a empresas externas, as agora tão famosas agências de rating, para fazer a análise do risco, designadamente nas acções de concessão de crédito a terceiros. Ou seja, fizeram o outsourcing de uma área já de si crítica, que encerra grandes incertezas, especialmente num clima turbulento como o que se vive há alguns anos, que movimenta somas astronómicas, prestando-se aos mais variados jogos de poder, e da qual depende a viabilidade não só de empresas como de países e, portanto, de milhões de pessoas.
Pior é que algumas entidades, como o próprio Banco Central Europeu, conferiram às notações de rating um carácter vinculativo e automático para determinadas decisões. Em lugar de utilizar, criticamente, as análises disponibilizadas a par com outros elementos, fizeram um verdadeiro outsourcing da própria tomada de decisão, desresponsabilizando-se irresponsavelmente!
Pior ainda, os operadores continuaram a confiar nas agências, não investindo em mecanismos próprios de avaliação (provavelmente caros, é certo, mas o barato sai caro) mesmo após o colapso da AIG, há cerca de 3 anos, as falhas detectadas nos sistemas financeiros, nos sistemas de regulação e no papel das agências de rating, que então avaliaram com níveis máximos de confiança empresas que já só o eram virtualmente.
E para piorar ainda mais a situação mantém-se o grosso deste mercado do risco entregue a 3 agências, conferindo-lhes um enorme poder.
Um poder que lhes poderia ter sido retirado pelos seus clientes, mas não foi! Um poder que lhes poderia ter sido retirado, ou pelo menos reduzido, pelos estados e operadores europeus, mas não foi! Com certeza que haverá conflitos de interesse, manipulações, corrupção. Com certeza que são interesses privados que ditam a sua actuação. Assim como com toda a certeza os mesmos problemas existem nos estados, e estão também na origem da situação em que nos encontramos, promovendo negócios ruinosos ou duvidosos, escondendo factos, esquecendo o interesse público em prol de interesses privados.
Estranho, por tudo isto, o ar ofendido e de superior moralidade de muitos líderes, que nada fizeram para alterar este estado de coisas mas a quem deixou de convir a interferência das agências.
O processo de notação da Moody's é, no dizer da própria, orientado para o longo termo. Uma vez mais, no clima de instabilidade actual, o grau de incerteza associado a este tipo de apreciações será enorme. Mas é com estas incertezas que lida quem solicita e concede empréstimos a 10 anos. A notação agora atribuída a Portugal, Ba2, significa que, no entender da Moody's, existe um risco suficientemente elevado de incumprimento para entrar na categoria "especulativo".
Ora temos entre nós políticos, economistas e comentadores, de vários quadrantes, que são da mesma opinião e que falam, aparentemente com menos controvérsia, da incapacidade de pagar a dívida em virtude do nível de (de)crescimento económico, da inevitabilidade de reestruturação da dívida (pelo menos a prazo), da impossibilidade de regressar aos mercados em 2013 e conequente necessidade de novos apoios especiais, da saída do Euro como alternativa, etc., etc.
Nada de substancialmente diferente, portanto!
Pior é que algumas entidades, como o próprio Banco Central Europeu, conferiram às notações de rating um carácter vinculativo e automático para determinadas decisões. Em lugar de utilizar, criticamente, as análises disponibilizadas a par com outros elementos, fizeram um verdadeiro outsourcing da própria tomada de decisão, desresponsabilizando-se irresponsavelmente!
Pior ainda, os operadores continuaram a confiar nas agências, não investindo em mecanismos próprios de avaliação (provavelmente caros, é certo, mas o barato sai caro) mesmo após o colapso da AIG, há cerca de 3 anos, as falhas detectadas nos sistemas financeiros, nos sistemas de regulação e no papel das agências de rating, que então avaliaram com níveis máximos de confiança empresas que já só o eram virtualmente.
E para piorar ainda mais a situação mantém-se o grosso deste mercado do risco entregue a 3 agências, conferindo-lhes um enorme poder.
Um poder que lhes poderia ter sido retirado pelos seus clientes, mas não foi! Um poder que lhes poderia ter sido retirado, ou pelo menos reduzido, pelos estados e operadores europeus, mas não foi! Com certeza que haverá conflitos de interesse, manipulações, corrupção. Com certeza que são interesses privados que ditam a sua actuação. Assim como com toda a certeza os mesmos problemas existem nos estados, e estão também na origem da situação em que nos encontramos, promovendo negócios ruinosos ou duvidosos, escondendo factos, esquecendo o interesse público em prol de interesses privados.
