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sábado, 16 de maio de 2020
Conformidades
Folheando leituras de há uns anos.
Um livro de 2011, editado pela Bertrand no ano seguinte, adquirido e lido em 2017. Duas entradas nas Notas, nesse mesmo ano.
A primeira, "Capítulo 1", então ainda em início de leitura, num momento em que a escrita de um tempo passado parecia irromper bruscamente pela realidade, através das notícias de última hora. O dito capítulo intitula-se "A onda mexicana e o bombista suicida". Na Grã-Bretanha do autor tinha acabado de acontecer o atentado na Manchester Arena.
O livro regressou às Notas, um par de meses depois, com alguns excertos e parafraseando o autor, "Eu sei, porque o fiz". Reflexões pessoais sobre sistemas de poder e os indivíduos, sobre os outros, sobre nós, sobre governos. Como poderia ser sobre outras instituições. Aqui fica mais um, nesta mesma linha.
"De início pensei que pudesse ajudar a alargar este espaço de decisão possível e a empurrar os seus limites. No entanto, com o passar do tempo, tornou-se mais fácil brincar nesse pequeno aglomerado de árvores, enquanto fazia de conta que se tratava da floresta inteira. Os limites do politicamente disponível passaram a definir os limites do meu pensamento. Tendo em consideração que não valia a pena pensar naquilo que não me seria permitido, fui lentamente aprendendo a não me preocupar. A minha visão do mundo começou cada vez mais a parecer-se com a visão de todos os outros funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros. As minhas cartas, telegramas e discursos - fui durante um tempo o redator de discursos do ministro dos Negócios Estrangeiros - tornaram-se iguais aos de todos os outros. Articulados, bem concebidos, até mesmo impressionantes, mas absolutamente convencionais. Estranhamente, à medida que fui subindo na hierarquia, não passei a gozar de mais espaço para expressar os meus pontos de vista; na realidade, até passei a ter menos. Quanto mais elevado o meu grau hierárquico, mais importante se tornava que as minhas opiniões pessoais não se afastassem da linha oficial. Olhava para o meu embaixador em busca de um exemplo: nada do que dizia, em privado ou em público, se afastava da linha política seguida pela Grã-Bretanha. Era consistente, o diplomata completo. Era profissional e nunca questionava nada."
Carne Ross, A revolução sem líder, Bertrand Editora.
sábado, 25 de abril de 2020
Terceiro andamento, Largo: O mundo afastou-se
Levantei os olhos do computador e da secretária, e espreguicei-os através da janela. Do lado de lá via os campos, sob o sol filtrado pelas nuvens, e, mais longe, a serra. Uma vista que se foi tornando habitual, a pouco e pouco, desde aquela altura em que trocara a cidade junto ao litoral por esta terra do interior.
Não fora uma decisão para mudar de vida, perto dos sessenta, nem por uma questão de poupança, ou sequer de acesso a apoios de repovoamento. Pelo contrário, os preços no interior tinham subido muito, em movimento quase simétrico com a descida que ocorria nas grandes cidades. Fora, sobretudo, pela necessidade de afastamento imposta por estes tempos.
O meu olhar voltou para dentro, e eu com ele, pousando sobre o teclado que aguardava, pacientemente, pelos dedos. O trabalho, afinal, quase não sofrera alterações com esta mudança. Continuava a ser feito à distância, como naquele outro tempo, através de trocas constantes de mensagens, reuniões periódicas através dos écrans, receção e envio de documentos, análises de dados, produção de relatórios. Ganhara algo, no entanto, agora que este forma de trabalho passara a ser a norma para muitas atividades: a gestão do meu tempo, apenas em função dos objetivos e dos prazos estabelecidos. Podia, por isso, trocar uma manhã ou uma tarde de escritório, por um passeio pelos trilhos, para saborear o sol ou a chuva, e regressar ao computador à noite ou durante o fim de semana.
Como eu, muitos outros tomaram o caminho do interior, em busca de sítios mais pequenos. Foi o tempo da mudança, não de regresso a um mundo que já não era, mas para a frente, ou para o lado, ou para cima, para uma qualquer outra direção. Construíram-se casas, recuperaram-se campos, criaram-se serviços, instalaram-se escolas e hospitais, vieram as empresas. Sem replicar as grandes cidades de outrora. Dando uso a estradas pouco habituadas a este movimento. Estendendo-se pela paisagem. Trocando as economias de escala por uma nova escala da economia. Tecendo uma nova rede, larga, espalhada, afastada, viva!
As cidades, essas, esvaziaram-se, perdendo ar como um balão. Sem ficarem desertas, ajustaram a sua dimensão, e achataram, ganhando espaços vazios no que antes eram torres preenchidas. As casas que ficaram vazias foram sendo ocupadas, não por novos habitantes que afluíam às cidades, como antes acontecia, mas por quem antes não tinha casa e, principalmente, pelos que, ficando, procuravam a distância necessária. Outras zonas ficaram apenas ao abandono, permitindo o regresso da natureza, definindo os novos limites da cidade.
As pessoas, essas, tinham mudado, reflexo daquele outro tempo, que se prolongava por este adentro. Mantinham uma distância entre si, definida pela ciência, pelos limites da ciência, pela experiência passada, e pelo receio ou pela prudência. Porque a possibilidade de surgir “The Big One” continuava no pensamento de todos. Davam abraços de longe. Trocavam de passeio, para reduzir os cruzamentos de perto. Esperavam, ordeiramente, em filas espaçadas. Usavam máscaras, ou até fatos inteiros de proteção se a situação o requeria. Não entregavam coisas de mão em mão: umas pousavam-nas, outras recolhiam-nas. Os testes eram frequentes. Os movimentos controlados. As quarentenas obrigatórias, prolongando os tempos de deslocação. Os isolamentos locais habituais, sempre que apareciam novos casos.
Volto a esta sala, com janela para a serra. O mundo afastou-se, mas não parou. As pessoas mudaram, mas as proximidades mantêm-se. Os ritmos são outros, mas alguns hábitos são os mesmos. Estamos em maio, as férias de Verão estão cada vez mais perto, e vou voltar a mergulhar no mar! Ganhara uma das vagas possíveis, no sorteio anual que permite evitar as concentrações de outrora.
sábado, 18 de abril de 2020
Segundo andamento, Rubato: O mundo dividira-se
Enquanto encolhia, o mundo dividira-se. Mesmo depois de parar, continuou a estilhaçar, formando fragmentos cada vez mais pequenos, com muitas faces, cada uma do tamanho de uma vida. Vidas diferentes, vislumbrando-se umas às outras, entre sombras e efeitos de luz, que atenuam o sentir, que não permitem entender na plenitude a vida que se encontra do outro lado.
Vidas. Divididas. Entre as que agora começam e as que já terminaram. As que adoecem e as que são dedicadas a tentar salvar. As que se encontram suspensas e as que continuam, quase inalteradas. As confinadas em casa por dever, as confinadas no local de trabalho para segurança dos outros, as que são feitas de idas e vindas, porque são precisas. As que ficaram subitamente isoladas, não havendo redes que cheguem, e as que ficaram de repente demasiado cheias, por não haver para onde ir. As que têm condições para ficar em casa, aquelas para quem a casa é um sítio difícil e as que nem sequer têm onde ficar. As que são feitas da imprescindível ação, e as que são feitas adiáveis, feitas de passividade necessária, ainda que antes fossem importantes. As que decidem sobre os outros e as que seguem as decisões. As que vêm o trabalho redobrar, apesar dos riscos, e as que ficaram sem trabalho, ou que não sabem por quanto tempo terão trabalho. As que vêm os rendimentos mantidos e as que vêm os rendimentos desaparecidos. As que já precisavam de auxílio, as que apesar de tudo ainda encontram apoio e as que prosseguem apesar de ele faltar. Novas divisões, que se sobrepõem às que já existiam no mundo que havia antes,
Sou um privilegiado, no meio de todos estes fragmentos, vislumbrando outras vidas, sem as entender completamente, porque outras vidas são vidas de outros, e as palavras não abarcam tudo o que se sente. É difícil perceber para onde foi este mês que já passou, e talvez ainda mais um que irá passar. Tempo roubado, vivido a diferentes velocidades. Mais difícil, ainda, é antever o efeito que este estilhaçar terá para o futuro, próximo e no receio de uma recaída, e mais longínquo, no que significamos todos nós, os grupos, as fronteiras, o modo de vida.
terça-feira, 14 de abril de 2020
Primeiro andamento, Rallentando: O mundo encolhera
O mundo encolhera. Não de repente, não de uma só vez, não com estrondo. Começou bem longe, a Oriente, extremo na geografia e no significado. Estremecendo e parando, contraindo-se, aproximando-se. Sabíamos que também aqui encolheria, mas isso não bastou para que estivéssemos preparados.
