O Conselho. Não pode faltar numa boa série. Os Conselheiros, personalidades diversas. A sala do Conselho. O cerimonial. Debates mais ou menos intensos, tensos, mornos. Confrontos ou consensos. Reservado ou aberto. Conselho de aconselhamento ou conselho decisório. Conselho Coordenador do Ensino Superior. CCES. Prestes a sair do limbo a que se encontra votado há quase uma década.
Foi introduzido pelo Ministro Mariano Gago no Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, que entrou em vigor em 2007. Missão: aconselhar, no domínio da política de ensino superior, o membro do Governo responsável por esta área. Demorou dois anos a ser regulamentado, ainda pela mão do mesmo Ministro. Mas não chegou a existir, nem no Governo PS, em que a área continuou a ser governada por Mariano Gago, nem nos Governos PSD-CDS/PP que sucederam, com Nuno Crato na pasta.
Quererão mesmo os Ministros ser aconselhados? Ser confrontados com perspetivas diferentes? Ver a sua ação política, pré-determinada por campanhas, programas e compromissos, tolhida, contestada ou contrariada? Fica, ou não, enriquecido o processo de decisão?
A este Conselho de aconselhamento compete, afinal, pronunciar-se sobre as questões que lhe sejam submetidas pelo Ministro, É necessário esperar para ver. A iniciativa pertence unicamente ao governante. O Conselho pronuncia-se também sobre as matérias expressamente previstas na lei: integração de escolas de ensino politécnico em universidades; alterações da rede pública de ensino superior (fusão, integração, cisão e extinção de instituições); intervenção em situações de crise institucional. Esteve portanto ausente aquando da fusão que deu origem à atual Universidade de Lisboa, processo que requeria, nos termos da lei, parecer favorável do CCES.
Este é, no entanto, um Conselho muito diferente do que a OCDE, que voltará em breve pela mão de Manuel Heitor (à data Secretário de Estado) preconizava: "It should not be a Council for pure consultation or debate but should be charged with strategic decision making", e presidido pelo Primeiro-Ministro.
As primeiras declarações publicadas do Ministro nem apontam para uma reorientação, a breve prazo, das funções do Conselho, como a OCDE defendia, nem permitem ainda vislumbrar uma agenda consultiva em matéria de ensino superior. Remetem antes para um papel de "representar melhor o Ensino Superior na Europa e no Mundo" e um meio para a "expansão do Ensino Superior português e a sua crescente internacionalização", de acordo com notícias publicadas na imprensa.
Quererão mesmo os Ministros ser aconselhados?
Episódio I - O olhar alienígena
http://notasdasuperficie.blogspot.pt/2015/12/regresso-ao-futuro-episodio-i-o-olhar_12.html
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
What's happening to our universities?
Este é o título de um artigo de Ben Martin, da Universidade de Sussex. Sobre o caminho que está a ser percorrido por muitas universidades, em termos da sua organização e modo de funcionamento. Aparentemente ao arrepio dos ensinamentos sobre outras organizações. Para ler e refletir.
"In recent decades, many universities have been moving in the directon of a more hierarchical and centralised structure, with top-down planning and reduced local autonomy for departments. Yet the management literature over this period has stressed the numerous benefits of flatter organisational structures, decentralisation and local autonomy for sections or departments. What might explain this paradox? And why have academics remained strangely quiet about this, meekly accepting their fate?".
Artigo completo em: https://www.sussex.ac.uk/webteam/gateway/file.php?name=2016-03-swps-martin.pdf&site=25.
"In recent decades, many universities have been moving in the directon of a more hierarchical and centralised structure, with top-down planning and reduced local autonomy for departments. Yet the management literature over this period has stressed the numerous benefits of flatter organisational structures, decentralisation and local autonomy for sections or departments. What might explain this paradox? And why have academics remained strangely quiet about this, meekly accepting their fate?".
Artigo completo em: https://www.sussex.ac.uk/webteam/gateway/file.php?name=2016-03-swps-martin.pdf&site=25.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
No Reino da Dinamarca
Dinamarca. Menos de seis milhões de habitantes, mesmo contando com a pequena Sereia. País desenvolvido, ocupando a quarta posição de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano. A despesa em educação aproxima-se de 9% do Produto Interno Bruto, o valor mais elevado da OCDE. Sistema sem propinas para estudantes nacionais e da união europeia; com propinas de 6 000 a 16 000 euros para os restantes. 4.º lugar no ranking de sistemas nacionais de ensino superior Universitas 21. Várias Universidades com prestígio internacional. Universidade de Copenhaga, a maior, com 40 000 estudantes, dos quais 4 000 internacionais, ocupa o 82.º lugar no ranking do Times Higher Education. Casa de Niels Bohr, físico, um de oito galardoados com o Prémio Nobel.
Verão do ano passado. Os cortes orçamentais chegam ao setor da educação, até então poupado. E chegam para ficar. 2% ano durante os próximos quatro anos. Uma surpresa que não constava da agenda do Partido Liberal. Com argumentos que mostram que, afinal, ser número um nem sempre interessa: gastar a mesma fração do PIB do que a Suécia ou a média da OCDE permitiria uma enorme poupança. Ou de um modo ainda mais cru, nas palavras do Ministro da Educação e Ciência "Nobody is going to convince me that the higher education institutions that today are 'kornfed' cannot tighten up". Mais de 20 000 estudantes nas ruas de Copenhaga, em protesto.
