segunda-feira, 18 de junho de 2018

Prioridades















Presidente da República em Moscovo
O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa estará em Moscovo na próxima quarta-feira, 20 de junho, para acompanhar a Seleção Nacional de Futebol no jogo da Fase Final do Mundial com a Seleção de Marrocos. O Chefe de Estado terá também um encontro com o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin.
Lido na página oficial da Presidência da República Portuguesa.

Lá terá de ser. Afnal de contas, não há jogos de bola grátis. E como este é a Leste, onde, de facto, não há nada de novo, pronto, implica uma ida ao Kremlin. Não que calhe mal de todo. Até porque quase a seguir o destino é Washington. E talvez seja preciso fazer de mediador. Ah ... não ... não é preciso? Têm a certeza? Não se perdia nada em tentar!

A Assembleia da República resolve (...) dar assentimento às seguintes deslocações de Sua Excelência o Presidente da República, durante o mês de junho:
Moscovo, Federação Russa, entre os dias 19 e 21, para acompanhar a seleção nacional, no âmbito do Mundial de Futebol 2018, no jogo Portugal-Marrocos;
Washington DC, Estados Unidos da América, entre os dias 25 e 28, em Visita Oficial.
Lido no Diário da República.

Uma deslocação para acompanhar a seleção, em que só falta dizer a hora do jogo, o estádio e o alinhamento inicial da equipa. Não que seja mesmo preciso, uma vez que o Presidente terá, certamente, inside information. E depois uma visita, apenas oficial. Mas com maiúsculas. Prenúncio de que será uma Grande Grande Visita. Há até quem descortine, nesta última visita, um sinal claro de recandidatura do Presidente. A pensar já no Mundial de Futebol de 2026, para fechar o 2.º mandato com mais um título mundial, desta vez conquistado no MetLife Stadium, em Nova Jérsia. E assim se tornando o primeiro Presidente-Tricampeão! Que más-línguas! E não, não foi um daqueles ex-políticos-analistas-comentadores-que-todas-as-semanas-anunciam-novidades.

Sempre a rolar! Ora ... Bolas!

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Uma questão de identidade










O Professor Universitário decidiu subscrever o Manifesto. Por estar preocupado com os destinos da Ciência em Portugal. Porque acredita na importância que a ciência tem para o desenvolvimento do País. Porque acredita que o financiamento é insuficiente, e que o funcionamento é deficiente. Porque não quer que sejam estas as razões que conduzem muitos à procura de outras paragens para fazer ciência. Umas breves palavras tecladas, nome, instituição, país, e três cliques depois - talvez tenha tido uma breve hesitação a preencher a ocupação/cargo - juntou a voz à de muitos da sua comunidade.

O coro de vozes decidiu "alertar o Governo e a Assembleia da República para os graves problemas existentes e apontar direções para a sua solução". O Governo, como órgão de condução da política geral e órgão superior da administração pública, com uma pasta para a Ciência, emparelhada com a Tecnologia e o Ensino Superior. A Assembleia porque detém competência legislativa e de fiscalização dos atos do Governo e da Administração.

O coro de vozes decidiu pedir ao "Governo e à Assembleia da República que reconheçam urgentemente a necessidade de traçar um rumo de médio e longo prazo para a Ciência em Portugal que de forma sustentada nos permita ultrapassar estes estrangulamentos e fazer avançar o nosso país através da ciência e da tecnologia". Um rumo a traçar, tempo futuro, tornando claro que não existe no presente. Um rumo "que garanta os fundamentos essenciais de regularidade, estabilidade e respeito acima definidos, tornando estes princípios essenciais da sua política de ciência". Princípios que, claramente, carecem de ser assegurados e de ganhar presença nas políticas.

O Professor Universitário, preocupado, olhou para o seu reflexo, enquanto premia "submeter". E viu, do outro lado, o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, confiante, a fazer o mesmo gesto como só os reflexos sabem fazer, subscrevendo, também ele, o Manifesto.

O Professor-também-Ministro acabava de alertar a Assembleia que fiscaliza a atuação do Governo e, portanto, a atuação do Ministro-também-Professor, o qual, no seu gesto simétrico, parece recomendar à Assembleia que recomende ao Governo, e portanto, a ele próprio, uma atuação distinta.

O Professor-também-Ministro acabava de alertar o Governo para os problemas da política atual e da respetiva implementação, num recado destinado ao Ministro-também-Professor, o qual, no seu gesto simétrico, parece ter em mente outros destinatários, que não ele próprio. Recados talvez mais para cima, para o Primeiro de entre os Ministros; ou para o lado, para os colegas, com especial atenção ao Ministro das Finanças; ou para o público e para a comunicação social, procurando, num passe de mágica, transformar as críticas da comunidade a que sente pertencer numa validação das políticas e numa imagem de consonância.

