Em tempos de crise, reduções orçamentais, cortes de pessoal e outras restrições, em todos os setores de atividade e também nas universidades, aqui fica uma curiosa descrição da estrutura de despesa da Universidade de Coimbra:
É possível igualmente conhecer a estrutura de despesa em Coimbra, captada em diversos momentos do século XVIII: os gastos anuais orçavam os 20 contos de réis (em 1765-1769), sendo os ordenados (do reitor dos lentes e dos oficiais) a parcela maior (55,4%); as tenças pagas a familiares de professores e funcionários montavam a 11,5%; as subvenções pagas ao Colégio de S. Paulo e ao Colégio das Artes, 13,2%; as despesas com a capela (4%) e com os préstitos (2%) eram menores; pelo contrário, eram significativas (e tinham-no sido muito mais na segunda e terceira décadas do século, altura em que se construíram a nova "casa da livraria" e a torre) as que se efectuavam com obras (10%); 3,8% eram gastos em encargos diversos.
in Uma história da Universidade na Europa, vol. II - as Universidades na Europa Moderna (1500-1800), coordenadora H. Ridder Symoens.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Mobilidade e acesso ao ensino superior
A Direcção-Geral do Ensino Superior disponibiliza um conjunto de estatísticas e relatórios sobre ensino superior. É o caso da publicação intitulada "Concurso Nacional de Acesso: 2010 em números", de Janeiro de 2011.
Entre os diversos dados apresentados olhei com particular interesse para o que é designado para os quadros "mobilidade de candidatos considerando a primeira preferência de colocação" e "colocados por instituição de ensino superior e distrito de origem."
A seriação de preferências, e a subsequente colocação, é um exercício em que se combinam múltiplos factores: a nota de acesso, as instituições que oferecem as áreas e os cursos de preferência, questões económicas, aspectos afectivas, de proximidade e de preferência geográfica. Não é simples, por isso, tirar conclusões seguras nem estabelecer relações causa-efeito. Ficam assim, apenas, algumas observações, mais da superfície dos números do que para lá dela, tendo por base o cálculo de algumas relações entre os dados disponibilizados (que se referem, unicamente, à 1ª fase do concurso nacional de acesso).
No primeiro caso, e tendo por base o distrito de candidatura (origem) e o distrito a que se refere a 1ª opção de colocação é possível constatar, meramente em termos de distritos e considerando todas as instituições de ensino superior público, universitário e politécnico, que:
Lisboa recolheu 31% das preferências, seguida do Porto (22%), Coimbra (11%), Braga (7%) e Aveiro (4%).
A taxa de alunos cuja primeira opção se localiza no distrito de origem foi muito elevada em, apenas, 3 casos: Lisboa (88%), Coimbra (82%) e Porto (79%); seguem-se Braga (55%) e Madeira (52%).
Candidataram-se 2574 alunos do distrito de Coimbra, que foi, por sua vez, o distrito preferido por 5814 candidatos, ou seja mais do dobro; com base nesta mesma relação segue-se Castelo Branco (com um rácio de 1,6), Lisboa (1,4), Porto (1,2) e Évora (1,1).
Olhando agora para o distrito de origem dos candidatos efectivamente colocados na Universidade do Porto, a instituição com mais vagas a concurso, constata-se que 66% dos colocados são originários do distrito do Porto; se considerarmos Braga obtemos 75% dos colocados; adicionando Aveiro e Viana do Castelo atingimos 85%; com Vila Real e Viseu perfazem-se 92%. Apenas 8% são provenientes do restante território.
A seguir com atenção agora, em 2011, ano em que a situação económica das pessoas poderá ter um peso crescente nas opções.
Entre os diversos dados apresentados olhei com particular interesse para o que é designado para os quadros "mobilidade de candidatos considerando a primeira preferência de colocação" e "colocados por instituição de ensino superior e distrito de origem."
A seriação de preferências, e a subsequente colocação, é um exercício em que se combinam múltiplos factores: a nota de acesso, as instituições que oferecem as áreas e os cursos de preferência, questões económicas, aspectos afectivas, de proximidade e de preferência geográfica. Não é simples, por isso, tirar conclusões seguras nem estabelecer relações causa-efeito. Ficam assim, apenas, algumas observações, mais da superfície dos números do que para lá dela, tendo por base o cálculo de algumas relações entre os dados disponibilizados (que se referem, unicamente, à 1ª fase do concurso nacional de acesso).
No primeiro caso, e tendo por base o distrito de candidatura (origem) e o distrito a que se refere a 1ª opção de colocação é possível constatar, meramente em termos de distritos e considerando todas as instituições de ensino superior público, universitário e politécnico, que:
Lisboa recolheu 31% das preferências, seguida do Porto (22%), Coimbra (11%), Braga (7%) e Aveiro (4%).
A taxa de alunos cuja primeira opção se localiza no distrito de origem foi muito elevada em, apenas, 3 casos: Lisboa (88%), Coimbra (82%) e Porto (79%); seguem-se Braga (55%) e Madeira (52%).
