domingo, 6 de janeiro de 2019

A dúvida ou o benefício









Realiza-se, amanhã, a Convenção Nacional do Ensino Superior 2030, sob o mote "O Ensino Superior e a Qualificação dos Portugueses: O que falta fazer?". Fazer, fazer ... falta fazer muito. Basta olhar para para alguns indicadores que retratam a situação do País, em comparação com outros. Basta olhar para os avanços e recuos nas políticas de ensino superior, para as medidas avulsas, e para os compromissos assinados com pompa e circunstância, mas raramente cumpridos. Basta ver algumas sessões da Assembleia da República, sobre o tema. Basta ouvir o silêncio, alguns dirão o recato, de muitos dos responsáveis, aos diversos níveis, sobre questões fundamentais.

Olhei para o programa e detive-me, apenas, nas filiações dos diferentes oradores que farão a moderação, participarão nos debates e comentarão as diferentes sessões. Não considerei, sequer, outras vestes em que alguns, por vezes, aparecem. Então, temos:

  7 Membros do Governo, maioritariamente no papel de comentadores (!)
  3 Membros de anteriores Governos
  4 Deputados
  2 Líderes de juventudes partidárias

12 Responsáveis ou ex-Responsáveis por Instituições de Ensino Superior
  3 Dirigentes de instituições de investigação, unidades de ensino ou serviços
  3 Dirigentes de Associações Estudantis
  2 Presidentes de estruturas ligados ao acesso e acreditação no Ensino Superior
10 Elementos de instituições de ensino superior universitário
  1 Membro,de nacionalidade portuguesa, de uma instituição internacional

  1 Autarca
  1 Líder sindical
  1 Presidente de uma agência para a competitividade

  1 Presidente da República

Olhando para o conjunto talvez se deva marcar falta de comparência ao Primeiro-Ministro.

Pois.
E é isto.
A caminho de 2030.

Um encontro de muita gente que, decerto, já se encontrou bastas vezes.
Ou que talvez se tenha já desencontrado inúmeras vezes.
Reitores com o Ministro da tutela e com o Presidente da República.
Deputados com Reitores.
Sindicalista com Deputados, Reitores e Associações. Associações com Deputados.
Deputados com Juventudes, e Juventudes com Associações.
Autarca com Reitor e Deputados.
Estudiosos e pensadores observando todos.
Governo e Deputados em fim de mandato.

A sensação de um circuito demasiado fechado.
Uma torre de marfim de decisores.
De posições a defender e manter.
Pode ser que me engane.
O futuro está já aí.

Logo se verá qual o benefício.
Neste momento pendo mais para o lado da dúvida.

Programa da convenção em https://www.cnensinosuperior.pt/programa/

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Subidas para baixo















No Observador de hoje:

"Portugal tem quatro escolas de negócios entre as 95 melhores da Europa: Católica-Lisbon, Nova SBE, Porto Business School e ISCTE. Esta última foi a portuguesa que mais subiu em relação ao ano passado."

Sinal "+", escolas a subir
Umas mais que as outras, como é normal.
Continuo a ler.

"(...) a Católica cai duas posições em relação ao ano anterior (...)"

Mau ...
Já sabemos que o ISCTE foi a que subiu mais.
A Católica desceu.
Restam duas.

"(...) movimento em que é acompanhada por todas as universidades portuguesas presentes nesta lista, exceto pela ISCTE Business School."

Ah!
Afinal, não.
O ISCTE foi de facto a que mais subiu.
E, em bom português, foi a única que subiu.
As outras subiram ..., como dizer ..., subiram para baixo.
A laia do jargão económico, estamos perante crescimentos negativos.

Mas cada título tem o seu impacto, implícito e explícito, com agrados e desagrados diversos:
(...) a escola portuguesa que mais subiu
(...) a única que subiu
(...) a única que não desceu
(...) a única descida negativa (também se deve poder dizer!)

domingo, 2 de dezembro de 2018

Discriminar exaustivamente











Texto, certamente em crescimento ao longo dos próximos tempos, que figura em muitos anúncios de emprego:

"O/a trabalhador/a ou candidato/a a emprego do setor privado ou público tem direito a igualdade de oportunidades e de tratamento no que se refere ao acesso ao emprego, à formação e promoção ou carreira profissionais e às condições de trabalho, não podendo ser privilegiado/a, beneficiado/a, prejudicado/a, privado/a de qualquer direito ou isento/a de qualquer dever em razão, nomeadamente, de ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, situação económica, instrução, origem ou condição social, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica ou raça, território de origem, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical, devendo o Estado promover a igualdade de acesso a tais direitos."
Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego

Texto alternativo: "Nesta casa não se efetua qualquer tipo de discriminação".

sábado, 27 de outubro de 2018

É fazer as contas!