O Manifesto Ciência Portugal 2018 foi subscrito, entre muitas outras pessoas, pelo Professor Universitário Manuel Heitor, também Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, e está disponível em http://cienciaportugal.org/manifesto2018/.

quinta-feira, 22 de março de 2018

As(simetrias) publicadas









Em versão sintética, publicada hoje, no jornal Público, nas Cartas ao Diretor.
https://www.publico.pt/2018/03/22/opiniao/opiniao/cartas-ao-director-1807550

Assimetrias em contexto

O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior defende que existe uma concentração excessiva de estudantes em Lisboa e Porto, onde estão quase metade dos que estudam no ensino superior público. O argumento é ilustrado com o exemplo da Áustria, apontado como o segundo país com maior concentração de estudantes em apenas duas cidades, Viena e Innsbruck, com 31%, e da vizinha Espanha, com 27% em Madrid e Catalunha. Concluindo, assim, pela singularidade de Portugal e consequente necessidade de rectificação. Sem mais.

Mas olhemos para o panorama mais global da distribuição populacional nestes três países. As províncias de Viena e Tirol, onde se situa Innsbruck, representam 30% da população austríaca. Valor semelhante se obtém para o peso da Comunidade de Madrid e da Catalunha, em Espanha. Em Portugal, as Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto acolhem cerca de 44% da população; e se somarmos ainda uma parte dos residentes nos distritos de Leiria e Santarém, que não contam com universidades públicas, não estaremos longe, ou talvez até mesmo para lá, dos 50%. Em todos estes casos, a concentração de estudantes assemelha-se à da população em geral. Sim, deste ponto de vista Portugal será o mais bipolar, em sentido literal e até figurado. Mas não me parece que a redistribuição de 1100 vagas, o valor em causa, tenha qualquer impacto neste estado de coisas.

Miguel Conceição, Aveiro

quarta-feira, 21 de março de 2018

Dissensos










"Colaborar na formulação das políticas nacionais de educação, ciência e cultura" e "Pronunciar-se sobre os projectos legislativos que digam directamente respeito ao ensino universitário público" são duas das competências do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas.
http://www.crup.pt/crup/sitecrup/wp-content/uploads/2016/10/Estatutos_Juridicos.pdf

Decorre, até ao final de março, a consulta pública de um conjunto diversificado de propostas legislativas do Governo, que abrangem: regime jurídico dos graus e diplomas do ensino superior; Estatuto do Estudante Internacional; regime jurídico de reconhecimento de graus académicos e outras habilitações atribuídas por instituições de ensino superior estrangeiras; regime jurídico das instituições que se dedicam à investigação científica e desenvolvimento; regime jurídico dos centros académicos clínicos e dos projetos-piloto de hospitais universitários; regime de acesso e exercício de atividades espaciais.
https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/consulta-publica?i=237

Para além destas, foi enviada, às entidades do setor, a proposta de orientações para a fixação de vagas para o concurso nacional de acesso ao ensino superior, que inclui disposições visando reduzir vagas em Lisboa e Porto.

"Na reunião do CRUP desta terça-feira [6 de março] acabaram por não ser analisadas as alterações legislativas que o Governo estabeleceu na sequência do relatório da OCDE sobre o ensino superior português, incluindo a autorização dos doutoramentos em politécnicos e a redução de vagas em Lisboa e no Porto. Os reitores vão analisar o pacote legislativo numa reunião extraordinária a 20 de Março."
"E o que diz o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas? Bem, por agora nada. Irá ainda analisar a proposta em conjunto com outras medidas que se encontram em discussão. Irá, portanto, reagir apenas. Taticamente.". Especulava eu, há três dias, a propósito das orientações sobre vagas.
http://notasdasuperficie.blogspot.pt/2018/03/a-danca-das-cadeiras.html

"Terminou sem uma posição conjunta a reunião desta terça-feira [20 de março] entre os reitores das universidades portuguesas, que tinha sido marcada para avaliar as medidas para o sector propostas no último mês pelo Governo. (...) Em vez de uma posição conjunta, cada universidade vai enviar o seu próprio contributo sobre propostas como a autorização de doutoramentos nos politécnicos ou a redução do número de mestrados integrados, que foram aprovadas no Conselho de Ministros no mês passado."
https://www.publico.pt/2018/03/20/sociedade/noticia/propostas-do-governo-dividem-instituicoes-de-ensino-superior-1807415

Fala-se muito da necessidade de entendimento sobre estratégias nacionais.
De acordo para setores que requerem uma perspetiva de longo prazo.
Que são pilares de desenvolvimento: Saúde, Justiça, Educação.
Afinal, nem apreciação estratégica, nem reação tática.
Afinal, o Conselho não quer contribuir.
Restarão as reações individuais.
15 cabeças, 15 sentenças.
Dissensões.

terça-feira, 20 de março de 2018

A dança das cadeiras - Simetrias em contexto










Notas e números, sobre a proposta de reduzir 5% das vagas em Lisboa e Porto (ver entrada anterior em http://notasdasuperficie.blogspot.pt/2018/03/a-danca-das-cadeiras.html) e sobre a sua fundamentação, exemplificada neste extrato da página do Governo (https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/comunicacao/noticia?i=e-preciso-atrair-mais-estudantes-estrangeiros-as-universidades-):

"Desconcentrar o ensino superior 
Nas medidas legislativas em discussão pública inclui-se a reorganização da rede de ensino superior, que prevê a redução de vagas do 1.º ciclo nas instituições sitas em Lisboa e Porto, com o seu aumento no resto do País. Com instituições de ensino superior em 54 municípios, Portugal concentra mais de metade em Lisboa ou Porto.
«Não há nenhum país com tanta concentração de estudantes como Portugal», disse o Ministro. A título exemplificativo, em Espanha, Madrid e a região da Catalunha absorvem 27% dos alunos; na Áustria, o segundo país com maior concentração de estudantes em duas cidades, Viena e Innsbruck acolhem 31% por estudantes."