Os mundos e as coisas, de vez em quando, encolhem. Já vira isso há anos, na Instituição. Também ela se tinha contraído, de tal forma que as pessoas pareciam ser menos, os grandes planos reduzidos a tarefas desligadas, os assuntos mais rarefeitos, as rotinas esbatendo o tempo, os pontos de contacto corroídos. Encolhera a tal ponto que parecia ser mais pequena do que eu, e eu, sendo maior do que ela, já não cabia do lado de dentro, mas apenas do lado de fora.
Mas agora era diferente. Não me parecia estar do lado de fora do mundo, portanto devo ter encolhido com ele.
Os países deixaram de ser um contínuo, em que as fronteiras nem sempre tinham significado, para voltarem a ser fragmentos. As viagens cessaram, e ir lá fora deixou de ser possível, sendo também impossível ir para fora cá dentro. O mundo tornou-se país, o país tornou-se cidade, a cidade tornou-se bairro, o bairro tornou-se casa. A casa, para além de casa, tornou-se local de trabalho, restaurante, mercearia, cinema, palco, livraria, pousada, ginásio e salão de jogos. O terraço tornou-se observatório, serra e praia. A televisão e o computador assumiram-se como as janelas para o mundo, permitindo alternar entre realidade e ficção com um simples carregar de botão, ou um rápido deslizar sobre as teclas. Janelas seletivas, de ampliar, diminuir, distorcer. Ficção imitando a realidade. Realidade imitando a ficção. Mundo plano, sem tacto, sem cheiro, selecionado por outros, contado por outros.
Dizem que é uma guerra, mas não me parece, eu que não estive em nenhuma. De guerras, passadas e presentes, saberão outros. Daquelas guerras, que deixaram de ser notícia no mundo da televisão, e onde se morre porque alguém mata, ou porque tudo falta. Aqui, a dita linha da frente pode estar em cada um de nós. Aqui, de onde escrevo, continua a haver luz, água e gás, telefones e internet. Não há, por agora, racionamentos. Não há mobilizações gerais, como naquela guerra que há pouco fez cem anos, dita a Grande, e depois a Primeira, mas paralisações, suspensões, ou reduções. Aqui, o inimigo não saberá sequer que é inimigo.
quarta-feira, 29 de maio de 2019
Portugal a Leste
A Europa é feita de muitas Europas. A da União Europeia, a que se quer unir à união e a outra. A do euro e a das moedas várias. A do espaço Shengen e a das fronteiras. A do eixo franco-alemão e a dos países disto e daquilo. A do pelotão da frente e a da cauda. A continental e a insular. A do Atlântico, a do Mediterrâneo, a do mar do Norte e a do mar Báltico. E, se olharmos para a bússola, a do Norte e a do Sul, a do Leste e a do Oeste.
Na Jangada de Pedra de Saramago, a Península Ibérica soltava amarras, oceano adentro. No Brexit ainda não escrito na pedra, o HMS Brittania afasta-se da Europa sem contudo se mover, fundeado que está do lado de lá da Mancha. Podia ser de la Mancha, com os seus cavaleiros da triste figura, mas é apenas do Canal, com outros figurantes e figurões como protagonistas.
Nesta Europa que se move, em pensamento ou realidade, por acasos vários ou por intenções deliberadas, Portugal encontrou um novo rumo. Decidiu deixar a companhia de Espanha. Decidiu, digamos assim, trocar de lado. Deixar os sonhos Atlânticos. Partindo em direção a Leste encontrou novas companhias, para lá do Adriático e chegando às margens do mar Negro.
Pela força do voto, ou pela falta dele. Não fazendo parte da Europa que vota mais, mas da que vota menos. Pelo menos no que se refere a votar na Europa da União, para esta Europa, por esta Europa.
Afluência nas eleições para o Parlamento Europeu, resultados provisórios em https://election-results.eu/:
31% Portugal
31% Bulgária
30% Croácia
29% República Checa
28% Eslovénia
23% Eslováquia
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
A irresistível tentação
Poder. Linguagem. Linguagem do poder. Mais uniforme do que as cores que mudam no poder. Mais constante do que os poderes que se sucedem no tempo. Mais do que à esquerda, à direita ou ao centro. A linguagem parece estar acima. Comandando. Filtrando. Evitando. Evitando para manter as aparências. Tentando colorir de positivo o que é negativo, ou apenas inevitável.
Foi assim com o "ajustamento" do tempo da troika, e com a vida acima das possibilidades. Pode ser assim com as regionalizações, descentralizações ou desconcentrações. É assim com os "precários".
Lendo o portal do Governo. Sendo atingido por um flash, nos múltiplos sentidos que o Dicionário Priberam regista. Luz intensa e momentânea; clarão disparado ao mesmo tempo que é tirada uma fotografia, para iluminar o objecto fotografado; lâmpada que dispara esse clarão.
Um objeto iluminado.
Regularização extraordinária de vínculos precários.
Os flashes sucedem-se.
Lembrança, ideia ou visão muito rápida.
Concursos abertos.
Muitos concursos.
74.
Mais 3.
Mais 14 do ano passado.
91.
Notícia rápida e prioritária, num órgão de comunicação social.
Num órgão de comunicação oficial.
Portal do Governo.
Cena muito rápida, em cinema ou televisão.
Reforço de recursos humanos.
Cumprimento de um compromisso.
Investigação e Conhecimento na área do mar.
Objetivo político.
Sinónimo de escolha.
Sinónimo de área prioritária escolhida.
Carregando no botão pausa. Voltando atrás.
Então uma regularização de vínculos precários, realce-se a palavra "regularização", num processo desencadeado em toda a administração pública, passa, num parágrafo, a "reforço dos recursos humanos em investigação e conhecimento na área do mar"?
Como diria o Diácono Remédios: não havia nexexidade. Pensando melhor, havia, há. A necessidade do poder. Do poder que não pode apenas dizer estar a resolver um problema. Do poder que precisa de afirmar que está a ir mais além. Do poder que não se pode contentar em fazer que considera justo, porque assim parece algo apenas normal, inevitável. Do poder que tem de estar a ir mais além, a dizer que escolha e controla o destino. Como nos tempos da troika.
Notas da superfície e de mais além, a propósito de uma nota no Portal do Governo:
"Na sequência da orientação da Ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, ao Conselho Diretivo do IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera, de serem desencadeados os procedimentos administrativos relativos ao programa de regularização extraordinária dos trabalhadores com vínculos precários na Administração Pública, foram abertos os concursos de regularização de 74 técnicos superiores e 3 especialistas de informática. Recorde-se que, no final de 2018, já haviam sido iniciados os procedimentos de regularização de 14 assistentes operacionais ou assistentes técnicos.
Assim, estão neste momento abertos os procedimentos de regularização de 91 lugares do quadro do IPMA, respondendo a um compromisso e objetivo político de reforço dos recursos humanos em investigação e conhecimento na área do mar."
https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/comunicacao/comunicado?i=procedimento-para-regularizacao-de-77-quadros-superiores-no-ipma
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
A caminho das eleições
Leituras em ano de eleições.