Candidataram-se 2574 alunos do distrito de Coimbra, que foi, por sua vez, o distrito preferido por 5814 candidatos, ou seja mais do dobro; com base nesta mesma relação segue-se Castelo Branco (com um rácio de 1,6), Lisboa (1,4), Porto (1,2) e Évora (1,1).
Olhando agora para o distrito de origem dos candidatos efectivamente colocados na Universidade do Porto, a instituição com mais vagas a concurso, constata-se que 66% dos colocados são originários do distrito do Porto; se considerarmos Braga obtemos 75% dos colocados; adicionando Aveiro e Viana do Castelo atingimos 85%; com Vila Real e Viseu perfazem-se 92%. Apenas 8% são provenientes do restante território.
A seguir com atenção agora, em 2011, ano em que a situação económica das pessoas poderá ter um peso crescente nas opções.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Liberdade para os deputados
Nunca compreendi a disciplina de voto a que os deputados se sujeitam, abdicando assim de exprimir posições próprias, como se, nas mais variadas matérias em discussão, cada partido defendesse uma única via e qualquer divergência fosse um grave delito.
Esta metamorfose de deputados em meros números, que para efeitos de votação e aumento de eficiência requereria apenas um representante de cada partido e a placa com o número correspondente de deputados, empobrece a actividade parlamentar e não dignifica os próprios.
Situação que pode ser confortável para uns, permitindo-lhes escudar-se atrás de decisões tomadas nos distantes corredores das cúpulas partidárias; mas que será certamente desconfortável para outros, motivando conflitos interiores, declarações de voto ou estratégicas ausências do hemiciclo nos momentos de votação.
Concordo por isso com a intenção do novo líder do PS, António José Seguro, de introduzir "a liberdade de voto como regra da acção dos deputados do PS na Assembleia da República", retirando assim os grilhões formais à actuação individual. Sobre os grilhões mentais cada um responderá por si e, mesmo isso, já será um ganho significativo.
Esta metamorfose de deputados em meros números, que para efeitos de votação e aumento de eficiência requereria apenas um representante de cada partido e a placa com o número correspondente de deputados, empobrece a actividade parlamentar e não dignifica os próprios.
Situação que pode ser confortável para uns, permitindo-lhes escudar-se atrás de decisões tomadas nos distantes corredores das cúpulas partidárias; mas que será certamente desconfortável para outros, motivando conflitos interiores, declarações de voto ou estratégicas ausências do hemiciclo nos momentos de votação.
Concordo por isso com a intenção do novo líder do PS, António José Seguro, de introduzir "a liberdade de voto como regra da acção dos deputados do PS na Assembleia da República", retirando assim os grilhões formais à actuação individual. Sobre os grilhões mentais cada um responderá por si e, mesmo isso, já será um ganho significativo.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
How much information is too much?
"How do we go about examining our own decision-making process and, if necessary, adjusting them? First off is to distinguish between information and process. There can be an over-emphasis on the collection of data and its analysis. Smart people with good information can still come to incorrect conclusions thanks to poor procedures for working with that information.
More isn't always better when it comes to collecting data. Not only do you risk diluting the quality of your information by casting too wide a net, but there is also the time factor to consider. All other things being equal, few decisions don't benefit from being made sooner rather than later."
G. Kasparov (2007) How life imitates chess.
Informação; processos; conhecimento; decisão; comunicação. Uso do conhecimento; uso eficaz; uso atempado. Pequenas grandes diferenças!
More isn't always better when it comes to collecting data. Not only do you risk diluting the quality of your information by casting too wide a net, but there is also the time factor to consider. All other things being equal, few decisions don't benefit from being made sooner rather than later."
G. Kasparov (2007) How life imitates chess.
Informação; processos; conhecimento; decisão; comunicação. Uso do conhecimento; uso eficaz; uso atempado. Pequenas grandes diferenças!
sábado, 9 de julho de 2011
Ensino Superior - Programa do Governo
O Programa do Governo para o Ensino Superior pouco revela sobre a sua visão para o sector e sobre o sentido da sua actuação.
Como objectivos estratégicos define a existência de um quadro legislativo/regulatório claro consistente e transparente; a manutenção do sistema binário; o reforço das políticas de regulação assentes em acreditação e avaliação independentes.
Das 10 medidas preconizadas são várias as que se referem ao quadro legal, regulatório e procedimental, ainda que em termos mais moderados que os constantes do programa eleitoral do PSD: acompanhamento, avaliação, revisão e melhoria das "leis estruturantes"; revisão da legislação referente à criação e alteração de cursos; continuação da regulação "incisiva" através da A3ES; simplificação de procedimentos burocráticos nas instituições.
Outras que podemos enquadrar numa lógica de continuidade referem-se à melhoria da informação sobre a empregabilidade dos cursos; apoio a estruturas de fomento do emprego dos diplomados e do empreendedorismo; manutenção dos programas de mobilidade; o investimento nos cursos de especialização tecnológica.