Colha alguns números.
De origens distintas.
Internacionais.
Recentes.
Frescos.

Misture bem.
Extraia.
Pese.

Deixe repousar.
Contemple.
E prove.

Áustria
Ano: 2017.
População total: 8 773 700.
Províncias de Viena e Tirol (onde se situa Innsbruck): 2 614 200.
Fonte: Câmara de Comércio Austríaca.
Ligação: http://wko.at/statistik/jahrbuch/2017_c3.pdf
Percentagem: 30%.
Compara com: 31% de estudantes.

Espanha
Ano: 2017.
População: 46 572 132.
Comunidade de Madrid e Catalunha: 14 063 014.
Fonte: Instituto Nacional de Estadística.
Ligação: http://www.ine.es/jaxiT3/Datos.htm?t=2915
Percentagem: 30%.
Compara com: 27% de estudantes.

Portugal
Ano: 2016.
População: 10 325 452.
Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto: 4 538 334.
Fonte: Pordata.
Ligação: https://www.pordata.pt/Municipios/Popula%C3%A7%C3%A3o+residente+total+e+por+grandes+grupos+et%C3%A1rios-390
Percentagem: 44%.
Compara com: mais de 50% de estudantes.
Se juntarmos ainda parte da população dos distritos de Leiria e Santarém, que não contam com Universidades públicas, e que terão como alternativa Coimbra ou Évora, se o único critério fosse o de proximidade geográfica, os 50% estão ali ao virar da esquina.

Tentando comparar o que é comparável.
Descobrindo simetrias.
Coincidências.
Ou consequências.
Concentração de estudantes.
Semelhante à concentração de gente.
E quanto pesa 5%, em termos de atração?

domingo, 18 de março de 2018

A dança das cadeiras








Cadeiras vazias, muitas, à espera. Ano após ano. E depois eles chegam. E ocupam-nas. Mais de meia centena de milhar no ano passado. 50838, para ser mais preciso. É assim como encher, encher mesmo, um pouco para além dos limites, o Estádio do Dragão ou o Estádio José Alvalade. É esta a dimensão das vagas, em instituições públicas, para o concurso nacional de acesso ao ensino superior.

Cadeiras vagas, que são distribuídas pelas instituições, universidades e politécnicos, com base em "orientações" fixadas todos os anos, tardiamente. Sempre iguais, no geral. Um número máximo por instituição semelhante ao do passado. Sempre diferentes, nos detalhes. Estímulo de cursos pós-laborais ou à distância, estímulo de algumas áreas, restrição de outras, fomento de consórcios, consideração da chamada empregabilidade, ou melhor, dos inscritos em centros de emprego, fecho de cursos com poucos alunos, exceções. Varia. Sempre. Dificultando o planeamento e a gestão. Das instituições e dos candidatos.

Este ano não será exceção. Será igual, mas diferente. Menos vagas nas instituições de Lisboa e Porto, mais vagas nas restantes. Uma variação de 5%. Cadeiras que mudam sítio, de instituições, de região. Esta será uma das orientações do Governo. E que está a provocar discussão, pública e publicada. Diz agora o Ministro que ainda não é uma decisão, e que pretendia provocar o debate. Estranho processo. Porque se discute, no espaço público, aquilo que apenas é do conhecimento de alguns: a proposta, na íntegra e a sua fundamentação. Por certo se fosse um caso de outra natureza, mais secreta ou reservada, já estaria aí acessível num sítio qualquer.

Ainda assim, o que é do domínio público já permite alguma reflexão. Comecemos pelos comentários. Aqueles que estão escritos em artigos de opinião, que terão sido bem refletidos, que não foram editados, que não se prestam a segundas interpretações.

Afirma José Ferreira Gomes, professor da U. Porto e anterior Secretário de Estado do Ensino Superior, no Público, de 1 de março:
"Como justificação, basta a ideia de que as instituições do interior irão ter mais estudantes, não sendo necessário justificar porquê." 
"Os estudantes expulsos do Porto irão procurar lugar no Minho e em Aveiro, para além das instituições privadas".
Passando da capital do Norte para a capital propriamente dita, leia-se João Duque, professor da U. Lisboa, no Expresso, a de 3 de março:
"O Governo decidiu reduzir 5% das vagas do ensino superior público, nas cidades de Lisboa e Porto, transferindo-as para as universidades do interior. Não tenho nada a opor à abertura de vagas no interior. Mas a forma de se fazer essa transferência é própria de quem não gosta de dar liberdade de escolha."
"Perguntem aos 5% que forem empurrados à bruta para fora de Lisboa e Porto onde pensam votar nas próximas eleições..."
"Imagine-se que o Governo reforçava significativamente o orçamento das universidades do interior e que estas conseguiam assim contratar um número significativo de investigadores e professores de renome internacional, alguns prémios Nobel e até lá conseguiam instalar alguns centros de referência? E que, em paralelo, aumentavam o número e reforçavam as bolsas de estudo para essas universidades?"
E o que diz o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas? Bem, por agora nada. Irá ainda analisar a proposta em conjunto com outras medidas que se encontram em discussão. Irá, portanto, reagir apenas. Taticamente.