Recordando também a discussão que se seguiu às Eleições Legislativas de 2015, mais sobre poder e legitimidade do que sobre representação, e os discursos que se começam já a ouvir com mais intensidade.
"Esta vinculação com o Estado [dos partidos por via do financiamento público] consolidou-se também pelo fato de os partidos terem começado a dar prioridade ao seu papel como instrumentos de governo em detrimento da sua função representativa. Quem está na oposição tende a considerar que se encontra nesse lugar apenas de maneira provisória, porque aquilo que lhe é próprio é office-seeking; a sua vocação é alcançar o poder, muito mais do que representar as pessoas.Os partidos dedicam-se sobretudo a governar ou a esperar que lhes toque a vez de governar. O centro de gravidade desloca-se para as responsabilidades institucionais, os partidos passam a ser controlados a partir dos governos, e enfraquece-se a sua função de identificação e representação dos interesses sociais, as quais, por vezes, inclusivamente, são incapazes de entender.
(...)
A consequência disto é que muitas vezes a verdadeira oposição é feita pelos movimentos sociais e pelas manifestações que regra geral se situam à margem dos partidos convencionais."
Em aparente contradição (ou como reforço?) o autor não escapa a referir quem está na "oposição", ou a "oposição" feita pelos movimentos sociais, em lugar da representação.
O extrato é do livro "A Política em tempos de indignação", de Daniel Innerarity.
domingo, 2 de dezembro de 2018
Discriminar exaustivamente
Texto, certamente em crescimento ao longo dos próximos tempos, que figura em muitos anúncios de emprego:
"O/a trabalhador/a ou candidato/a a emprego do setor privado ou público tem direito a igualdade de oportunidades e de tratamento no que se refere ao acesso ao emprego, à formação e promoção ou carreira profissionais e às condições de trabalho, não podendo ser privilegiado/a, beneficiado/a, prejudicado/a, privado/a de qualquer direito ou isento/a de qualquer dever em razão, nomeadamente, de ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, situação económica, instrução, origem ou condição social, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica ou raça, território de origem, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical, devendo o Estado promover a igualdade de acesso a tais direitos."
Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego
Texto alternativo: "Nesta casa não se efetua qualquer tipo de discriminação".
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
And the winner is ...
Competição.
Vencedores.
Vencidos.
Táticas.
Um modo de estar.
Um modo de pensar.
Uma cultura que se cria.
Uma prática que se espalha.
A todas as escalas.
A todas as áreas.
Leituras para refletir.
"The “European Excellence Initiative” has been proposed by the German Rectors’ Conference (HRK) and the Conference of Rectors of Academic Schools in Poland (...). Several sectors across the world have used excellence initiatives to pump huge amounts of funding into a select number of institutions with the aim of turbocharging their research performance."
"The HRK added that “a great deal of support was expressed for the concept”, which would be the first initiative to provide institution-level funding for universities from the EU, at the strategy event."
"Horst Hippler, president of the HRK, told Times Higher Education that the scheme would be aimed in particular at “those member states that want to catch up and increase the competitiveness of their higher education systems”."
Em: "University leaders push for Europe-wide excellence initiative"
https://www.timeshighereducation.com/news/university-leaders-push-europe-wide-excellence-initiative
"(...) higher education can be seen to be caught up in a kind of magical thinking which fetishes competition. There appears to be a modern-day magical belief that competition in higher education will provide the solution to all the unsolved problems of higher education (...). Competition is perceived as an independent force that is viewed as a ‘natural’ phenomenon which appears of its own accord. The invisible hand of competition appears to provide the means by which no-one is responsible at the same time as veiling social processes and negative consequences."
"The authors observe that while the discourse appears to create a global meritocracy, the war for talent embroils universities in intensifying competition for status, in which social justice and broader purposes of education suffer."
"The ‘naturalisation’ of competition has become a ‘doxa’ or an unquestionable orthodoxy that operates at all levels of society, from individual perceptions and practices to state policy, as if it was the natural order of things."
"It would also be important to develop research that investigates the conditions under which innovation in higher education occurs in order to investigate and perhaps challenge the imputed link between innovation and market-based competition. The entire history of publicly funded higher education across the world stands against this argument."
Rajani Naidoo (2016) The competition fetish in higher education: varieties, animators and consequences, British Journal of Sociology of Education, 37:1, 1-10, DOI: 10.1080/01425692.2015.1116209
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Não há Direito!
Escolher um curso. Escolher uma universidade ou um politécnico. Escolher uma outra cidade. Por esta, ou por outra ordem. Em função das preferências, das notas, dos amigos, da família, dos custos. Por um só destes fatores, ou por diferentes pesos e combinações, da matemática ou do coração.
Escolher um curso. Escolher uma universidade ou politécnico. Escolher uma outra cidade. Para viver. Dos dezoito anos aos vinte e poucos. Para crescer. Para mudar. Por dentro e por fora. Para olhar a partir de outro ponto. Noutra terra. Com outra terra. Tornando-se parte de outra terra.
Escolher um curso. Escolher uma universidade (deixemos, por agora, os politécnicos). Escolher uma cidade. Escolhas num país assimétrico, como são todos os países. Escolher uma universidade no interior ou do interior. Ainda que este seja um interior à escala de Portugal. Ainda que este se tenha aproximado do mar por estradas e autoestradas.
Escolher uma universidade no interior. Tornou-se possível, a Sul, em 1973, com a reinstauração da Universidade em Évora. Tornou-se possível no Centro e no Norte quando, em 1986, Covilhã e Vila Real ganharam Universidades. Universidades públicas. Porque a iniciativa privada gravita em torno dos grandes centros e da orla costeira.
Hoje, é possível estudar Medicina na Covilhã. Ou Engenharia Mecânica. Arquitetura em Évora. Ou Música. Matemática Aplicada em Vila Real. Ou Medicina Veterinária. Hoje, é possível estudar Línguas, Economia, Psicologia ou Gestão, em qualquer uma delas. Educação ou Design, em algumas. E também Química, Biologia; Ciências da Terra, Informática, Engenharia Civil, Sociologia.
Estudar no interior. Compreender o interior. Viver o interior. Pessoas. Empresas, autarquias e associações. Paisagem e Clima. Estudar, estagiar, talvez trabalhar. No interior de que agora, uma vez mais, tanto se fala. Numa estranha figura que prolifera. Assim como que a modos de uma terceira-pessoa-indefinida-imperativa-condicional. Alguém deveria ir para o interior! Alguém deveria promover o desenvolvimento do interior! Alguém deveria criar condições públicas para o interior ser privado, ou para ser privadamente atrativo! Uma estranha figura em que a primeira pessoa prima pela ausência, limitando-se ao papel de narrador-comentador. A primeira pessoa não quer ir para o interior. Não quer ser interior. Quando muito quer ir ... e voltar.
Estudar no interior. Compreender o interior. Viver o interior. Hoje, é possível escolher um qualquer curso no interior. Bem, não exatamente! Há algo que falta, notoriamente. Sim, falta Física, mas não é a esse que me refiro! Falta um curso que tem mais de 2600 vagas por ano, em todos os anos. Um curso em que as vagas privadas ultrapassam as públicas. Um curso em que 4 de cada 5 vagas estão em Lisboa e no Porto. Em que, numa só instituição, são 560 novos estudantes em cada ano. Um curso nas (das) grandes metrópoles. Apesar de não se vislumbrar uma razão intrínseca para tal. Apesar de não requerer grande investimento, seja em infraestruturas ou equipamento. Docentes e alunos. Profissionais e futuros profissionais. Atores, num domínio crítico para todos nós. Decisores e futuros decisores, muitos deles. Todos concentrados. Rumando para o litoral, ou aí permanecendo. Não fazendo o caminho inverso. Pessoas que passaram a ter olhos de Lisboa e do Porto, de Coimbra e de Braga. Com as suas modas e modos. Pessoas que, durante a sua formação, não ganharam olhos de Trás-os-Montes, da Beira Interior ou do Alentejo que não vê o mar.
