quarta-feira, 11 de março de 2020

Doze Anos, Doze Dias - 2016

Photo by Xavier Foucrier on Unsplash












Dia 9.
Entre 2012 e 2016 escrevi e dei voz a vinte e nove textos que passaram no programa Click, da Universidade de Aveiro, inserido no espaço Os dias do futuro, da Antena 1. Textos sobre o ensino superior, escritos para serem ditos em voz alta, para um público variado, em não mais de 2 minutos e 30 segundos. Escrita Bonsai, trabalhada, aparada, procurando deixar à vista o essencial. Aqui fica o penúltimo texto desta aventura!


Cabelos brancos
28 de maio de 2016

Na edição de hoje do Click, Antena 1.

Imagine um município com a população de Grândola, cerca de 15000 pessoas; todas adultas; todas com emprego. Recue quinze anos, para 2001. Regresse ao presente. E compare.

Em termos de dimensão a população cresceu um pouco, cerca de 500 habitantes. Mas a primeira coisa em que se repara é que o tempo, como é inevitável, passou. E as pessoas, porque muitas são as mesmas, estão mais velhas. Com mais cabelos brancos ou mesmo com menos cabelo. Com mais rugas. Também com mais conhecimento e mais experiência, fruto do estudo e do trabalho.

A idade média atinge agora 48 anos, quando então era de 43. Não falta muito para que metade das pessoas tenha mais de meio século. A percentagem de jovens, caiu para menos de metade: são apenas 4% os que nasceram depois da adesão de Portugal à CEE ou da criação do primeiro computador Macintosh. E por cada jovem há três pessoas com mais de 60 anos, nascidas antes do Sputnik, o primeiro satélite artificial, ter sido lançado do cosmódromo de Baikonur, no que era ainda a União Soviética.

Observando de perto reparamos que muitos têm já um emprego com grande estabilidade e bem remunerado, no contexto nacional. Em cada cinco, três são homens, embora a proporção de mulheres tenha vindo a aumentar. Apesar da maior mobilidade, da abertura ao mundo e da promoção da internacionalização, apenas 4% são estrangeiros, hoje, como há quinze anos atrás. Dinheiro, produtos e conhecimento deslocam-se mais depressa do que as pessoas.

Esta não é uma fotografia de Grândola, nem de qualquer cidade, real ou imaginária. Esta é uma imagem dos docentes do ensino superior público universitário. De todos.

No futuro próximo, em menos de uma década, assistiremos, certamente, à reforma de 1800 de entre eles; mais de 10% desta população. Há conhecimento que vai, com cada um. Há também conhecimento que fica, escrito, publicado, criado; deixado para quem vier depois; mas que, por falta de seguidores poderá não ser passado de viva voz nem em experiência partilhada.

É difícil manter a estabilidade de uma pirâmide que se inverte. É preciso atuar, mudando a forma, voltando a dar corpo à base. Enquanto ainda há tempo.

terça-feira, 10 de março de 2020

Doze Anos, Doze Dias - 2015

Photo by Simon Harmer on Unsplash















Dia 8.
Ouvindo e lendo. Discordando. Manifesto em 2015, mas que não tem de facto uma data a que esteja amarrado, nem uma geografia, uma instituição ou um confinamento a casos isolados. Mais geral do que se poderia pensar. Mais abrangente do que gostaria.


Discordo
11 de novembro de 2015

Discordo. É o que me vem ao pensamento, depois de tanto ouvir e ler, e de evitar ouvir e evitar ler, todo o ruído que ocupa o espaço de comunicação, televisão, rádio, jornais, redes sociais. Discordo de muito. Discordo de quase tudo. Talvez porque outros, com quem podia concordar, falam menos ou têm menos palco. Porque hoje em dia gritar parece, estranhamente, ser mais aceite do que conversar, do que debater, do que pensar, do que fazer silêncio. Porque muitos que recorrem a discursos cheios de valores são dos mais intolerantes. Porque muitos instruídos são, afinal, mal-educados. Porque os argumentam não colam, por mais forte que a cola seja. Porque vejo pessoas que conheço, ou que julgava conhecer, a adoptar posições de um radicalismo estranho. Discordo pois.