Entendo que as medidas devem ser escrutinadas, debatidas, criticadas, contraditadas. Bem como as posições de comentadores, académicos ou responsáveis institucionais. Mas não vale tudo! Não pode valer tudo! E quem é da área não pode sequer invocar precipitação ou desconhecimento. Por isso, até julguei estar a ler mal, em duplicado e em estéreo, com ecos a Norte e a Sul. "Estudantes expulsos do Porto"; "5% empurrados à bruta para fora de Lisboa e Porto"; "instituições do interior"; "universidades do interior". ?

Primeiro: a medida não se destina ao interior; neste caso é Lisboa-Porto face ao resto do País. Misturar os dois discursos é, obviamente, erróneo.

Segundo: não há estudantes expulsos nem empurrados à bruta. Esta terminologia, só por si, deve fazer refletir. As vagas de Lisboa e Porto não estão reservadas para os residentes nessas cidades. São ocupadas através de um concurso, nacional. São ocupadas em função das vagas disponibilizadas, das opções dos candidatos e das médias. São ocupadas por gente local que, sim, serão a maioria, mas também por gente de fora. Mas isso, os articulistas sabem-no.

Terceiro: esta medida não é um atentado à liberdade de escolha. Isto pela simples razão que a situação atual não é de completa liberdade de escolha. Há limites para as vagas em cada instituição, limites adicionais em algumas áreas e limites específicos para cada curso. Para além de, naturalmente, haver cursos que não existem em todas as instituições e, pasme-se até alguns que não existem em nenhum local do interior do País (http://notasdasuperficie.blogspot.pt/2017/11/nao-ha-direito.html).

Passemos então à substância, ou a algumas substâncias distintas, que aqui se podem misturar. O que se pretende atingir, porquê e como? Pretende-se, aparentemente, alunos de formação inicial mais espalhados pelo território nacional. Aparentemente, como arma de combate às assimetrias regionais. Aparentemente, usando o ensino superior como motor. No passado isto foi feito, mas criando instituições de raiz, novos pólos, as novas universidades e os institutos politécnicos. Mas qual é, então a distribuição ideal que o Governo preconiza, e porquê? Duvido que se tenha feito algum estudo.

Escrevi, em tempos, "(...) esta medida, configurada como está, parece ignorar o país real, as razões da escolha de um curso e os próprios dados; e sobrevaloriza o poder do dinheiro – de algum dinheiro - como motor da mudança demográfica.", a propósito do programa +Superior, que visava atrair mais estudantes para o interior  E terminava dizendo que "Mudanças verdadeiramente estruturais poderiam ser alcançadas através de outras medidas: alterar a distribuição nacional de vagas; mobilizar pessoas e verbas para as zonas escolhidas; construir mais projetos que atraíssem pela qualidade e pela diferenciação. Mas talvez não seja isso que se pretende.". (http://notasdasuperficie.blogspot.pt/2014/09/mais-superior.html).

Então a questão era outra: era de facto o interior que estava em causa. Aquele interior que todos querem promover, mas à distância, a partir do litoral. Hoje, fala-se em redistribuir cerca de 1100 vagas de Lisboa e Porto por todo o território, numa proporção igual em cada instituição (+5%), seja ela a Universidade do Minho ou o Politécnico de Beja, e sendo certo que nem todas as vagas virão a ser ocupadas. O impacto final em termos de desenvolvimento será mínimo, estou convencido.

A alteração da distribuição de vagas é uma medida administrativa, fácil de tomar e de implementar, e que pode permitir mostrar números rapidamente. Mas sem dimensão suficiente não produzirá o pretendido efeito de arraste. Quando muito, conduzirá a pequenos ajustes e desajustes. As outras alternativas requerem uma abordagem mais integrada, recursos avultados e persistência ao longo do tempo. E não estou a falar de contratar prémios Nobel.

Numa altura em que tanto se apregoa a importância das competências transversais e das atitudes, da mobilidade internacional e do conhecimento do mundo, da bagagem de experiências diversas não seria antes de estimular o estudar e viver fora de casa? Ganhar vida e ganhar País? Fugir à endogamia regional? Sim, isso obrigaria, entre outras coisas, a repensar a rede de ensino e o modelo de apoio social existente. Mas vale a pena pensar nisso!

Digo eu, a partir de uma cidade média, situada no litoral.

quinta-feira, 8 de março de 2018

"Crime!" - disse ele.