Há ainda duas medidas, anunciadas com palavras cuidadosas - estudo, discussão - em domínios que podem originar mudanças profundas no sistema de ensino superior: a reorganização da rede pública e o modelo de financiamento.
No primeiro caso o governo anuncia o "estudo de possíveis medidas conducentes à reorganização da rede pública de instituições de Ensino Superior, com eventual especialização das instituições em termos de oferta de cursos e de investigação". Assume-se, pois, a necessidade de reorganização da rede de instituições. Já o caminho apontado parece de difícil execução e mesmo de duvidosa razoabilidade. As insituições públicas existentes, se exceptuarmos as escolas superiores não integradas, são todas de carácter generalista, isto é, actuam em numerosas áreas do conhecimento, quer em termos de oferta de cursos quer de investigação. Uma eventual especialização implicará a separação de áreas por instituição, reduzindo a interdisicplinaridade interna, a competição entre instituições e as possibilidades de escolha de alunos e empregadores. Não sei se há exemplos internacionais sobre uma abordagem similar. Estranhamento não há referência explícita às possibilidades de reorganização da rede por fusões, consórcios, extinções. É pois uma área que carece de clarificação.
No segundo caso, o do financiamento (única área cuja legislação não foi profundamente alterada desde 2003) o governo preconiza a "discussão do modelo de financiamento do ensino superior, com vista, por um lado, a uma maior estabilidade e previsibilidade e, por outro, à consideração de factores de qualidade da actividade e de incentivos ao seu melhoramento". Nestes termos fica tudo em aberto, não se indicando uma visão em termos de repartição do financiamento (entre estudantes/famílias, estado, outras fontes), não se abordando os instrumentos disponíveis (fórmula, contratos institucionais, fundos competitivos), e não se referindo o que não seria adequado em modelos anteriores.
Nota-se que desapareceu, face ao programa do PSD, a referência à necessidade de conferir maior autonomia às instituições.
É preciso esperar para ver!
Como objectivos estratégicos define a existência de um quadro legislativo/regulatório claro consistente e transparente; a manutenção do sistema binário; o reforço das políticas de regulação assentes em acreditação e avaliação independentes.
Das 10 medidas preconizadas são várias as que se referem ao quadro legal, regulatório e procedimental, ainda que em termos mais moderados que os constantes do programa eleitoral do PSD: acompanhamento, avaliação, revisão e melhoria das "leis estruturantes"; revisão da legislação referente à criação e alteração de cursos; continuação da regulação "incisiva" através da A3ES; simplificação de procedimentos burocráticos nas instituições.
Outras que podemos enquadrar numa lógica de continuidade referem-se à melhoria da informação sobre a empregabilidade dos cursos; apoio a estruturas de fomento do emprego dos diplomados e do empreendedorismo; manutenção dos programas de mobilidade; o investimento nos cursos de especialização tecnológica.
Há ainda duas medidas, anunciadas com palavras cuidadosas - estudo, discussão - em domínios que podem originar mudanças profundas no sistema de ensino superior: a reorganização da rede pública e o modelo de financiamento.
No primeiro caso o governo anuncia o "estudo de possíveis medidas conducentes à reorganização da rede pública de instituições de Ensino Superior, com eventual especialização das instituições em termos de oferta de cursos e de investigação". Assume-se, pois, a necessidade de reorganização da rede de instituições. Já o caminho apontado parece de difícil execução e mesmo de duvidosa razoabilidade. As insituições públicas existentes, se exceptuarmos as escolas superiores não integradas, são todas de carácter generalista, isto é, actuam em numerosas áreas do conhecimento, quer em termos de oferta de cursos quer de investigação. Uma eventual especialização implicará a separação de áreas por instituição, reduzindo a interdisicplinaridade interna, a competição entre instituições e as possibilidades de escolha de alunos e empregadores. Não sei se há exemplos internacionais sobre uma abordagem similar. Estranhamento não há referência explícita às possibilidades de reorganização da rede por fusões, consórcios, extinções. É pois uma área que carece de clarificação.
No segundo caso, o do financiamento (única área cuja legislação não foi profundamente alterada desde 2003) o governo preconiza a "discussão do modelo de financiamento do ensino superior, com vista, por um lado, a uma maior estabilidade e previsibilidade e, por outro, à consideração de factores de qualidade da actividade e de incentivos ao seu melhoramento". Nestes termos fica tudo em aberto, não se indicando uma visão em termos de repartição do financiamento (entre estudantes/famílias, estado, outras fontes), não se abordando os instrumentos disponíveis (fórmula, contratos institucionais, fundos competitivos), e não se referindo o que não seria adequado em modelos anteriores.
Nota-se que desapareceu, face ao programa do PSD, a referência à necessidade de conferir maior autonomia às instituições.
É preciso esperar para ver!
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