Manhã serena, de sol temperado por nuvens altas.
A estrada chama.
Deslizo, quase em silêncio.
O toque do vento, sempre presente nesta terra; hoje, ligeiro.
Meio homem, meio máquina; pés-pedais, subindo e descendo; cadência certa.
O cheiro quente das salinas.
Uma rapina em voo baixo, muito baixo, mesmo ali; talvez a mesma de outro dia.
Estrada quase deserta.
Uma borboleta que passa; algumas aves.
Barcos imóveis, sós, sem gente.
Ao longe adivinha-se o mar, sob um tapete de nuvens, cinzentas.
No veleiro, apenas imaginado, o som do vento e das ondas; o céu escuro; sol em terra.
Uma pequena inclinção; um pouco mais de força.
A ponte.
Um estreito carreiro para os homens-máquina.
O chão é ondulado, incómodo, alaranjado.
Do lado esquerdo a grade, que nos separa da estrada onde as máquinas têm pessoas.
Do lado direito a ria, azul, cheia.
Do lado de lá da ponte, que agora é de cá, outra luz, mais sombria, outro ar, mais húmido.
Nevoeiro quase, mas que não toca na terra.
A ponte é sempre uma passagem.
Caminho de regresso, o mesmo mas diferente.
A estrada move-se em sentido contrário; o vento também.
Novamente uma rapina, talvez a mesma, a de sempre, agora sobre os campos.
Um comboio parado, sem destino.
Montes de areia.
Pensamentos, fragmentos, palavras escritas.
Curvado, mais máquina ainda, a estrada passa, veloz.
Cidade.
Tempo que já foi; tempo real; tempo imaginado; tempo medido; uma hora apenas.
domingo, 5 de maio de 2013
sábado, 4 de maio de 2013
Frankenstado
Sustentabilidade; austeridade; crescimento; défice estrutural; exportações.
Imperativo nacional; estratégia; consenso; construção do futuro.
Credores; parceiros; culpados; virtuosos; aliados.
Crentes; descrentes.
Patriotas.
Apregoam-se frases feitas.
Responsáveis; ex-responsáveis; futuros responsáveis; os que pairam por aí.
Comentadores; políticos em trânsito televisivo; jornalistas.
Pessoas comuns, no trabalho e na rua.
Vendem-se lugares que se tornaram comuns.
Há quem os compre, por convicção ou à falta de melhor.
Esperando que o poder da palavra crie uma realidade alternativa.
Invoca-se a necessidade de reformar o Estado, mas não se debate o papel do Estado.
Somam-se parcelas subtrativas, em busca de um resultado mágico.
Mas a meta, o compromisso, o designío, permanece inalcançável.
E então anunciam-se outras metas, sempre irrefutáveis.
E diz-se que o rumo é certo.
Cortar, cortar sempre.
A direito ou a torto.
Com demagogia.
Com intocáveis.
Há quem queira um estado mínimo.
Miragem de um Estado Bonsai.
Miniatura com harmonia.
A mão empunha a tesoura.
Sem visão, sem arte, sem tempo.
Aprendizes de feiticeiros.
Há quem queira um estado máximo.
Tudo ao alcance de todos.
Aconchegante e indolor.
A mão procura, em vão, o que distribuir.
Sem visão, sem arte, sem tempo.
Aprendizes de feiticeiros.
Os "outros", tão seguros como os "uns".
Enformar? Reformar? Deformar? Cercear?
Estado.
Insuflado por uns.
Esmagado por outros.
Puxado em diferentes direções.
Cambaleando.
Frankenstado.
Imperativo nacional; estratégia; consenso; construção do futuro.
Credores; parceiros; culpados; virtuosos; aliados.
Crentes; descrentes.
Patriotas.
Apregoam-se frases feitas.
Responsáveis; ex-responsáveis; futuros responsáveis; os que pairam por aí.
Comentadores; políticos em trânsito televisivo; jornalistas.
Pessoas comuns, no trabalho e na rua.