Em artigo de opinião publicado no Expresso, no dia 20 de outubro, na sua coluna semanal Confusion de Confusiones, João Duque, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, estimou o custo da redução da propina máxima no ensino superior público, inscrita na proposta de Orçamento de Estado para 2019, em 60 milhões de euros.

A conta é simples: cerca de 200€ a menos por cada um dos 300 000 estudantes inscritos.
Certo? Errado!

Primeiro, porque a medida não se aplica a todos os estudantes; retiremos os doutoramentos, os segundos ciclos não exigidos para exercer uma profissão, os estudantes em mobilidade internacional, a Universidade Aberta e o ensino policial e militar; em conjunto serão menos 65000 alunos (ou 13 milhões de euros).

Segundo, porque a perda não é de 200€ por cabeça, pelo simples facto de que muitas instituições não cobram a propina máxima; feitas as contas aos cursos técnicos superiores profissionais e ao diferencial real da propina em apenas três politécnicos e duas universidades, e temos 5,3 milhões a deduzir.

Já vamos em 18 milhões a menos, ou seja, 30% em relação ao estimado por João Duque. E fica ainda por fazer a conta às restantes instituições e aos alunos que, por beneficiarem da ação social, não pagam propinas. É obra, tamanho erro!

Confusiones, certamente.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Espelho meu










Espelhos de refletir.  Para ver o reflexo. Ou para o reflexo nos ver a nós. Para aumentar, encolher ou distorcer. Tudo imagens virtuais. Tudo imagens reais. Prefiro espelhos para refletir. E às vezes devolvem imagens surpreendentes. Para além da superfície. Como estas notas tentam.

Tudo isto para chegar aos rankings e ao modo como são tratados. Conhecimento e desconhecimento. Uso e abuso. Tema boomerang que volta ocasionalmente, por norma nas épocas próprias dos ditos. Quando são divulgados com estrondo. Rankings. Hierarquias. O primeiro e os outros. Orgulho. Aspiração. Meta. Comparar dentro de portas quando se diz que o desafio está lá fora. Décimas que fazem a diferença, como se a diferença fosse maior do que décimas. Comparando o que é comparável? Querendo, afinal, os que se proclamam únicos, quererem ser uns entre iguais, numa mesma régua, num mesmo fato, definido para todo o mundo, por alguém?

Desta vez foi o anúncio do Times Higher Education World University Rankings 2019. Que folheei com curiosidade morna, de quem já viu isto várias vezes, e o que se segue: as análises dos autores do dito, dos comentadores, dos jornais ou até das instituições.

Mas, desta vez, algo me chamou a atenção. Um dos indicadores não encaixa no discurso dominante. Talvez já fosse assim noutros anos, não verifiquei. Vamos a ele, ao indicador de "influência da investigação": as citações.

Aqui fica um extrato da metodologia utilizada e do significado atribuído;
Our research influence indicator looks at universities’ role in spreading new knowledge and ideas. We examine research influence by capturing the average number of times a university’s published work is cited by scholars globally. This year, our bibliometric data supplier Elsevier examined 67.9 million citations to 14.1 million journal articles, article reviews, conference proceedings, books and book chapters published over five years. (...) Citations to these publications made in the six years from 2013 to 2018 are also collected. The citations help to show us how much each university is contributing to the sum of human knowledge: they tell us whose research has stood out, has been picked up and built on by other scholars and, most importantly, has been shared around the global scholarly community to expand the boundaries of our understanding, irrespective of discipline.
Mas vamos ao que a todos interessa.
Os resultados da liga.
Aceitam-se apostas!
Duvidam que muitos acertem no top 5!
Ou até no top 3!!!
Faça um esforço: pare; escreva ou pense no seu pódio e depois verifique.

Bem, aqui fica o panorama das instituições nacionais.
Por ordem decrescente.
Numa escala de 0 a 100.

Alto! Primeiro uns alertas!
Da praxe (não dessas outras praxes...).

a) Só figuram as instituições que "aderiram".
b) O ranking não é um "estudo" de todas as instituições.
c) As áreas de investigação em cada instituição, pese embora as normalizações que se possam fazer, afetam o resultado.
d) Também o tamanho e a heterogeneidade afetam o resultado de conjunto da instituição.
e) Nem toda a atividade de criação e impacto se mede, ou se mede melhor, por citações.
f) Mas como a tabela é só uma ...

Vamos lá então:

64,9 Politécnico do Porto
64,3 Universidade Católica
55,7 Universidade do Porto
52,4 Universidade de Lisboa
50,7 Universidade da Beira Interior
46,3 Universidade de Coimbra
45,6 Universidade Nova de Lisboa
43,4 Universidade de Aveiro
41,1 Universidade do Algarve
39,4 Universidade do Minho
34,1 Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
32,2 Universidade de Évora
25,0 ISCTE

Já agora, 300 das instituições participantes na edição de 2019 têm valores iguais ou superiores a 75.