Estranho, por tudo isto, o ar ofendido e de superior moralidade de muitos líderes, que nada fizeram para alterar este estado de coisas mas a quem deixou de convir a interferência das agências.
O processo de notação da Moody's é, no dizer da própria, orientado para o longo termo. Uma vez mais, no clima de instabilidade actual, o grau de incerteza associado a este tipo de apreciações será enorme. Mas é com estas incertezas que lida quem solicita e concede empréstimos a 10 anos. A notação agora atribuída a Portugal, Ba2, significa que, no entender da Moody's, existe um risco suficientemente elevado de incumprimento para entrar na categoria "especulativo".
Ora temos entre nós políticos, economistas e comentadores, de vários quadrantes, que são da mesma opinião e que falam, aparentemente com menos controvérsia, da incapacidade de pagar a dívida em virtude do nível de (de)crescimento económico, da inevitabilidade de reestruturação da dívida (pelo menos a prazo), da impossibilidade de regressar aos mercados em 2013 e conequente necessidade de novos apoios especiais, da saída do Euro como alternativa, etc., etc.
Nada de substancialmente diferente, portanto!
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Gripal
Grécia, Irlanda, Portugal
Espirros, doenças, doenças crónicas, contágios. Cura certa parece ainda não haver, nem vacinas. Fatalidades também não, felizmente. Para quem não se preveniu, evitando comportamentos de risco, aplicam-se transfusões, medidas em milhões de euros.
Dizem que são todos casos diferentes. Mas parece que os mercados, essas estirpes que de um dia para o outro se tornaram maléficas, mutagénicas e resistentes, são imunes à virtude da diferença. Permanentemente insatisfeitos procuram sem cessar um novo hospedeiro.
Na Grécia martelavam-se estatísticas, ocultando problemas mais profundos; aperte-se o cinto e reponha-se verdade. Na Irlanda falharam os bancos, e em grande; injecte-se dinheiro, aperte-se o cinto para pagar a factura e a produção do tigre celta deverá permitir a retoma.
E em Portugal? Aqui parece que é a economia que não funciona ... há já uma década ... muito antes portanto da crise financeira internacional. O problema é, por isso, mais grave. E a actuação errática: aperte-se o cinto; alargue-se um pouco; volte-se a apertar; não é preciso fazer mais nada porque estamos pouco expostos; o nosso património genético permitirá uma recuperação mais rápida do que a de qualquer gaulês ou germano; afinal talvez seja melhor voltar a apertar; se os outros apertam nós apertamos também. E o défice, qual cancro, não ajuda e ganha vida própria, crescendo quando menos se espera, mesmo depois de tratamentos de choque e de previsões de melhoria. Os curandeiros de serviço continuam a apregoar as suas capacidades de erradicar qualquer doença; detentores do conhecimento recusam, por princípio, a conjugação de esforços e de qualquer medicina alternativa vinda de outra tribo, indígena ou forasteira.
É aqui que as estrofes de três cantautores lusos, Jorge Palma, Sérgio Godinho e Pedro Abrunhosa, ganham novo sentido: são 7 da tarde, está-se tudo a passar, e vem-me à memória uma frase batida: vamos fazer o que ainda não foi feito!
Espirros, doenças, doenças crónicas, contágios. Cura certa parece ainda não haver, nem vacinas. Fatalidades também não, felizmente. Para quem não se preveniu, evitando comportamentos de risco, aplicam-se transfusões, medidas em milhões de euros.
Dizem que são todos casos diferentes. Mas parece que os mercados, essas estirpes que de um dia para o outro se tornaram maléficas, mutagénicas e resistentes, são imunes à virtude da diferença. Permanentemente insatisfeitos procuram sem cessar um novo hospedeiro.
Na Grécia martelavam-se estatísticas, ocultando problemas mais profundos; aperte-se o cinto e reponha-se verdade. Na Irlanda falharam os bancos, e em grande; injecte-se dinheiro, aperte-se o cinto para pagar a factura e a produção do tigre celta deverá permitir a retoma.