De quem não respeita os outros e recorre ao insulto.
De quem se acha dono da democracia.
De quem se arroga o poder de decretar as razões do voto de outros. Eu sei a razão do meu voto e apenas a do voto de mais algumas pessoas.
De quem só tem certezas e nunca se engana.
De quem não reconhece o erro.
De quem esquece o passado.
De quem não é coerente.
De quem usa o medo como arma.
De quem usa a mentira como balas.
De quem usa promessas vazias como engodo.
De quem cava trincheiras e dispara rajadas sobre tudo que vem "do outro lado".
De quem liquida a cultura de diálogo.
De quem acha que o país está (devia estar) de luto, como se o país fosse só deles.
De quem acha que o país está (devia estar) em festa, como se o país fosse só deles.
De quem acha que estávamos a caminho do paraíso, que agora foi roubado.
De quem acha que estamos já na terra do leite e do mel.
De quem só vê o céu ou apenas o inferno.
De quem só vê a preto e branco, perdendo a riqueza das pessoas e da vida.
De quem acha que o caminho acabou, porque perdeu ou porque ganhou.
De quem exige acordos inexpugnáveis e de quem clama ter acordos à prova de bala.
De quem pretende reduzir a democracia ao momento do voto.
De quem entende a democracia como um jogo de futebol, em que os votos são golos.
De quem entende que a democracia é o comando dos vencedores, a quem tudo é permitido.
De quem promete rejeitar programas, orçamentos ou medidas que não conhece.
De quem confunde o Parlamento com um qualquer programa de donos da bola.
De quem se comporta como hooligans verbais.
De quem considera que interpretações diferentes são ilegítimas.
De quem emite contínuos decretos constitucionais, sem competência para o fazer.
De quem lê os mercados como quem lê a sina.
De quem apenas especula, aparentando comentar.
De quem apenas comenta, para manipular.
De quem ateia fogos, para ficar a ver.

E se esta for a maioria, então canto com os Green Day:

I want to be the minority
I don't need your authority
Down with the moral majority
'Cause I want to be the minority

segunda-feira, 9 de março de 2020

Doze Anos, Doze Dias - 2014

Photo by Waldemar Brandt on Unsplash











Dia 7.
De volta a umas eleições, então para o Parlamento Europeu. Lá fora e cá dentro. Ou a partir de cá dentro, sem olhar lá para fora. Encontrando inspiração na BD de Albert Uderzo e René Goscinny.


Os irredutíveis
1 de junho de 2014

À moda de uns célebres gauleses a vida política portuguesa desenrola-se, sobretudo, na aldeia que habitam: isolados por paliçadas do resto do mundo; entretidos em lutas entre ferreiros e peixeiros; não com um, mas com vários bardos, uns mais difíceis de silenciar do que outros; e, ocasionalmente, com sumptuosos banquetes. A Europa fica distante, como Roma ficava distante, mesmo que, do lado de fora, estejam os exércitos, vigiando e temendo estes estranhos bárbaros.

As eleições dos emissários não eram, afinal, para as cortes da Europa, mas apenas para português ver. Para Segurix foram um ensaio para os Jogos de 2015. Pareceu estar apurado, pelos mínimos, até que Antonius derrubou um dos carregadores do escudo do chefe, e este tremeu. O próprio diz agora que, num notável avanço democrático, a escolha do candidato para os Jogos será feita como nunca antes, com a participação dos membros de várias tribos. E que nunca se viu um líder que ganha ser contestado, esquecendo-se que em votações anteriores Antonius deu votos à tribo em Olissipo, e que, colocando assim a questão, a vitória não foi afinal do partido, de que ambos e muitos outros fazem parte, mas, pelos vistos, apenas de Segurix e da sua poção mágica. A Europa não existe.

Passus e Portus (não o dos mosqueteiros, que esse andava com outras companhias) perderam e por muito. A biga que comanda os destinos da aldeia com apoio da troika que é, mais ou menos, como uma quadriga com menos um cavalo, agradece o desvio das atenções, evitando assim uma nova cena de revogação de atos irrevogáveis. Apelando às artes ocultas vão mudando a realidade: é preciso fazer mais do que a troika exige; as negociações são difíceis; não fomos nós que negociámos o acordo; fizemos o que devíamos independentemente das imposições; estamos a recuperar a independência; fizemos muitas reformas ou, pelo menos, vários guiões. Mas eis que os Tribunus Maximus decretam que assim não pode ser. Então soltam o bardo Marcus Antonius que ignora as promessas proferidas por todos de cumprir a constituição, aquelas tábuas escritas que são uma chatice mas que, como são de pedra, precisam de uma grande maioria para alterar; e que vocifera contra o cronos da decisão, agora que a troika está quase a ir (afinal ainda não foi?) e se pode arrepender; o que diria se a decisão dos Tribunus não tivesse demorado cinco meses mas apenas três, e fosse tomada em plena avaliação, e tivesse o efeito devido, retroativo? A Europa não existe.

Jeronimus (não o índio) ficou contente. Envia três membros da tribo para a Europa. Mas, como a Europa não existe, o que é preciso é Julius Cavacus apear Passus e Portus, que foi o que os portugueses quiseram dizer. O que vale é que ele, como tantos outros, interpreta bem o que os portugueses quiseram dizer.

Marinhus é uma nova personagem nesta edição revista e aumentada da série sobre os gauleses. Mas, como a Europa não existe, não há nada como tentar trocar o lugar agora conquistado por um que permita intervir na aldeia, numa próxima ida às urnas.

Catarinix perdeu. Nestas ocasiões a matemática dá sempre jeito, bem como umas contas entre direita e esquerda, entre passado e presente, para que, assim, não perca sozinha, apesar de não gostar de dizer que perdeu como Passus e Portus perderam.