Esta é uma história em atmosfera de policial negro, série B. Daquelas com um detetive, de meia-idade indefinida, barba por fazer, rosto sério, voz cava. Um escritório pequeno, em permanente penumbra, para onde a luz se esgueira, com esforço, através das estreitas frinchas da persiana. Luz cinza-amarelada do dia, isto quando não chove. Luz cinza-amarelada, mais esbatida, escorrendo do poste de iluminação, ligeiramente debruçado sobre a calçada estreita, vendo quem passa. O ar espesso, fumo em movimento, empurrado por uma ventoinha a um canto, sobre o soalho gasto. Um bengaleiro com uma gabardine escura, encimada por um chapéu de abas. Uma secretária coberta de papéis, um par de cadeiras, uma mesa redonda, um cesto de papéis, estantes com capas de cor indistinta. Uma garrafa e um copo, sempre mais meio vazio do que meio cheio.
Aviso a passar em rodapé, em letras apropriadamente mais pequenas: qualquer parecença com a realidade pode não ser apenas mera coincidência.

Era um fim de tarde. Mais um, pensei. Estava escuro. Chovia lá fora. O candeeiro desenhava um círculo de luz sobre a secretária. Um círculo de luz sobre as letras do jornal. Nada de especial. As notícias de sempre. A cabeça doía, a reclamar descanso. Meio copo e está na hora de fechar. E de trocar o escritório vazio pela casa, também ela vazia. De longe, de mais longe do que o habitual, chega o ruído da porta da rua, batendo com força. Ouço a escada de madeira a ranger, sob o peso de passos que se aproximam, rapidamente. A sombra assoma, por detrás do vidro fosco. A porta abre-se de supetão. O silêncio é bruscamente interrompido. Logo agora que ia sair.

- Chefe! Chefe! Encontraram-na!
- Hã...?
- Encontraram-na!
- Hmmm ...? O quê ...? Quem ...?

Resmungo entre dentes. A dor de cabeça parece tornar-se mais intensa. O nevoeiro que não se dissipa. Logo agora que ia sair, penso novamente.

- Encontraram-na: a mais procurada no País, a mais difícil de alcançar!
- Quem ...?
- A licenciatura mais procurada do País!!
- Sim ...? E então ...?

Nada que não pudesse, certamente, esperar por amanhã. Nada que não pudesse esperar pela luz de um novo dia. Mesmo de um novo dia de chuva. Nada que me possa causar surpresa, penso. A mente continua a vaguear, perdida. É só esperar mais uns segundos. Depois a notícia. E depois posso ir para casa. 

- Encontraram-na: é a Criminologia!

As palavras atravessaram o ar espesso, como se este tivesse, subitamente, parado. Entraram na minha cabeça. Começaram a formar um turbilhão. Agitaram-me, de dentro para fora.  Pressenti o que vinha a seguir. Conheço demasiado bem os sintomas. Voltam sempre que algo está desalinhado na ordem das coisas. Sempre que surge um novo caso.

- Tens a certeza? A Criminologia ... Por essa não esperava.

Digo, tentando ainda fazer parar o turbilhão, que começara a rodar. Em vão.

- Está em todos os jornais!
- Em todos?
- Bem, pelo menos em alguns ... diários, aqueles de economia, e até ... até ... em semanários!
- Hmmmm ....
- Parece sólido, Chefe. Há testemunhos. Todos no mesmo sentido.
- ...

O turbilhão roda cada vez mais depressa. Não era nenhum dos suspeitos habituais que me vinham à cabeça: medicina, engenharia especial ou espacial, biotecs ou techies, direitos ou tortos, gestão. Estranho. Algo não fazia sentido.

- Está muito calado, Chefe. Acha que pode não ser ela?
- Não sei ... ainda.
- Mas fazemos alguma coisa?
- Recolhe os jornais. Todos. E deixa-os na minha secretária. Para amanhã. Preciso pensar.
- Ok, Chefe. Até amanhã.

Visto a gabardina. Coloco o chapéu, enquanto desço as escadas de madeira, em direção à rua. Entro na chuva fria. Criminologia ... sim ... uma licenciatura jovem, sexy, com um certo ar, com uma certa pose, assim de estrela de cinema, ou de televisão por cabo. Não tenho dúvida de que sabe suscitar o interesse. Ainda assim ... criminologia, a mais procurada, não me parece.  Suspiro. Amanhã veremos. 
...
Foi uma noite difícil, como sempre quando me embrenho num novo caso. O turbilhão que gira. E voltou o pesadelo. Quase sempre o mesmo, com pequenas variações. Casos abertos. Ou melhor, "o" caso nunca fechado. Quando me defrontei com um bando de equações, que se multiplicavam, membros por todos os lados. Um sistema de resolução impossível. A angústia de não encontrar solução. Sucumbindo.

...
Entro no escritório. Sirvo-me de café, sem reparar se é de ontem ou do dia. Em cima da secretária os jornais, como combinado. Já marcados. Círculos vermelhos à volta dos indícios. "A licenciatura de Criminologia e Justiça Criminal da Universidade do Minho foi a de mais difícil entrada no ano letivo 2017/2018 no ensino superior público português", "o mais procurado em todo o país", "o que mais alunos deixou à porta", "a de mais difícil acesso". Todos apontam no mesmo sentido. Todos referem uma mesma testemunha: a Satisfação. Satisfação da Procura, de seu nome completo. Teremos de a ouvir, sem dúvida. Um Indicador ...