Janeiro de 2016. O orçamento leva cortes de 6% à Universidade de Copenhaga. Quase 70 000 000 euros. Fevereiro. Notícias com menos de uma semana. As consequências imediatas. Mais de 500 trabalhadores deixarão a Universidade. Docentes, Investigadores, Trabalhadores dos Serviços. A entrada de estudantes de doutoramento será reduzida em 10%. A viabilidade de manter programas em ciências médicas, que exigem equipamento dispendioso, e de pequenos programas de línguas está em análise.
Verão do ano passado. Os cortes orçamentais chegam ao setor da educação, até então poupado. E chegam para ficar. 2% ano durante os próximos quatro anos. Uma surpresa que não constava da agenda do Partido Liberal. Com argumentos que mostram que, afinal, ser número um nem sempre interessa: gastar a mesma fração do PIB do que a Suécia ou a média da OCDE permitiria uma enorme poupança. Ou de um modo ainda mais cru, nas palavras do Ministro da Educação e Ciência "Nobody is going to convince me that the higher education institutions that today are 'kornfed' cannot tighten up". Mais de 20 000 estudantes nas ruas de Copenhaga, em protesto.
Janeiro de 2016. O orçamento leva cortes de 6% à Universidade de Copenhaga. Quase 70 000 000 euros. Fevereiro. Notícias com menos de uma semana. As consequências imediatas. Mais de 500 trabalhadores deixarão a Universidade. Docentes, Investigadores, Trabalhadores dos Serviços. A entrada de estudantes de doutoramento será reduzida em 10%. A viabilidade de manter programas em ciências médicas, que exigem equipamento dispendioso, e de pequenos programas de línguas está em análise.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Revolução.
As "Notas" de hoje no Click, Antena 1.
Veículos sem condutor; instrumentos que decidem; robôs emotivos; nanodispositivos médicos; fusão entre o biológico e o físico; impressão 3d de tudo e de mais alguma coisa; novas aplicações na biotecnologia e genética. Estas não são visões de Isaac Asimov. Fazem parte de um futuro que já começou a chegar, graças à ligação estreita entre áreas até então separadas. Um futuro acelerado e ampliado por estarmos ligados quase em permanência, quase em qualquer lugar, a cada vez mais pessoas e máquinas; com maior poder de cálculo ao alcance da mão do que o que levou o homem à Lua; com acesso a muito mais informação do que a que poderíamos digerir ao longo de várias vidas. Com oportunidades imensas, algumas ainda mal imaginadas, mas que, em simultâneo, questiona conceitos sobre a própria natureza do ser humano, sobre as relações entre pessoas, sobre a ética da descoberta, do uso do conhecimento e da tecnologia.
Mudança rápida, brusca, imprevisível, não mediada pela geografia ou pelo tempo. Não é evolução, é revolução - a quarta revolução industrial, como se debateu no Fórum Económico Mundial realizado, há poucos dias, em Davos.
O relatório The Future of Jobs and Skills estima uma redução global de mais de 5 milhões de postos de trabalho e uma profunda alteração de perfis: em 2020, já ao virar da esquina, mais de um terço das competências que serão procuradas não são, hoje, consideradas essenciais. O mundo pode até ter-se tornado mais plano, para usar a expressão de Thomas Friedman, mas a orografia não cessa de mudar, e as planícies dão lugar a novas colinas e mesmo a montanhas, que não serão de acesso igual para todos.
As Universidades são agentes desta revolução em curso, através da investigação que fazem. E, ainda que sem a exclusividade de outrora, são determinantes na formação de pessoas para este mundo mais interdisciplinar, mais relacional, mais intercultural, mais mutável; no qual a capacidade de aprender em permanência será valorizada; no qual os dilemas éticos estarão presentes em cada vez mais áreas.
Para fazê-lo bem precisam de um acrescido sentido crítico sobre o que as rodeia e sobre si mesmas: dos conteúdos e métodos de aprendizagem aos perfis e ação dos professores; da tecnologia disponível à diversificação de vivências dos estudantes. E precisam de resistir à pressão para um ensino profissionalizante, focado no emprego imediato, aqui e agora.
Veículos sem condutor; instrumentos que decidem; robôs emotivos; nanodispositivos médicos; fusão entre o biológico e o físico; impressão 3d de tudo e de mais alguma coisa; novas aplicações na biotecnologia e genética. Estas não são visões de Isaac Asimov. Fazem parte de um futuro que já começou a chegar, graças à ligação estreita entre áreas até então separadas. Um futuro acelerado e ampliado por estarmos ligados quase em permanência, quase em qualquer lugar, a cada vez mais pessoas e máquinas; com maior poder de cálculo ao alcance da mão do que o que levou o homem à Lua; com acesso a muito mais informação do que a que poderíamos digerir ao longo de várias vidas. Com oportunidades imensas, algumas ainda mal imaginadas, mas que, em simultâneo, questiona conceitos sobre a própria natureza do ser humano, sobre as relações entre pessoas, sobre a ética da descoberta, do uso do conhecimento e da tecnologia.