Estranha singularidade.
No interior, não há Direito!
Escolher um curso. Escolher uma universidade ou politécnico. Escolher uma outra cidade. Para viver. Dos dezoito anos aos vinte e poucos. Para crescer. Para mudar. Por dentro e por fora. Para olhar a partir de outro ponto. Noutra terra. Com outra terra. Tornando-se parte de outra terra.
Escolher um curso. Escolher uma universidade (deixemos, por agora, os politécnicos). Escolher uma cidade. Escolhas num país assimétrico, como são todos os países. Escolher uma universidade no interior ou do interior. Ainda que este seja um interior à escala de Portugal. Ainda que este se tenha aproximado do mar por estradas e autoestradas.
Escolher uma universidade no interior. Tornou-se possível, a Sul, em 1973, com a reinstauração da Universidade em Évora. Tornou-se possível no Centro e no Norte quando, em 1986, Covilhã e Vila Real ganharam Universidades. Universidades públicas. Porque a iniciativa privada gravita em torno dos grandes centros e da orla costeira.
Hoje, é possível estudar Medicina na Covilhã. Ou Engenharia Mecânica. Arquitetura em Évora. Ou Música. Matemática Aplicada em Vila Real. Ou Medicina Veterinária. Hoje, é possível estudar Línguas, Economia, Psicologia ou Gestão, em qualquer uma delas. Educação ou Design, em algumas. E também Química, Biologia; Ciências da Terra, Informática, Engenharia Civil, Sociologia.
Estudar no interior. Compreender o interior. Viver o interior. Pessoas. Empresas, autarquias e associações. Paisagem e Clima. Estudar, estagiar, talvez trabalhar. No interior de que agora, uma vez mais, tanto se fala. Numa estranha figura que prolifera. Assim como que a modos de uma terceira-pessoa-indefinida-imperativa-condicional. Alguém deveria ir para o interior! Alguém deveria promover o desenvolvimento do interior! Alguém deveria criar condições públicas para o interior ser privado, ou para ser privadamente atrativo! Uma estranha figura em que a primeira pessoa prima pela ausência, limitando-se ao papel de narrador-comentador. A primeira pessoa não quer ir para o interior. Não quer ser interior. Quando muito quer ir ... e voltar.
Estudar no interior. Compreender o interior. Viver o interior. Hoje, é possível escolher um qualquer curso no interior. Bem, não exatamente! Há algo que falta, notoriamente. Sim, falta Física, mas não é a esse que me refiro! Falta um curso que tem mais de 2600 vagas por ano, em todos os anos. Um curso em que as vagas privadas ultrapassam as públicas. Um curso em que 4 de cada 5 vagas estão em Lisboa e no Porto. Em que, numa só instituição, são 560 novos estudantes em cada ano. Um curso nas (das) grandes metrópoles. Apesar de não se vislumbrar uma razão intrínseca para tal. Apesar de não requerer grande investimento, seja em infraestruturas ou equipamento. Docentes e alunos. Profissionais e futuros profissionais. Atores, num domínio crítico para todos nós. Decisores e futuros decisores, muitos deles. Todos concentrados. Rumando para o litoral, ou aí permanecendo. Não fazendo o caminho inverso. Pessoas que passaram a ter olhos de Lisboa e do Porto, de Coimbra e de Braga. Com as suas modas e modos. Pessoas que, durante a sua formação, não ganharam olhos de Trás-os-Montes, da Beira Interior ou do Alentejo que não vê o mar.
Estranha singularidade.
No interior, não há Direito!
domingo, 4 de junho de 2017
Eu sei, porque o fiz.
Governos e indivíduos. Poder, delegação, (des)responsabilização, conforto. Expectativas e exigências. Nós e os outros. Representados, representantes e quem com eles trabalha. Simplificação, simplificação em excesso, falsificação. Da crença nos sistemas e nas instituições à desilusão. Serão os sistemas de poder inevitavelmente disfuncionais? Porque assim o induzimos? Agir, apesar de tudo. Agir, para mudar tudo. A várias escalas e dimensões. Dos Países, das instituições, de cada um. Assuntos de importâncias diferentes. Decisões com consequências distintas. Mas é de exercício de poder que estamos a falar. Feito por pessoas. E essas não são assim tão diferentes. E nós não somos assim tão diferentes. São vários os pontos de contacto, as experiências próximas. Como é dito, na primeira pessoa: "Eu sei, porque o fiz.". Leitura para refletir.
"Antigamente eu acreditava com tamanho fervor na capacidade e probidade de um governo iluminado que fui trabalhar para ele. Era um diplomata britânico, numa instituição e num sistema que tinha sido fundado sobre a profunda crença de que representantes do Estado, como eu, podiam compreender e arbitrar o mundo de forma eficaz, em benefício das massas menos informadas. Já não acredito nisso. A desilusão nasceu não da conversão ideológica mas da experiência.
No âmbito do meu trabalho, que abordava alguns dos mais preocupantes problemas do mundo, incluindo as alterações climáticas, o terrorismo e as guerras no Afeganistão e no Iraque (fui o responsável do Reino Unido por ambas nas Nações Unidas), foi-se tornando claro, a pouco e pouco, que o governo era incapaz, pela sua própria natureza, de compreender e gerir de forma eficaz aquelas forças. (...) em suma, compreendi, vaga e lentamente, a existência de um profundo e intrínseco défice dos governos: o facto de lhes ser exigido que tomem o que é complexo - a realidade - e o transformem em declarações e políticas simplistas, para melhor convencer a população de que o governo tem as coisas controladas. As pessoas que se encontram no governo não são más ou parvas, pelo contrário, mas o contrato entre as pessoas e as forças governamentais exige que aleguem algo que nenhuma pessoa sensata devia alegar, que o governo é capaz de prever e predizer a gigantesca complexidade do mundo contemporâneo e geri-la a nosso favor. Todos os políticos têm de alegar, perante os eleitores, que são capazes de interpretar o mundo e produzir determinados efeitos, tal como os representantes que trabalham para eles têm de fingir que também eles são capazes. Eu sei, porque o fiz.
(...)
Depois de quinze anos como diplomata tornei-me muitíssimo hábil a escrever telegramas, relatórios e conclusões políticas que reafirmavam ad infinitum a nossa versão dos acontecimentos, muitas vezes sem o mérito de qualquer conhecimento do terreno.(...) Não estava sozinho em tal ignorância, nem na arrogância de achar que, apesar disso, o governo podia declarar com confiança o que estava a acontecer ou o que poderia acontecer em tais locais.
A minha crise pessoal com o governo (...) irrompeu quando as histórias do meu governo sobre o Iraque ultrapassaram a barreira da excessiva simplificação e se tornaram mentiras flagrantes. (...) tinha ignorado os primeiros sinais, demasiado óbvios, no próprio trabalho tanto como em qualquer análise posterior, de que o governo permite e, na verdade, encoraja, os seus protagonistas a tornarem-se moralmente desapegados das consequências dos seus próprios atos, o que permitiu que me tornasse um arquiteto isento de culpas do grande sofrimento dos que se encontravam distantes: neste caso (...) de civis inocentes no Iraque. Só depois de uma reflexão prolongada, lenta e, por vezes dolorosa, cheguei a estas conclusões mais latas sobre a amoralidade intrínseca, mas também sobre a incapacidade, dos governos.
(...)
Observei o crescimento do coro de vozes furiosas nos ajuntamentos públicos e na Internet, exigindo ação, mudança, qualquer coisa, fazendo uso de uma retórica cada vez mais beligerante, mas sem nunca oferecer qualquer solução para além da rejeição da coorte atual de políticos medíocres.
Ponderei sobre a mudança em si, como reagir a este mundo tão complexo com um método que pudesse funcionar. que pudesse garantir a satisfação de descobrir uma verdadeira tração na assustadora face do penhasco íngreme dos problemas. Acabei por compreender que talvez o pior défice dos governos seja este: ao pretenderem arbitrar os problemas do mundo, encorajam de forma invluntária a nossa inação e o nosso desprendimento. Nesse desprendimento fermentam, perigosamente, a raiva e a frustração.