A Europa não existe para os irredutíveis políticos. As mudanças em curso na Europa não existem para os irredutíveis políticos. Mesmo que sejam os godos, de este ou de oeste, os visigodos, ostrogodos ou normandos a ditar regras. Mesmo que seja de lá que vêm muitos sestércios, ou marcos ou euros. Mesmo que a Europa não seja, no mundo, o que já foi.

E os irredutíveis políticos não perceberam o que os portugueses, indo ou não votar, quiseram dizer. Continuam nas Guerras dos Chefes, dentro e fora das tribos.

domingo, 8 de março de 2020

Doze Anos, Doze Dias - 2013

Photo by Thomas Q on Unsplash















Dia 6.
Por vezes saíam outras Escritas. Sem as procurar, sem as antecipar, sem as provocar, sem saber muito bem como nem porquê, a não ser que estavam por aí. Iam ganhando forma, lentamente, em pensamento, escolhendo direções próprias. Quando se sentiam prontas escorriam através das teclas, sem grande filtro. Precisando às vezes de uns retoques, ao de leve, para melhor deixar fluir o ritmo e a melodia, sem causar ondas à superfície.


Mundos paralelos
30 de dezembro de 2013

Habito mundos paralelos. Como este em que me encontro agora, do tamanho de uma sala, lareira acesa, luz de inverno entrando pela janela, o som do lápis sobre o papel, o som da cidade, abafado, que hoje parece apenas feito de pássaros. Mas há outros mundos, tão reais como este. Imateriais. Materiais. Mundos em que se vive e se sente. Povoados por gente, por seres que não são gente, por fantasmas e demónios, por objetos iguais mas diferentes, por paisagens incompletas, por cores de outras paletas. Sei que existem: já lá estive. Em sonhos dormidos. Em sonhos acordados. Ao passado que foi. Ao passado evitado. Ao passado que podia ter sido. E ao futuro que vai ser, que talvez venha a ser. Por vezes basta um cheiro familiar, já há muito não sentido, e eis que atravesso uma porta, entrando num outro tempo. Mais do que regressar ao passado é como se um pedaço de passado se incrustasse no presente, arrastando com ele sombras difusas, e criando um agora diferente. Há outras portas, mas só sabemos que o são quando por elas passamos: palavras, objetos, rostos, olhares, pensamentos. Por vezes são janelas, mantendo alguma ordem nos mundos, permitindo apenas olhar, às vezes ouvir, quem sabe, ser visto. Outras vezes ainda são espelhos, refletindo o olhar de quem olha. Mundos separados, misturados, ligados. Não estou sempre aqui, embora não deixe nunca de estar aqui. Sou habitado por mundos paralelos.

sábado, 7 de março de 2020

Doze Anos, Doze Dias - 2012

Photo by Siora Photography on Unsplash











Dia 5.
Cruzando leituras e reflexões sobre a sociedade.
Sobre informação abundante, fragmentada, talvez excessiva.
A requerer esforço para que tenha sentido, para dela fazer sentido.
A exigir cada vez mais tempo ao nosso tempo.


Três coisas, mais uma.
14 de julho de 2012

"Faltam três coisas. [...] Número um, como disse: qualidade de informação. Número dois: horas livres para a digerirmos. E número três:o direito de realizarmos acções baseadas naquilo que aprendemos da interacção das duas primeiras."

A primeira, paradoxalmente, nesta era da informação, é, desde logo, difícil de obter. Estamos rodeados por muita informação, por pedaços de informação, mais ou menos mastigados, mais ou menos repetidos, competindo uns com os outros por ocupar o espaço na nossa mente. E estamos também rodeados por muita distração, disfarçada de informação, até porque o controlo desta é uma arma estratégica. É, pois, necessário adotar uma atitude ativa de procurar informação de qualidade, separar o essencial do acessório, os cabeçalhos do verdadeiro conteúdo, a leitura de um resumo pela leitura do texto.

A segunda coisa também não é trivial: horas livres para digerir a informação. Condicionados pela pressão da urgência em que se transformou o dia-a-dia, e pela busca de algum lazer, quando tal é possível, vamos deixando a informação acumular-se. Absorvemos pequenas porções, que depois repetimos, mas não chegamos a "grocar", usando a palavra criada pelo escritor de ficção científica Robert Heinlen, com o sentido de plena compreensão.

E, a terceira coisa, agir com base em informação de qualidade e adequadamente digerida. Passar dos pensamentos aos atos. Intervir em vez de delegar. Fazer em vez de esperar que outros façam.

A estas três coisas acrescento mais uma: o direito de discutir e de discordar, sem censuras impostas ou auto-impostas, sem um coro de pensamentos únicos e de caminhos ditos "inevitáveis."

A frase inicial é retirada de uma história sobre um mundo em que as pessoas eram mantidas alienadas, supostamente felizes, e em qualquer elemento suscetível de introduzir desconforto deveria ser eliminado. Uma história na qual os livros foram banidos e os écras tomavam conta das salas de estar. Uma história na qual os bombeiros incendiavam casas e livros. Um livro escrito em 1953: Fahrenheit 451, por Ray Bradbury.