domingo, 26 de abril de 2015

Ser apenas meio

Há realidades a preto e branco, poucas talvez, mas em que há uma fronteira com dois lados. Há realidades em tons de cinza, com matizes, subtilezas. Há os que são definidos pela positiva e os que são definidos pela negativa, ou por várias negativas. Para Thomas Friedman há um mundo que se torna mais plano, como resultado do fim da guerra fria, da tecnologia, de pessoas preparadas para a usar, de mudanças nas organizações que o permitem e promovem. Um mundo mais ligado em que a geografia conta menos. Que permite que este texto seja já acessível a milhões de pessoas; ou que uma fotografia seja partilhada em grupo, antes mesmo de ser vista pela pessoa que está ao lado. Que permite reorganizar processos através do globo, dando novas oportunidades a uns, tirando oportunidades a outros. Em que a mudança já aconteceu, ainda que nem todos a tenham ainda compreendido. Mas em que nem todos vivem. Mas em que muitos ficam do lado de fora.

"Não existe apenas o mundo plano e o mundo não-plano. Muitos vivem numa espécie de quinta dimensão situada entre ambos. Neste grupo incluem-se aqueles a quem identifico como os que não têm poder. São um vasto grupo de pessoas que não entraram completamente no mundo plano. Ao contrário dos que estão demasiado doentes, que ainda têm uma hipótese de entrar no mundo plano, os que não têm poder são aquelas que podemos dizer que estão num mundo "meio-plano". São pessoas saudáveis que vivem em países com zonas que já estão no mundo plano, mas que não dispõem das ferramentas, das competências ou das infra-estruturas necessárias para participarem, de forma significativa ou sustentada, no processo. Apenas dispõem de informação suficiente para saberem que o mundo em torno delas está a ficar plano e que elas não estão a recolher qualquer vantagem disso. Ser plano é positivo mas implica muita pressão. Não ser plano é terrível e implica muito sofrimento. Mas ser "meio plano" resulta numa situação muito especial de ansiedade."

T.L. Friedman (2005) "O mundo é plano. Uma história breve do século XXI".

sexta-feira, 24 de abril de 2015

24 de abril

24 de abril de 2015. É noite. Na minha sala Ray Charles canta Georgia on My Mind. Sons de 1960. Ainda não tinha nascido. Sons também de hoje. Escuto. Como se ele ainda estivesse aqui. E a luz fosse apenas meia. Por entre o fumo. Por entre a música. Salto no tempo. 24 de abril, 25 de abril, amanhã, ontem, há 41 anos, 1974. Memórias de uma revolução. Liberdade. Democracia. O tempo não pára. Recuo. 1945. Fim da guerra que não acabou com o mundo. Animais na Quinta que é deles. Animais de George Orwell. Pessoas. "Eram sempre os porcos que formulavam as moções. Os restantes animais percebiam como é que se votava, mas nunca conseguiam formular as suas próprias propostas.". O pêndulo oscila. 2015. Ano de eleições. Ano de votações. Democracia não são apenas eleições. Democracia não é apenas votar. Hit the Road Jack.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Das tribos

"Yet, ironically, many staff members are far more loyal to the university than students or faculty. In one sense this is because they are more permanent than students and faculty. Students are essentially tourists, spending only a few short years on the campus, and seeing relatively little of its myriads activities. Similarly, many faculty members view their appointments in the university as simply another step up the academic ladder. Their presence at and loyalty to the institution is limited, usually outweighted by their loyalty to their disciplines and their careers. In contrast many staff members spend their entire career at the same university, although may assume a variety of roles. As a result, they not only exhibit a greater institutional loyalty than faculty or students, but they also sustain the continuity, the corporate memory, and the momentum of the university. Ironically, they also sometimes develop a far broader view of the university, its array of activities, and even its history, than do the relative short-timers among the faculty and students."