(...)
A resolução dos problemas cabe sempre a outra pessoa, nunca a nós.
Contudo, é a ação - e apenas a ação -que muda as coisas. (...) A escala das dificuldades do mundo -a face íngreme do penhasco- e a magnitude da globalização produzem uma sensação paralisante de impotência e frustração. Mas, de facto, um mundo mais interligado do que nunca.onde cada pessoa se encontra a alguns links de distância de todas as outras, significa que as ações no nosso próprio microcosmo podem ter consequências globais."
Carne Ross (2011), A revolução sem líder, Bertrand Editora
No âmbito do meu trabalho, que abordava alguns dos mais preocupantes problemas do mundo, incluindo as alterações climáticas, o terrorismo e as guerras no Afeganistão e no Iraque (fui o responsável do Reino Unido por ambas nas Nações Unidas), foi-se tornando claro, a pouco e pouco, que o governo era incapaz, pela sua própria natureza, de compreender e gerir de forma eficaz aquelas forças. (...) em suma, compreendi, vaga e lentamente, a existência de um profundo e intrínseco défice dos governos: o facto de lhes ser exigido que tomem o que é complexo - a realidade - e o transformem em declarações e políticas simplistas, para melhor convencer a população de que o governo tem as coisas controladas. As pessoas que se encontram no governo não são más ou parvas, pelo contrário, mas o contrato entre as pessoas e as forças governamentais exige que aleguem algo que nenhuma pessoa sensata devia alegar, que o governo é capaz de prever e predizer a gigantesca complexidade do mundo contemporâneo e geri-la a nosso favor. Todos os políticos têm de alegar, perante os eleitores, que são capazes de interpretar o mundo e produzir determinados efeitos, tal como os representantes que trabalham para eles têm de fingir que também eles são capazes. Eu sei, porque o fiz.
(...)
Depois de quinze anos como diplomata tornei-me muitíssimo hábil a escrever telegramas, relatórios e conclusões políticas que reafirmavam ad infinitum a nossa versão dos acontecimentos, muitas vezes sem o mérito de qualquer conhecimento do terreno.(...) Não estava sozinho em tal ignorância, nem na arrogância de achar que, apesar disso, o governo podia declarar com confiança o que estava a acontecer ou o que poderia acontecer em tais locais.
A minha crise pessoal com o governo (...) irrompeu quando as histórias do meu governo sobre o Iraque ultrapassaram a barreira da excessiva simplificação e se tornaram mentiras flagrantes. (...) tinha ignorado os primeiros sinais, demasiado óbvios, no próprio trabalho tanto como em qualquer análise posterior, de que o governo permite e, na verdade, encoraja, os seus protagonistas a tornarem-se moralmente desapegados das consequências dos seus próprios atos, o que permitiu que me tornasse um arquiteto isento de culpas do grande sofrimento dos que se encontravam distantes: neste caso (...) de civis inocentes no Iraque. Só depois de uma reflexão prolongada, lenta e, por vezes dolorosa, cheguei a estas conclusões mais latas sobre a amoralidade intrínseca, mas também sobre a incapacidade, dos governos.
(...)
Observei o crescimento do coro de vozes furiosas nos ajuntamentos públicos e na Internet, exigindo ação, mudança, qualquer coisa, fazendo uso de uma retórica cada vez mais beligerante, mas sem nunca oferecer qualquer solução para além da rejeição da coorte atual de políticos medíocres.
Ponderei sobre a mudança em si, como reagir a este mundo tão complexo com um método que pudesse funcionar. que pudesse garantir a satisfação de descobrir uma verdadeira tração na assustadora face do penhasco íngreme dos problemas. Acabei por compreender que talvez o pior défice dos governos seja este: ao pretenderem arbitrar os problemas do mundo, encorajam de forma invluntária a nossa inação e o nosso desprendimento. Nesse desprendimento fermentam, perigosamente, a raiva e a frustração.
(...)
A resolução dos problemas cabe sempre a outra pessoa, nunca a nós.
Contudo, é a ação - e apenas a ação -que muda as coisas. (...) A escala das dificuldades do mundo -a face íngreme do penhasco- e a magnitude da globalização produzem uma sensação paralisante de impotência e frustração. Mas, de facto, um mundo mais interligado do que nunca.onde cada pessoa se encontra a alguns links de distância de todas as outras, significa que as ações no nosso próprio microcosmo podem ter consequências globais."
Carne Ross (2011), A revolução sem líder, Bertrand Editora
sexta-feira, 26 de maio de 2017
Criticamente
Escrever criticamente já passou por aqui. Simplificar por exigência do tempo, recurso não renovável, e limitado para cada um nós. Simplificar sem falsear. Simplificar sem induzir em erro. Uma tarefa tanto mais difícil quanto mais complexos forem os assuntos e quanto mais diversos forem os leitores.
Ler criticamente, para quem está do outro lado da escrita. Refletindo, comparando, pesando, contraditando. Sem aceitar apenas porque o rótulo invoca autoridade. Sem aceitar apenas porque reforça as nossas próprias convicções.
Comentar criticamente. Porque o conhecimento deve ser ativo. Porque permite corrigir erros, superar lacunas, abrir novas perspetivas. Em benefício de outros leitores. Permitindo continuar a construir sobre bases mais sólidas.
A European University Association (EUA) divulgou, este ano, mais um trabalho sobre autonomia universitária na Europa. Trata-se de uma atualização de trabalhos anteriores, desenvolvidos ao longo da última década, permitindo vislumbrar padrões e tendências. E contém uma sistematização da informação de cada País, traduzida em 29 perfis de países/regiões, elaborados em colaboração com entidades nacionais de cada um.
No caso de Portugal, o perfil publicado continha elementos que suscitavam dúvidas de interpretação, algumas imprecisões e também erros de facto. Que comentei, em detalhe. Em resposta, a EUA foi diligente, e promoveu, em articulação com o parceiro nacional, a reanálise do perfil Português. Desse processo resultaram alterações significativas nos domínios da autonomia organizacional e de recursos humanos, e também em alguns aspetos da autonomia financeira e académica, sendo, no geral, mais clara e mais correta. E já se encontra disponível a versão atualizada do documento (pág. 151-155).
Mais contributos precisam-se, sobre este ou outros documentos, dando uso ao conhecimento de cada um. Criticamente!
quinta-feira, 11 de maio de 2017
FDS com FFF em CSI? TTS-FFD!
Vem aí um FDS com FFF em termos de CSI. Calma! Este não é um texto de jargão sobre as mais recentes previsões económicas, a evolução da dívida, a conversão de maturidades, as flutuações das taxas de juro ou o peso da despesa pública. Não é um texto sobre ratings e rankings internacionais, nacionais ou institucionais. Nem é um texto de antevisão sobre as próximas temporadas de séries de investigação criminal. Comecemos então pelo princípio, porque há coisas que ainda são o que parecem. FDS é mesmo Fim de Semana! E este até é maior, para alguns. Em Aveiro já o seria, bem antes da anunciação da vinda do Papa, porque é o dia de Santa Joana Princesa, feriado municipal. Para outros, funcionários públicos, foi decretada uma tolerância de ponto. Portanto um fim de semana. O que é bom! Mas saltemos em frente. CSI. Comunicação Sem Interrupções, Comunicação Sempre Interminável, Conversas Super Intensas, ou em alguns casos, receio, Conversas Sem Inteligência. Tudo dependerá do ponto de vista. É o que nos espera neste fim de semana e, seguramente, com repercussões durante, pelo menos, toda a próxima semana. Ou mesmo mais. E porquê? Vamos então ao miolo. Porque vai ser só FFF. Fátima, Futebol e Festival da Eurovisão. Acontecimentos de milhões. De pessoas e de euros. Vividos e celebrados por muitos. Antecipados, vistos e revistos. Seguidos ao segundo. Em câmara lenta, Em alta definição. Ao vivo. Do palco principal e dos bastidores. Opinados. Interpretados. Comentados à exaustão. Por especialistas, adeptos, devotos e fãs. Discutidos. Prós e Contras. Nós e os outros. Eu não irei a Fátima, nem à Luz, nem a Kiev. Mas, pensando bem, isso é capaz de não chegar. Julgo pois ter chegado o momento de fazer TTS-FFD. Time to shtudown for a few days. Over and out.
sábado, 8 de abril de 2017
Ceticismo otimista
"Por isso defendo um cepticismo mais de tipo optimista, que tem a certeza de poucas coisas mas acha possíveis muitas. Poderia falar-se neste sentido de uma esperança democrática (Westbrook 2005), que não é ingénua nem demasiado confiante, que tem a suficiente decepção atrás de si para não se fiar excessivamente nas promessas mas que essa experiência não impede de aspirar ao melhor."