Vendem-se lugares que se tornaram comuns.
Há quem os compre, por convicção ou à falta de melhor.
Esperando que o poder da palavra crie uma realidade alternativa.
Invoca-se a necessidade de reformar o Estado, mas não se debate o papel do Estado.
Somam-se parcelas subtrativas, em busca de um resultado mágico.
Mas a meta, o compromisso, o designío, permanece inalcançável.
E então anunciam-se outras metas, sempre irrefutáveis.
E diz-se que o rumo é certo.
Cortar, cortar sempre.
A direito ou a torto.
Com demagogia.
Com intocáveis.
Há quem queira um estado mínimo.
Miragem de um Estado Bonsai.
Miniatura com harmonia.
A mão empunha a tesoura.
Sem visão, sem arte, sem tempo.
Aprendizes de feiticeiros.
Há quem queira um estado máximo.
Tudo ao alcance de todos.
Aconchegante e indolor.
A mão procura, em vão, o que distribuir.
Sem visão, sem arte, sem tempo.
Aprendizes de feiticeiros.
Os "outros", tão seguros como os "uns".
Enformar? Reformar? Deformar? Cercear?
Estado.
Insuflado por uns.
Esmagado por outros.
Puxado em diferentes direções.
Cambaleando.
Frankenstado.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Cronologia de um despacho - Epílogo
No episódio anterior:
"Dia 23: Conselho de Ministros - meia-maratona - água com aditivos para a economia.
Previsão 3 (silêncio)
Dia 26: Novo Conselho de Ministros e fim da terceira semana pós-despacho.
Antevisão 1: cortes sérios e despacho revogado.
Antevisão 2: anúncio da estratégia de cortes para discussão com todo o mundo e ... água."
Mais uma previsão errada. O final era outro.
Dia 24: É divulgado o despacho, assinado a 23, que revoga "o" despacho.
O seu teor esclarece que os objetivos originais foram alcançados na reunião do Conselho de Ministros ... não de 23, mas de ... 17 de abril, na qual foram definidos "os ajustamentos na despesa dos Programas Orçamentais." E ainda que é necessário cumprir a Lei [neste caso a dos compromissos] e a respetiva Regulamentação!
Vá-se lá perceber a utilidade disto tudo! Que ninguém explicou seriamente! Não acredito que fosse um imperativo legal, motivado pela inconstitucionalidade de artigos do orçamento, porque essa só será afastada com um novo orçamento, devidamente aprovado. Não acredito que fosse uma medida cautelar de gestão, até à definição de novos tetos orçamentais nos programas, porque não seria em duas semanas, em meados de abril, que os tetos para todo o ano de 2013 seriam atingidos. Acredito que pode ter sido apenas para português ver e para troika ver, partindo do triste princípio que uns e outros, afinal, pouco vislumbram para lá da poeira levantada.
"Dia 23: Conselho de Ministros - meia-maratona - água com aditivos para a economia.
Previsão 3 (silêncio)
Dia 26: Novo Conselho de Ministros e fim da terceira semana pós-despacho.
Antevisão 1: cortes sérios e despacho revogado.
Antevisão 2: anúncio da estratégia de cortes para discussão com todo o mundo e ... água."
Mais uma previsão errada. O final era outro.
Dia 24: É divulgado o despacho, assinado a 23, que revoga "o" despacho.
O seu teor esclarece que os objetivos originais foram alcançados na reunião do Conselho de Ministros ... não de 23, mas de ... 17 de abril, na qual foram definidos "os ajustamentos na despesa dos Programas Orçamentais." E ainda que é necessário cumprir a Lei [neste caso a dos compromissos] e a respetiva Regulamentação!
Vá-se lá perceber a utilidade disto tudo! Que ninguém explicou seriamente! Não acredito que fosse um imperativo legal, motivado pela inconstitucionalidade de artigos do orçamento, porque essa só será afastada com um novo orçamento, devidamente aprovado. Não acredito que fosse uma medida cautelar de gestão, até à definição de novos tetos orçamentais nos programas, porque não seria em duas semanas, em meados de abril, que os tetos para todo o ano de 2013 seriam atingidos. Acredito que pode ter sido apenas para português ver e para troika ver, partindo do triste princípio que uns e outros, afinal, pouco vislumbram para lá da poeira levantada.