E em Portugal? Aqui parece que é a economia que não funciona ... há já uma década ... muito antes portanto da crise financeira internacional. O problema é, por isso, mais grave. E a actuação errática: aperte-se o cinto; alargue-se um pouco; volte-se a apertar; não é preciso fazer mais nada porque estamos pouco expostos; o nosso património genético permitirá uma recuperação mais rápida do que a de qualquer gaulês ou germano; afinal talvez seja melhor voltar a apertar; se os outros apertam nós apertamos também. E o défice, qual cancro, não ajuda e ganha vida própria, crescendo quando menos se espera, mesmo depois de tratamentos de choque e de previsões de melhoria. Os curandeiros de serviço continuam a apregoar as suas capacidades de erradicar qualquer doença; detentores do conhecimento recusam, por princípio, a conjugação de esforços e de qualquer medicina alternativa vinda de outra tribo, indígena ou forasteira.
É aqui que as estrofes de três cantautores lusos, Jorge Palma, Sérgio Godinho e Pedro Abrunhosa, ganham novo sentido: são 7 da tarde, está-se tudo a passar, e vem-me à memória uma frase batida: vamos fazer o que ainda não foi feito!
segunda-feira, 30 de março de 2009
Crescimento económico
Segundo muitas previsões a economia recomeçará a crescer, em breve, embora se desconheça o momento exacto (2010, 2011, 2012...). É uma questão de tempo. O Banco Mundial, por exemplo, aponta para um crescimento global do PIB de 3% para 2010, largamente superior à previsão para este ano (0,9%) e superior ainda aos 2,5% registados em 2008 [Global Economic Prospects 2009].
Crescimento sempre, mesmo num mundo que nunca teve tanta gente e que nunca consumiu a uma taxa tão elevada. Os nossos hábitos de consumo parecem confirmar esta crença inabalável - por certo muitos já esqueceram o petróleo a 140$/barril, há apenas um ano. Os indicadores que utilizamos vão no mesmo sentido: número de novas casas, mesmo quando excedam o número de famílias; número de novos carros, mesmo que destinados a cidades saturadas; número de telemóveis, em que somos recordistas; número de computadores; e muitos outros números. Números cuja manutenção requer agora o forte apoio dos governos. Números provavelmente insustentáveis e que vão gerar mais desemprego.
Em O fim do petróleo James Kunstler escreve:
Crescimento sempre, mesmo num mundo que nunca teve tanta gente e que nunca consumiu a uma taxa tão elevada. Os nossos hábitos de consumo parecem confirmar esta crença inabalável - por certo muitos já esqueceram o petróleo a 140$/barril, há apenas um ano. Os indicadores que utilizamos vão no mesmo sentido: número de novas casas, mesmo quando excedam o número de famílias; número de novos carros, mesmo que destinados a cidades saturadas; número de telemóveis, em que somos recordistas; número de computadores; e muitos outros números. Números cuja manutenção requer agora o forte apoio dos governos. Números provavelmente insustentáveis e que vão gerar mais desemprego.
Em O fim do petróleo James Kunstler escreve:
"A imaginação colectiva do povo, no entanto, não consegue entender a noção de uma economia sem crescimento, embora os limites do crescimento se evidenciem em tudo o que nos cerca, desde as paisagens suburbanas pavimentadas, até aos preços da gasolina que sobem em flecha, às formações aquíferas esgotadas, ao fim da pesca do bacalhau no Atlântico. Não somos capazes de conceber outra via económica que não seja o crescimento. Somos reféns do nosso sistema."
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
3 Questões sobre os mercados financeiros
1. As trocas (compras e vendas) de curto prazo contribuem para a solidez da economia real?
2. Faz sentido taxar (limita de forma desigual - quem pode paga) ou limitar verdadeiramente este tipo de trocas?
3. Devemos caminhar para um novo sistema em que não tenhamos meros detentores de acções (shareholders) mas sim verdadeiras partes interessadas (stakeholders), em sintonia aliás com a perspectiva de longo prazo recomendada aos investidores?
2. Faz sentido taxar (limita de forma desigual - quem pode paga) ou limitar verdadeiramente este tipo de trocas?
3. Devemos caminhar para um novo sistema em que não tenhamos meros detentores de acções (shareholders) mas sim verdadeiras partes interessadas (stakeholders), em sintonia aliás com a perspectiva de longo prazo recomendada aos investidores?
Subscrever:
Mensagens (Atom)