Daniel Innerarity (2011), O futuro e os seus inimigos - Uma defesa da esperança política, Teorema.
Daniel Innerarity (2011), O futuro e os seus inimigos - Uma defesa da esperança política, Teorema.
quarta-feira, 29 de março de 2017
Antecipar
"Não haverá nenhum futuro melhor se não formos capazes de construir uma imagem dele. Quando se está interessado em modificações reais, o primeiro passo é uma boa análise do próprio presente que dê a possibilidade de se fazer uma ideia dos futuros possíveis com base naquilo que se acha desejável. E não se trata só de acertar na observação de um meio ao qual fosse simplesmente preciso adaptar-se. Há que explorar também todas as possibilidades de antecipação e configuração. (...) As atuais evidências colectivas falam da lógica da concorrência, da dinâmica do mercado e da contingência da evolução. Mas este mundo aparentemente desregulado exige planificação e antecipação numa medida até agora desconhecida."
Analisar o presente. Parece simples, mas não é. Dá trabalho. Requer estudo. Distinguir dados de perceções. Confrontar dados e perceções. Dados e dados. Perceções e perceções. Distinguir o que tem suporte do que não tem. Porque nem todas as opiniões são iguais. Intuições. Palpites. Conceitos e preconceitos. Visões parcelares. Truncadas. É preciso consolidar pontos de vista. Definir o ponto de partida. Ou os pontos de partida, porque o presente pode não se reduzir a um único ponto. É logo aqui que muito falha. Porque o trabalho de base é insuficiente ou deficiente. Porque se evita a confrontação. Porque se escolha a areia para construir o castelo.
Depois imaginar. Imaginar futuros. Possíveis. Plausíveis. E escolher. Escolher futuros desejáveis. Que se querem construir. E traçar caminhos. Há muitos imponderáveis. Muitas opções, talvez demasiadas, angustiando. Muitas forças. Umas com mais poder do que outras. Para determinar futuros. Para destruir futuros. Parar rasgar caminhos. Achar que o caminho já está traçado é decidir viver num futuro imaginado por outros.
"Não havendo antecipação, a acção política reduz-se a gerir as urgências, quando já não há margem de manobra. Como dizia Talleyrand, "quando é urgente, já é demasiado tarde". A política entregou-se aos muddling through, no qual mandam os prazos curtos e as soluções provisórias substituem os grandes projectos de configuração, de maneira que os mesmos problemas reaparecem sucessivamente na agenda política. A política perde deste modo a sua função de agente configurador e adopta o estatuto de jogador reactivo ou de reparador de avarias."
Gerir urgências. Soluções provisórias. Problemas que reaparecem. Reagir, sempre. Projetar, raramente. Reparador de avarias. Tudo isto é demasiado familiar para demasiadas pessoas em demasiados lugares.
Diz-se que a política é para as pessoas. Que se faz com as pessoas. Com o contributo de cada um. Realçando a importância do conhecimento na decisão. Tudo muito politicamente correto. Tudo muito pouco praticado. Encontram-se sempre formas criativas de limitar a participação das pessoas e o uso dos saberes; a inevitabilidade, a urgência, a falta de tempo, o abuso do diagnóstico, as incertezas do conhecimento, o poder do indivíduo ou dos grupos. E assim as pessoas existem no espaço do elogio retórico, sem tradução nos atos.
Por isso é necessária uma evasão maciça. Uma verdadeira libertação das pessoas. Das palavras de conveniência para as ações. Mobilizar pessoas. Mobilizar capacidades. Mobilizar imaginações. Para melhor antecipar. Sim, dá trabalho se for para levar a sério.
Com excertos da obra de Daniel Innerarity (2011), O futuro e os seus inimigos - Uma defesa da esperança política, Teorema.
domingo, 19 de fevereiro de 2017
Futuro, precisa-se!
"(...) A lógica do urgente desestrutura a nossa relação com o tempo, sempre subordinado ao momento presente.
É neste contexto que se inserem a falta de ambição colectiva das nossas sociedades, a extenuação do desejo, o nosso medo difuso, o retrair-se para os interesses individuais, a carência de perspectivas. Poderíamos dizer que o processo triunfou sobre o projecto, o post sobre o pro, e que o tom dos comportamentos de antecipação é mais de prevenção e precaução do que prospectiva e projecto. Essa miopia temporal está a prejudicar a nossa capacidade de representação do porvir. Não é a urgência que impede a elaboração de projectos de longo prazo: a ausência de projeto é que nos submete à tirania do presente. O movimento contemporâneo, a incessante adaptação à mudança que nos é exigida, é vivido segundo uma lógica de sobrevivência, não da esperança. À força de se explicar que as "grandes narrativas" morreram, o lugar delas foi ocupado pela defesa dos "direitos adquiridos"; o vazio deixado pela imaginação do futuro foi preenchido pela preocupação do instante; e onde não se prepara o futuro a política limita-se a gerir o presente."
Daniel Innerarity (2011), O futuro e os seus inimigos - Uma defesa da esperança política, Teorema.
É neste contexto que se inserem a falta de ambição colectiva das nossas sociedades, a extenuação do desejo, o nosso medo difuso, o retrair-se para os interesses individuais, a carência de perspectivas. Poderíamos dizer que o processo triunfou sobre o projecto, o post sobre o pro, e que o tom dos comportamentos de antecipação é mais de prevenção e precaução do que prospectiva e projecto. Essa miopia temporal está a prejudicar a nossa capacidade de representação do porvir. Não é a urgência que impede a elaboração de projectos de longo prazo: a ausência de projeto é que nos submete à tirania do presente. O movimento contemporâneo, a incessante adaptação à mudança que nos é exigida, é vivido segundo uma lógica de sobrevivência, não da esperança. À força de se explicar que as "grandes narrativas" morreram, o lugar delas foi ocupado pela defesa dos "direitos adquiridos"; o vazio deixado pela imaginação do futuro foi preenchido pela preocupação do instante; e onde não se prepara o futuro a política limita-se a gerir o presente."
Daniel Innerarity (2011), O futuro e os seus inimigos - Uma defesa da esperança política, Teorema.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Vozes e Silêncios
Lido num artigo, a propósito de poder e comportamento, verdade e mentira, o papel dos jornalistas, ações e consequências. Na América dos nossos dias. Ao mais alto nível. Mas que poderia ser transposto para outros níveis e locais, por este mundo fora. Transposto, sem sombra de dúvidas, para outros tempos, tempo passado, tempo presente e tempo futuro.
"In the life of every honorable man there comes a difficult moment, General, when the simple statement "this is black and that is white", requires paying a high price."