James Duderstadt (2000), A University for the 21st century.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Números preteridos

Sabia que nunca houve tantos estudantes inscritos nas universidades públicas como em 2014? É verdade! De acordo com os dados publicados eram 198 380, perfazendo uma série de quatro anos consecutivos acima de 190 000 estudantes. Números facilmente acessíveis, basta ir à Pordata. Números raramente ditos: pelos governantes; pelos políticos; pelos jornalistas; pelos académicos. Valores 17% superiores aos registados em 2007, nas vésperas do início da crise internacional; um acréscimo de 10% se considerarmos os últimos 10 anos; de 56% se recuarmos 20 anos. Números preteridos em relação às análises de curto prazo; à queda das entradas no último par de anos; aos ciclos da comunicação; aos circos da comunicação; com ou sem agendas escondidas. Questões de escalas: de tempo, de valor, de valores que não números. A recordar quando se discute o papel das universidades; ou o financiamento público das mesmas.

domingo, 1 de março de 2015

Solidariedade por decreto

O Expresso publicou, neste sábado, uma entrevista ao Secretário de Estado do Ensino Superior (SEES), José Ferreira Gomes, a propósito do financiamento do ensino superior público e das alterações que o Governo propõe nesta matéria. Muito haveria (haverá) a comentar sobre o significado político de algumas das afirmações, sobre a realidade dos números e a realidade percebida, sobre o papel do financiamento, sobre as medidas de reforço da "coesão territorial". A prioridade é, agora, clara: manter todas as instituições custe o que custar.

Mas fico-me apenas por um outro aspeto, que podendo parecer de mera semântica, não o é, antes me recordando versões da Newspeak de George Orwell: a linguagem manipuladora; de forma consciente e deliberada; ou de forma inconsciente, de tal forma os conceitos deformados se vão entranhado.

Veja-se esta passagem da entrevista:

"P: As [instituições] que estão mais desafogadas vão emprestar dinheiro às que têm mais dificuldades?
R: Vão dar. Não se chamava fundo de coesão, mas isso aconteceu até agora. E têm a expectativa de, uma vez corrigidos os desiquilíbrios, virem o seu esforço a ser recompensado. O crescimento de alunos que estamos a prever, por haver mais jovens a terminar o secundário e maior procura pelos novos cursos superiores profissionais que criámos, permitirá reequilibrar o sistema e corrigir gradualmente, em quatro, cinco anos, a situação das que deviam receber mais dinheiro.
P: Os reitores estão convencidos com a aplicação desse princípio de solidariedade ente instituições?
R: A solidariedade nunca é fácil. (...)"

Podíamos começar pela própria pergunta, pelas instituições "mais desafogadas", qual graduação, de mais a menos, mas em que todas estão desafogadas; talvez umas "folgadas"; nenhuma "afogada". E pelo conceito de "empréstimo". De acordo com o SEES não se trata de empréstimo mas de uma doação: "Vão dar." Ora o que se passa é que não vão dar; vão é receber menos. Quem vai retirar de um lado, não distribuindo, para dar a outro, com o objetivo de manter todas as instituições a funcionar, é o Governo, através de um mecanismo que desenhou e pretende agora ver validado; não são as instituições; não se trata de uma auto-gestão financeira da rede pública de ensino superior.

E podíamos continuar com o que, uma vez mais, o SEES coloca nas próprias instituições: a expectativa de "virem o seu esforço a ser recompensado". Não sei se as instituições têm essa expectativa, nem sobre o modo de recompensa. Cria-se assim a ideia de que há um ato de voluntarismo inicial das instituições, e uma recompensa no fim do caminho. Com um data apontada de modo vago, quatro, cinco anos, suficientemente distante para não representar um compromisso.

E, embora induzido pela pergunta, alimenta-se a conotação com um ato de solidariedade "que não é fácil", a bem do equilíbrio do todo. Uma "solidariedade" que não é de iniciativa das instituições, que talvez seja afinal recompensada, e que é difícil. Solidariedade por decreto, como já tinha sido feito com a "Contribuição Extraordinária de Solidariedade".