- Bom dia, Chefe. Deixei os jornais em cima da sua secretária.
- ... dia ... sim ... já vi ...
- E então? Que lhe parece? Temos caso?
- Vamos ter de os ouvir.
- A quem?
- Números e Indicadores. Números e Indicadores. Quem mais poderia ser? Desde logo a Satisfação.
- Essa parece ser a fonte de todos os jornalistas.
- Pois ... por agora é a ligação mais óbvia à Criminologia. Mas quero ouvir os outros. Não podemos deixar pontas soltas.
- Vou procurá-los?
- Sim. Sabes como é. Conheces a rotina. Nestas ocasiões costumam andar por aquele bairro ... a DGES. Andam por lá, tenho a certeza. Escondidos nos Estudos, nos Relatórios ou nas Bases. Mudando de sítio. Ou de aspeto. Ou de nome. Tens de ter cuidado. Às vezes andam em grupo. Mas sempre os encontrámos, no passado. E não costumam ser difíceis de convencer a falar. De certa forma gosta de atenção.
- Certo, Chefe! Voltarei o mais depressa possível!

Números e indicadores. Outra vez. Difíceis de ler. Problemáticos. Perigosos mesmo. Mas no fim ... são apenas mais uns. Número e Indicadores. Não me posso ligar a eles. E esta chuva, sempre. Entranhando-se. Tornando o ar mais pesado. Bafiento. Número e Indicadores. E se também eu não for mais do que isso? Números e Indicadores. Pareço o Blade Runner, pensei, abanando a cabeça para afastar estes pensamentos. 

Volto ao café, ainda mais frio se tal for possível. Volto às notícias dos jornais, em busca de outros indícios. Há mais, de facto. Pequenas subtilezas perdidas, longe dos cabeçalhos, que gritam "Criminologia". Apontando noutras direções. "estes cursos [direito] são dos que mais procura reúnem", os dois cursos que exigiram as médias de entrada mais alta - Engenharia aerosespacial e Engenharia Física e Tecnológica". Mas depois voltam à tónica. À Criminologia. E à Satisfação como prova provada.

- Chefe, já estão aqui, todos os que encontrei.
- Muito bem! Vamos a isto!

Números e indicadores. Mais diretos os primeiros. Mais propensos a incendiar discussões, os segundos. Personalidades mais complexas. Comecemos então pela Satisfação. Satisfação da Procura. Senhora do seu nariz. Provocadora de conversas alheias.

- Portanto é a Satisfação da Procura?
- Sim, sou.
- Um Indicador ...
- Que mal tem ser um Indicador? É proibido, Sr. Detetive? Faz-me suspeita? A mim?
- Não, não é proibido. Mas se andar a enganar as pessoas ...
- Euuuuu? A enganar ...? Vê-se que não me conhece! Sou séria!
- Bem, vamos por partes. O que faz?
- Olhe, é assim. Conhece o Candidatos, não conhece? Não precisa responder. É uma pergunta ... como se diz ... teórica.
- Retórica. Pergunta retórica.
- Ou isso. Não importa. Onde é que eu ia? Ah, pois, o Candidatos. Sempre a contar, a contar, a contar. A arrumar tudo, muito direitinho, em tabelas. Parece uma vida aborrecida, pouco interessante, pouco útil ... Vida dos Números, está a ver?
- E ...?
- E ... e ...., pronto, gosto de o juntar com as Vagas. É muito mais divertido!
- Não estou a perceber.
- Então Sr. Detetive? Olhe, é assim. Vagas sobre Candidatos. Candidatos sobre Vagas. É como quiserem. Não acha divertido? Veja. Temos 20 Vagas. Faça de conta que há 100 candidatos. Pronto, só satisfaz 1 em cada 5, poucochinho não acha, só 0,2. Os outros 4 não ficam nada satisfeitos. Ficam Insatisfeitos.
- Mas é satisfação ou insatisfação, aquilo com que estamos a lidar?
- Se for comigo é Satisfação. Insatisfação é com a minha irmã gémea! Não a quer entrevistar também?
- Não, não quero. Pelo menos por agora. Só me faltava ter que lidar com gémeas... Então e Criminologia?
- Ah ... Criminologia ... Isso é mais com a minha irmã.
- Como?
- Tem pouca Satisfação da Procura. Portanto, tem muita Insatisfação, está a ver?!
- Sim, sim, já percebi o esquema! Então mantém que Criminologia é o curso com maior procura?
- Mantenho? Mas eu nunca disse isso, Detetive! Comigo é uma questão de Satisfação, compreende do que estou a falar, não é verdade?
- Mas é o que vem nos jornais. Em vários. Todos a apontam como testemunha. A testemunha que mostra que Criminologia é a Licenciatura mais procurada!
- Nunca disse tal coisa! Não me podem meter nesta embrulhada. Era o que faltava!
- Mas então o que foi que disse, mesmo, sobre ela?
- Oh! Coitadita. Só disse que a Satisfação era muito baixa. Muito baixa mesmo. A menor. E pronto, já contei tudo. Agora quero voltar para a DGES!

Registei: Criminologia. A menor Satisfação da Procura.