Em busca do autor, da obra e do seu contexto, fui parar à Polónia do início dos anos 80. Ainda a Polónia dos Generais. Quando na Europa os muros eram outros, à espera de serem derrubados, e a guerra era fria. Lembro-me das notícias que chegavam. Estaleiros navais Lenine, em Gdansk. Lech Walesa e o movimento Solidariedade. Um papa polaco, João Paulo II. Moscovo. Resistência e Lei Marcial. 1981. Saindo das memórias fui, pela pena de Adam Michnik, até uma cela de prisão, em Varsóvia, e à carta, que viria a integrar a obra "Letters from the prison and other essays". A voz escrita continua:
"It may cost one one's life on the slopes of the Citadel, behind the wire fence of Sachsenhausen, behind the bars of Mokotów prison. At such a time, General, a decent man's concern is not the price he will have to pay but the certainty that white is white and black is black. One needs a conscience to determine this."
De volta ao presente, e à América de 2017, refletia o articulista, no seu contexto de ocidente democrático, sobre o pequeno preço a pagar pelo dever cívico e profissional em insistir na verdade e em desmentir a falsidade (http://nymag.com/daily/intelligencer/2017/02/andrew-sullivan-the-madness-of-king-donald.html).
Dever cívico e profissional que que não se restringe aos jornalistas.
Vozes e Silêncios.
"In the life of every honorable man there comes a difficult moment, General, when the simple statement "this is black and that is white", requires paying a high price."
Em busca do autor, da obra e do seu contexto, fui parar à Polónia do início dos anos 80. Ainda a Polónia dos Generais. Quando na Europa os muros eram outros, à espera de serem derrubados, e a guerra era fria. Lembro-me das notícias que chegavam. Estaleiros navais Lenine, em Gdansk. Lech Walesa e o movimento Solidariedade. Um papa polaco, João Paulo II. Moscovo. Resistência e Lei Marcial. 1981. Saindo das memórias fui, pela pena de Adam Michnik, até uma cela de prisão, em Varsóvia, e à carta, que viria a integrar a obra "Letters from the prison and other essays". A voz escrita continua:
"It may cost one one's life on the slopes of the Citadel, behind the wire fence of Sachsenhausen, behind the bars of Mokotów prison. At such a time, General, a decent man's concern is not the price he will have to pay but the certainty that white is white and black is black. One needs a conscience to determine this."
De volta ao presente, e à América de 2017, refletia o articulista, no seu contexto de ocidente democrático, sobre o pequeno preço a pagar pelo dever cívico e profissional em insistir na verdade e em desmentir a falsidade (http://nymag.com/daily/intelligencer/2017/02/andrew-sullivan-the-madness-of-king-donald.html).
Dever cívico e profissional que que não se restringe aos jornalistas.
Vozes e Silêncios.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
As leis da robótica
Códigos. Robots. Inteligência artificial. Autonomia. Decisões. E tudo que vem com elas. Consequências. Responsabilidades. Responsáveis. Ética. Novos dilemas que resultam do avanço científico e tecnológico. E que estão em discussão no Comité dos Assuntos Legais da Comissão Europeia:
"In order to address this reality and to ensure that robots are and will remain in the service of humans, we urgently need to create a robust European legal framework.
(...)
For example, this code [of etichal conduct] should recommend that robot designers include “kill” switches so that robots can be turned off in emergencies, they add.
(...)
In the long-term, the possibility of creating a specific legal status of “electronic persons” for the most sophisticated autonomous robots, so as to clarify responsibility in cases of damage, should also be considered, MEPs say."
http://www.europarl.europa.eu/news/en/news-room/20170110IPR57613/robots-legal-affairs-committee-calls-for-eu-wide-rules
Novos dilemas que são, afinal, velhos. Porque já foram imaginados. Antecipados. Contados. Escritos. Por Isaac Asimov, através das suas Três Leis da Robótica, presentes em inúmeros contos sobre a interação Homem-Máquina, ou Homem-Homem através da Máquina, ou Máquina-Máquina através do Homem:
"1ª Lei: Um robot não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª Lei: Um robot deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
3ª Lei: Um robot deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis."
https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_da_Rob%C3%B3tica
Ou por Clifford D. Simak, com os seus duplicados, em busca da consciência e do original, do lugar do original, como em "Good Night, Mr. James", de 1951:
"Ninguém poria em dúvida - ao fim de algum tempo nem sequer ele próprio - que ele era Henderson James. O telefone tocou de novo e ele levantou-se para responder. Uma voz agradável disse-lhe:
- É Allen do laboratório de duplicação. Temos estado à espera de um relatório seu.
- Bem ... Eu...
Allen interrompeu-o:
- Telefonei-lhe para lhe dizer que não se preocupasse. Esqueci-me de lhe dizer uma coisa.
- Compreendo - respondeu James, ainda que não compreendesse.
- Fizemos este de uma maneira um pouco diferente - explicou Allen. Uma experiência que tínhamos de tentar. Veneno lento no sangue. Mais uma precaução. Provavelmente não será necessário, mas desejamos ser positivos. No caso de ele não aparecer, não precisa preocupar-se."
- Estou certo de que ele aparecerá.
Allen riu-se baixinho:
- Vinte e quatro horas. É como uma bomba de relógio. Mesmo que ele descobrisse o que se passa não há antídoto para o veneno.
- Agradeço ter-me telefonado - respondeu James.
- Muito bem - disse Allen. - Boa noite Mr. James."
Incluído Em "A revolta das máquinas / 1", Colecção Argonauta.
"In order to address this reality and to ensure that robots are and will remain in the service of humans, we urgently need to create a robust European legal framework.
(...)
For example, this code [of etichal conduct] should recommend that robot designers include “kill” switches so that robots can be turned off in emergencies, they add.
(...)
In the long-term, the possibility of creating a specific legal status of “electronic persons” for the most sophisticated autonomous robots, so as to clarify responsibility in cases of damage, should also be considered, MEPs say."
http://www.europarl.europa.eu/news/en/news-room/20170110IPR57613/robots-legal-affairs-committee-calls-for-eu-wide-rules
Novos dilemas que são, afinal, velhos. Porque já foram imaginados. Antecipados. Contados. Escritos. Por Isaac Asimov, através das suas Três Leis da Robótica, presentes em inúmeros contos sobre a interação Homem-Máquina, ou Homem-Homem através da Máquina, ou Máquina-Máquina através do Homem:
"1ª Lei: Um robot não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª Lei: Um robot deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
3ª Lei: Um robot deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis."
https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_da_Rob%C3%B3tica
Ou por Clifford D. Simak, com os seus duplicados, em busca da consciência e do original, do lugar do original, como em "Good Night, Mr. James", de 1951:
"Ninguém poria em dúvida - ao fim de algum tempo nem sequer ele próprio - que ele era Henderson James. O telefone tocou de novo e ele levantou-se para responder. Uma voz agradável disse-lhe:
- É Allen do laboratório de duplicação. Temos estado à espera de um relatório seu.
- Bem ... Eu...
Allen interrompeu-o:
- Telefonei-lhe para lhe dizer que não se preocupasse. Esqueci-me de lhe dizer uma coisa.
- Compreendo - respondeu James, ainda que não compreendesse.
- Fizemos este de uma maneira um pouco diferente - explicou Allen. Uma experiência que tínhamos de tentar. Veneno lento no sangue. Mais uma precaução. Provavelmente não será necessário, mas desejamos ser positivos. No caso de ele não aparecer, não precisa preocupar-se."
- Estou certo de que ele aparecerá.
Allen riu-se baixinho:
- Vinte e quatro horas. É como uma bomba de relógio. Mesmo que ele descobrisse o que se passa não há antídoto para o veneno.
- Agradeço ter-me telefonado - respondeu James.
- Muito bem - disse Allen. - Boa noite Mr. James."
Incluído Em "A revolta das máquinas / 1", Colecção Argonauta.
domingo, 15 de janeiro de 2017
Como governar o mundo em 140 caracteres
Zebatinsky foi ao numerologista. Quem sabe o que este diria? Não tinha nada a perder. A partir desse momento passou a chamar-se Sebatinsky. Alteração mínima, de uma única letra, no seu nome. Que desencadeou uma cadeia de mudanças. E uma guerra nuclear foi evitada. Obra de um par de extraterrestres, entretidos a apostar sobre o planeta Terra, e em como era possível produzir um macro-efeito a partir de um micro-estímulo. Estávamos em 1958, e num futuro distante na imaginação de Isaac Asimov, no conto "Escreva o seu nome com um S".