Mudança rápida, brusca, imprevisível, não mediada pela geografia ou pelo tempo. Não é evolução, é revolução - a quarta revolução industrial, como se debateu no Fórum Económico Mundial realizado, há poucos dias, em Davos.
O relatório The Future of Jobs and Skills estima uma redução global de mais de 5 milhões de postos de trabalho e uma profunda alteração de perfis: em 2020, já ao virar da esquina, mais de um terço das competências que serão procuradas não são, hoje, consideradas essenciais. O mundo pode até ter-se tornado mais plano, para usar a expressão de Thomas Friedman, mas a orografia não cessa de mudar, e as planícies dão lugar a novas colinas e mesmo a montanhas, que não serão de acesso igual para todos.
As Universidades são agentes desta revolução em curso, através da investigação que fazem. E, ainda que sem a exclusividade de outrora, são determinantes na formação de pessoas para este mundo mais interdisciplinar, mais relacional, mais intercultural, mais mutável; no qual a capacidade de aprender em permanência será valorizada; no qual os dilemas éticos estarão presentes em cada vez mais áreas.
Para fazê-lo bem precisam de um acrescido sentido crítico sobre o que as rodeia e sobre si mesmas: dos conteúdos e métodos de aprendizagem aos perfis e ação dos professores; da tecnologia disponível à diversificação de vivências dos estudantes. E precisam de resistir à pressão para um ensino profissionalizante, focado no emprego imediato, aqui e agora.
sábado, 12 de dezembro de 2015
Regresso ao futuro - Episódio I - O olhar alienígena
Precisamos, de tempos a tempos, de ver através de outros olhos, que não os nossos. Desafiando os sentidos e a razão que se cria a partir deles. Ver de novo. Ver diferente. Ver de outro ângulo. Com outras lentes. Mudando as cores. Sem cor alguma. Tocando texturas. Regressamos depois ao ponto de partida, e vemos outro mundo, apesar de ainda ser o mesmo.
Este é o efeito de olhar através do outro, do estrangeiro, do alienígena. Que convocamos pelas mais diversas razões e para os mais diversos usos. Que apela, porque diferente, talvez mais sábio. Que repele, porque diferente, porventura sem perceber os cambiantes do nosso mundo. É outro. O que é suficiente para questionar certezas e hábitos, desde que a tal estejamos abertos.
Fim de 2015. O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, chamou os olhos da OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, para vermos de modo diferente o nosso sistema de ensino superior.
Rewind.
2006. O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, apelando aos mesmos olhos, mas também aos da ENQA, Associação Europeia para a Garantia da Qualidade no Ensino Superior, para observar precisamente o sistema de garantia de qualidade, e aos da EUA, Associação Europeia de Universidades, para um olhar individualizado sobre as universidades e politécnicos que o desejassem.
O que viram esses olhos, em 2006 e 2007? O que anteciparam? O que propuseram? O que decidimos fazer com o olhar e com a razão alienígena?
Play.
Os olhos repararam numa enorme transformação ao longo de 20 anos, desde meados de 1980 até 2006: muito mais alunos no ensino superior, mais investimento em investigação, impressionante crescimento no número de doutorados. Taxas de crescimento invulgares pela sua dimensão.
A essas vistas saltaram também problemas: de definição estratégica, de gestão do sistema como um todo, de governação institucional, de qualidade, de insucesso.
E daqui resultaram propostas.
To be continued.
Este é o efeito de olhar através do outro, do estrangeiro, do alienígena. Que convocamos pelas mais diversas razões e para os mais diversos usos. Que apela, porque diferente, talvez mais sábio. Que repele, porque diferente, porventura sem perceber os cambiantes do nosso mundo. É outro. O que é suficiente para questionar certezas e hábitos, desde que a tal estejamos abertos.
Fim de 2015. O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, chamou os olhos da OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, para vermos de modo diferente o nosso sistema de ensino superior.
Rewind.
2006. O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, apelando aos mesmos olhos, mas também aos da ENQA, Associação Europeia para a Garantia da Qualidade no Ensino Superior, para observar precisamente o sistema de garantia de qualidade, e aos da EUA, Associação Europeia de Universidades, para um olhar individualizado sobre as universidades e politécnicos que o desejassem.
O que viram esses olhos, em 2006 e 2007? O que anteciparam? O que propuseram? O que decidimos fazer com o olhar e com a razão alienígena?
Play.
Os olhos repararam numa enorme transformação ao longo de 20 anos, desde meados de 1980 até 2006: muito mais alunos no ensino superior, mais investimento em investigação, impressionante crescimento no número de doutorados. Taxas de crescimento invulgares pela sua dimensão.
A essas vistas saltaram também problemas: de definição estratégica, de gestão do sistema como um todo, de governação institucional, de qualidade, de insucesso.
E daqui resultaram propostas.
To be continued.
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