- Ainda não acabei. Mas isso não é o mesmo que dizer que é a mais procurada, jogando com as palavras?
- Não, Sr. Detetive. Procura e Satisfação de Procura não é a mesma coisa.
- Mas sabe que também a chamam Procura?
- Não me importo que me chamem. Não é por mal. Mas o meu nome próprio é Satisfação. Faz toda a diferença, não acha? Agora quero mesmo ir embora.
- Só mais uma pergunta.
- Sim?
- Quantos Candidatos ficam à porta?
- Como quer que eu saiba? Eu divido. Vagas e Candidatos. Não subtraio. Candidatos e vagas. Isso não é comigo. Gosto de os juntar, às Vagas e Candidatos. Mas com a operação certa. Percebe?
- Obrigado. Não se afaste muito. Posso precisar de voltar a interrogá-la.

Sublinho: Criminologia Insatisfeita. Satisfação da Procura não confirma a informação. Vamos ao próximo. Candidatos. A Satisfação tinha razão. Um sujeito com ar algo aborrecido. Eficiente, mas frio. Um Número, sem dúvida. 

- Nome?
- Candidatos.
- O que faz?
- Conto quem procura uma licenciatura.
- Conta? Apenas?
- Sim. Só conto. Sabe como é: tantos para aqui ... tantos para ali.
- Conta ... Sempre da mesma maneira?
- Pois, com certeza. Temos que ser rigorosos. Não podemos falhar. Agora o que me pedem mais são os candidatos em 1ª opção. Mas às vezes querem outras coisas. Contar por fases, primeira, segunda, terceira. Ou por região. Coisas assim.
- O que me pode dizer sobre a Criminologia?
- Criminologia? Essa é nova na zona. Só anda por aqui há um par de anos.
- E então?
- Então ... Já deu nas vistas, isso é certo, mas não é das que me dá mais trabalho. Anda agora nos 170 Candidatos. Acho que ainda é capaz de subir. Mas isto às vezes é por modas. Como aconteceu há anos com a Civil. Subiu e depois desceu, desceu, desceu. Agora está outra vez a subir.
- Então a Criminologia não é a que a tem mais Candidatos.
- Não, nem de longe. Há outros. Vários.
- Ai, sim? Isso é muito vago. Preciso de nomes!! Nomes que possa verificar.
- Calma ... calma ... não é difícil. Assim de repente, daqueles que estão aí para cima de quatrocentos, lembro-me de várias medicinas, direitos, gestão ...
- Espera aí. Deixe-me apontar. E olhe que vou confirmar. Um a um. Por isso é bom que a informação esteja correta!
- ... gestão, engenharia informática, enfermagem.
- Portanto,  Criminologia não é das mais procuradas?
- Criminologia ?! Claro que não!! Sei muito bem o trabalho que tenho!
- Diz-se por aí que é quem tem menos Satisfação da Procura.
- Disso não sei nada. Eu sei quantos procuram. Conheço-os a todos. De onde vêm, com que média, para onde querem ir. O que preferem. Olhe, até dava para lhes fazer aparecer uns anúncios da internet, daqueles à medida! Vender-lhes umas coisitas. Para fazer uns dinheirinhos extra.
- Muito engraçado, sem dúvida ... Olhe ... e quanto a candidatos à porta?
- Nada sei sobre isso. Está a perguntar à pessoa errada. O que lhe digo é que em Direito, em Lisboa, são mais de 800. Acha que me ia esquecer de números assim?
- Sabe quem me poderá dizer alguma coisa sobre isso, sobre os que ficam à porta?
- Assim de repente, nem por isso ... a não ser que ...
- A não ser que?
- A não ser que fale com as Vagas. Mas essas são muito constantes. Parece que não envelhecem, quase iguais de ano para ano.

Vagas, registei, para usar em caso de necessidade. Candidatos. 170, muito menos que 800. Sim, pensei, alguns daqueles nomes são mais credíveis para os mais procurados. Desenhei um ponto de interrogação. Dois pontos de interrogação. Candidatos igual a Procura? Procura diferente de Satisfação da Procura?

- Então, Chefe? Vamos ao último?
- Espera. Falta-nos perceber a relação disto tudo com as Vagas.
- Quer que a vá procurar?
- Não, não. Talvez não seja preciso. Dizem que variam pouco. Tens aquelas listas, com a identificação das Vagas?
- Sim, estão aqui Chefe.
- Hum.... Direito, Lisboa, 560 vagas. Candidatos eram, escrevi aqui, mais de 800. São quase 250 que ficam de fora.
- São muitos, Chefe.
- Pois, isso. Criminologia, 25 vagas. Candidatos eram 170. Menos de 150 de fora. E há mais assim. Realmente tem a ver com Candidatos e Vagas.
- Não percebo.
- Procura, Satisfação de Procura, Candidatos que ficam de fora.
- Não estou a perceber ... E o que acontece à Criminologia?
- Vamos falar com a Média.

As peças começam a encaixar. Preciso de obter as informações que me faltam. Venha a Média. Terei de a pressionar. Sei que não gosta que façam juízos sobre ela. Irrita-se quando dizem que é injusta e que causa problemas a muita gente. É um ponto de partida. E depois de começar a falar ...