Cronologia de um despacho que não permite despachar
Dia 8: é assinado o despacho que não permite despachar (salvo algumas exceções e a autorização do Ministro das Finanças). O despacho prevê a sua própria revogação em Conselho de Ministros.
Previsão 1 (de alguns entendidos): a situação iria apenas durar alguns dias, 2 ou 3.
Dia 11: Conselho de Ministros - água.
Passou a primeira semana.
Dia 17: Conselho de Ministros maratona - água.
Previsão 2 (de um membro do governo) - será revogado no próximo, agendado para o dia 23.
Passou a segunda semana.
Dia 23: Conselho de Ministros - meia-maratona - água com aditivos para a economia.
Previsão 3 (silêncio)
Dia 26: Novo Conselho de Ministros e fim da terceira semana pós-despacho.
Antevisão 1: cortes sérios e despacho revogado.
Antevisão 2: anúncio da estratégia de cortes para discussão com todo o mundo e ... água.
Previsão 1 (de alguns entendidos): a situação iria apenas durar alguns dias, 2 ou 3.
Dia 11: Conselho de Ministros - água.
Passou a primeira semana.
Dia 17: Conselho de Ministros maratona - água.
Previsão 2 (de um membro do governo) - será revogado no próximo, agendado para o dia 23.
Passou a segunda semana.
Dia 23: Conselho de Ministros - meia-maratona - água com aditivos para a economia.
Previsão 3 (silêncio)
Dia 26: Novo Conselho de Ministros e fim da terceira semana pós-despacho.
Antevisão 1: cortes sérios e despacho revogado.
Antevisão 2: anúncio da estratégia de cortes para discussão com todo o mundo e ... água.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Jornalismo? Portugal NÃO É a 4ª pior economia do Mundo
O Correio da Manhã cita o World Economic Outlook do FMI para dizer que Portugal é a pior 4ª economia do Mundo. Título que "vende", seja nos jornais ou nas redes sociais. Título propício à auto-comiseração ou ao argumentário de quem, legitimamente, e muito provavelmente com toda a razão, quer uma mudança de rumo. Título falso.
Sim, Portugal foi a 4ª economia que mais recuou em termos de Produto Interno Bruto, quando comparamos o ano de 2012 com o ano de 2011 (tabelas das páginas 150 e seguintes do dito relatório). Sim, é um péssimo desempenho e um péssimo sinal. Sim, perder qualidade pode ser mais deprimente do que ganhar alguma, por pouco que se tenha e por pouco que seja.
Mas isso não é o mesmo que afirmar que Portugal é a 4ª pior economia do Mundo. Quem tinha 100 e perdeu 3% fica com 97. Quem tinha 10 e cresceu 100% fica com 20. Mas 97 continua a ser muito maior que 20.
Se acham que não, mudem para algumas das economias que estão a crescer, por exemplo em África, e experimentem se são melhores.
Recusemos a manipulação.
Sim, Portugal foi a 4ª economia que mais recuou em termos de Produto Interno Bruto, quando comparamos o ano de 2012 com o ano de 2011 (tabelas das páginas 150 e seguintes do dito relatório). Sim, é um péssimo desempenho e um péssimo sinal. Sim, perder qualidade pode ser mais deprimente do que ganhar alguma, por pouco que se tenha e por pouco que seja.
Mas isso não é o mesmo que afirmar que Portugal é a 4ª pior economia do Mundo. Quem tinha 100 e perdeu 3% fica com 97. Quem tinha 10 e cresceu 100% fica com 20. Mas 97 continua a ser muito maior que 20.
Se acham que não, mudem para algumas das economias que estão a crescer, por exemplo em África, e experimentem se são melhores.
Recusemos a manipulação.
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