Estamos em 2017 e esse futuro ainda não chegou. Uma letra não é suficiente para mudar o mundo. Mas cada vez são precisas menos letras. 140 caracteres podem bem ser suficentes. É o tamanho de cada twitter, que pode ser traduzido por chilrear.
Parece pouco, e talvez seja pouco, quase nada ou mesmo nada.
And yet ... canta Sting.
No entanto cada chilreio dá instantaneamente a volta ao mundo, ao mundo ligado por redes, que não é todo, mas que é cada vez mais. E é repetido. E é comentado. E passa a ser notícia. E passa a dominar a notícia. Como um eco aumentado, sem distorção nem atenuação. Como uma bola de neve que passa a avalanche. Como uma avalanche ensurdecedora que engole os outros sons. E que só se cala quando começa a avalanche seguinte.
And yet ...
No entanto o mundo reage. Ações sobem ou descem. Países sobressaltam-se. Como se tudo fosse sério. Como se tudo fosse importante. Porque tem intenção. Porque se pode materializar. Porque vem de gente com poder. Porque vem do topo da cadeia alimentar. Porque há muitos botões, na política, na economia, e no nuclear. Não é sério, mas é a sério. É uma nova maneira de comunicar. Agitar. Sem diálogo, Sem contraditório. Sem verificação. Sancionada pela comunicação social, que a usa e abusa como matéria-prima. Sancionada pelos comentadores que fazem disso modo de vida. Sancionada por nós, consumidores e reprodutores de informação rápida. Tantas vezes sem reflexão. Porque confirma as nossas crenças. Porque se busca o confronto. Porque nos sentimos obrigados a reagir imediatamente. Porque isso prova a nossa participação nesta realidade mais ou menos virtual.
Que se prova, mastiga e deita fora ... cantavam os Taxi.
E que é complementada, ao vivo e a cores, pela vozearia, pela gritaria, por falar por cima, por calar os outros, por mandar calar. Saltando de ruído em ruído. Provocando a surdez. Funcionando em círculo fechado. Distraindo. Fazendo com que as atenções fiquem na forma, no incidente. Criando acidentes. Anunciando desastres. "Nós" e os outros, que são obstáculos, ou inimigos.
"If you're tired of arguing with strangers on the internet, try to talk with one in real life", disse o Presidente cessante, Barack Obama.
Lidera-se pelo exemplo. Dizem. Nada abona em favor dos seguidores. Gostaria de pensar que foi apenas o resultado da falta de boas alternativas. Não foi. Há demasiadas evidências, em muitos lugares, em demasiados lugares, de ambos os lados do Atlântico, em países pacatos ou em países conturbados, na política ou no resto do dia-a-dia, que mostram que este é o modo escolhido por muitos. Infelizmente.
Mas não vale tudo. Não pode valer tudo. É preciso afirmar outros valores. Todos os dias. Sempre!
Estamos em 2017 e esse futuro ainda não chegou. Uma letra não é suficiente para mudar o mundo. Mas cada vez são precisas menos letras. 140 caracteres podem bem ser suficentes. É o tamanho de cada twitter, que pode ser traduzido por chilrear.
Parece pouco, e talvez seja pouco, quase nada ou mesmo nada.
And yet ... canta Sting.
No entanto cada chilreio dá instantaneamente a volta ao mundo, ao mundo ligado por redes, que não é todo, mas que é cada vez mais. E é repetido. E é comentado. E passa a ser notícia. E passa a dominar a notícia. Como um eco aumentado, sem distorção nem atenuação. Como uma bola de neve que passa a avalanche. Como uma avalanche ensurdecedora que engole os outros sons. E que só se cala quando começa a avalanche seguinte.
And yet ...
No entanto o mundo reage. Ações sobem ou descem. Países sobressaltam-se. Como se tudo fosse sério. Como se tudo fosse importante. Porque tem intenção. Porque se pode materializar. Porque vem de gente com poder. Porque vem do topo da cadeia alimentar. Porque há muitos botões, na política, na economia, e no nuclear. Não é sério, mas é a sério. É uma nova maneira de comunicar. Agitar. Sem diálogo, Sem contraditório. Sem verificação. Sancionada pela comunicação social, que a usa e abusa como matéria-prima. Sancionada pelos comentadores que fazem disso modo de vida. Sancionada por nós, consumidores e reprodutores de informação rápida. Tantas vezes sem reflexão. Porque confirma as nossas crenças. Porque se busca o confronto. Porque nos sentimos obrigados a reagir imediatamente. Porque isso prova a nossa participação nesta realidade mais ou menos virtual.
Que se prova, mastiga e deita fora ... cantavam os Taxi.
E que é complementada, ao vivo e a cores, pela vozearia, pela gritaria, por falar por cima, por calar os outros, por mandar calar. Saltando de ruído em ruído. Provocando a surdez. Funcionando em círculo fechado. Distraindo. Fazendo com que as atenções fiquem na forma, no incidente. Criando acidentes. Anunciando desastres. "Nós" e os outros, que são obstáculos, ou inimigos.
"If you're tired of arguing with strangers on the internet, try to talk with one in real life", disse o Presidente cessante, Barack Obama.
Lidera-se pelo exemplo. Dizem. Nada abona em favor dos seguidores. Gostaria de pensar que foi apenas o resultado da falta de boas alternativas. Não foi. Há demasiadas evidências, em muitos lugares, em demasiados lugares, de ambos os lados do Atlântico, em países pacatos ou em países conturbados, na política ou no resto do dia-a-dia, que mostram que este é o modo escolhido por muitos. Infelizmente.
Mas não vale tudo. Não pode valer tudo. É preciso afirmar outros valores. Todos os dias. Sempre!
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Ordinary people
"This is where I learned that change only happens when ordinary people get involved, and they get engaged, and they come together to demand it."
(...)
"And all of this depends on our participation; on each of us accepting the responsibility of citizenship, regardless of which way the pendulum of power swings. Our Constitution is a remarkable, beautiful gift. But it’s really just a piece of parchment. It has no power on its own. We, the people, give it power – with our participation, and the choices we make. Whether or not we stand up for our freedoms. Whether or not we respect and enforce the rule of law."
(...)
"It falls to each of us to be those anxious, jealous guardians of our democracy; to embrace the joyous task we’ve been given to continually try to improve this great nation of ours. Because for all our outward differences, we all share the same proud title: Citizen. Ultimately, that’s what our democracy demands. It needs you. Not just when there’s an election, not just when your own narrow interest is at stake, but over the full span of a lifetime."
(...)
"I am asking you to believe. Not in my ability to bring about change – but in yours."
(...)
"Yes we can"
Barack Obama, Farewell speech, 10 january
http://www.telegraph.co.uk/news/2017/01/11/barack-obamas-farewell-speech-full/
(...)
"And all of this depends on our participation; on each of us accepting the responsibility of citizenship, regardless of which way the pendulum of power swings. Our Constitution is a remarkable, beautiful gift. But it’s really just a piece of parchment. It has no power on its own. We, the people, give it power – with our participation, and the choices we make. Whether or not we stand up for our freedoms. Whether or not we respect and enforce the rule of law."
(...)
"It falls to each of us to be those anxious, jealous guardians of our democracy; to embrace the joyous task we’ve been given to continually try to improve this great nation of ours. Because for all our outward differences, we all share the same proud title: Citizen. Ultimately, that’s what our democracy demands. It needs you. Not just when there’s an election, not just when your own narrow interest is at stake, but over the full span of a lifetime."
(...)
"I am asking you to believe. Not in my ability to bring about change – but in yours."
(...)
"Yes we can"
Barack Obama, Farewell speech, 10 january
http://www.telegraph.co.uk/news/2017/01/11/barack-obamas-farewell-speech-full/
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