- Média. Ou devo dizer Dificuldade?
- Dificuldade?
- Sim, não é outro dos seus nomes? Dificuldade? Dificuldade de entrada? Média exigida? Barreira? Empecilho?
- N...n....n...não ....
- Não?! Não quer pensar melhor?! Não é quem decide quem entra e quem fica de fora?
- Não, não, não ... não faço nada disso!
- Assusta muitos Candidatos! Sabe que sim! Vamos lá ...
- Isso não é justo! Eu só apareço depois, no fim, no fim de tudo, quando está tudo decidido, não tenho nada a ver com o que se passa. Não tenho nada a ver com as entradas.
- Não acredito! Tenho aqui um elemento de prova que diz "Engenharia aeroespacial - nota do último colocado 188". 188! Parece-lhe bem?
- Mas ... mas ...
- Diga-me: como se faz isto?
- Estou farta de ser olhada de lado! As pessoas não percebem! Eu não apareço no início. Não digo a ninguém: "para entrares aí tens de ter esta média". É ao contrário. Primeiro entram todos, ordenados, pelas médias, claro. E quando entra o último eu pergunto: qual é a tua? Ele diz e pronto. É assim que apareço. Sou a nota do último colocado. Não é ao contrário! Não é como se o Governo decidisse o meu valor! Nem podia. Já me informei dos meus direitos! Mas também não é como se as Universidades decidissem o meu valor. Até podiam, que eu sei. Mas não costumam. Nada que seja muito acima da positiva. E ...
- Mais devagar, quer dizer ...
- Perguntou e eu estou a responder! Estou a dizer a verdade! Não sou eu que tenho a culpa. As pessoas olham para o meu passado, para o que fiz no outro Verão, e dizem que quem tiver menos já não entra, que é preciso ter aquela nota, que só assim ...
- Espere aí! Deixe-me tomar nota. Portanto, só aparece depois.

Média aparece no fim, escrevo. Declina qualquer responsabilidade.

- Sim, já disse isso. Não me está a ouvir? É sempre a mesma coisa. E depois sou eu ..
- Indicadores ... sempre mais difíceis ...
- Também não é preciso insultar. Sim sou um Indicador! Mas comigo é a mesma como quando vai aos bancos. Aqueles anúncios em letras pequeninas. Rendimentos passados não garantem rendimentos futuros! Aqui é a mesma coisa. Médias passadas não impõem médias futuras. Tudo depende das notas dos Candidatos, dos exames, das escolhas, das Vagas, etc, etc. Só não depende de mim! Porque eu ...
- Sim. Já sei: só aparece no fim.
- Exatamente! Finalmente está a perceber!
- Hmmmm. Então porque é que lhe chamam também Dificuldade?
- Acham mais simples assim, imagino.
- Então 188 a Aeroespacial não quer dizer que é difícil?
- É 188 porque quem tinha essas medidas quis ir para lá.
- Mas ter 188 é difícil.
- Lá está outra vez com a mesma ideia fixa! É difícil, pois. Mas olhe, há gente que chegou lá. E até há quem chegue aos 200. E pronto, quando um grupo assim procura uma licenciatura ... em algum lado a Média vai ser alta. Já lhe falei das Vagas? Sabe, é que reparei que se as Vagas não forem muitas é mais fácil eu ser mais alta. Engraçado, não é?
- Mas Criminologia, não é a mais difícil?
- Criminologia? Essa miúda? Acho que ficou pelos 160. Mas não sei se é mais difícil ou mais fácil. Olhe, se os Aeroespaciais, todos, procurassem entrar para o Crime até acho que me davam um valor mais elevado. Era capaz de chegar aos 195, digo eu. Era bonito, não? E se o Crime fosse para o espaço podiam trocar as Médias, quer dizer, trocarem-me a mim. Ai! Já estou a ficar baralhada.
- Então tudo depende da Procura, e da Satisfação da procura.
- Isso já não sei. Não me dou bem com essa gente. Mas de mim não é. Eu só ...
- Aparece no fim, já sei. Agradeço o seu depoimento. Foi muito útil.
- Mas não acha que as Universidades podiam fixar um número mais engraçado, sei lá 12, ou 14, ou até um número ímpar?
- Se quer que lhe diga, isso não me interessa. Não faz parte deste caso.

Tudo se tornava agora claro na minha mente.

- Então, Chefe? Terminamos?
- Sim. Criminologia não é a licenciatura mais procurada. Nem a que mais Candidatos deixa à porta. Nem a mais difícil de entrar, se prestarmos atenção ao que nos disse a Média.
- Inocente? Em tudo?
- Vê bem. Direito tem muito mais Candidatos. Direito e outros. E também esses deixam mais candidatos à porta, se olharmos bem para as Vagas. E não tem a Média mais elevada embora aí seja mais complicado porque ...
- Porque a Média só aparece no fim, quando as escolhas já foram feitas e ... e .... também tem a ver com as Vagas.
- Isso mesmo! Ainda vais chegar a Detetive.
- Mas, então, como se explica que tenha sido a Criminologia a ser identificada?
- Identidades trocadas. Satisfação da Procura e Procura. Apenas têm o apelido em comum. Mas são muito, mesmo muito diferentes. Se vires bem, Procura e Candidatos são um e o mesmo. Números, percebes. Absolutos, de leitura direta. Já a Satisfação é um Indicador, tens de ter muita atenção ao que diz e, mais ainda, ao que pode querer dizer.
- Lá muito para dizer tinha ela ...
- Pois ... assim que começa a falar ... gosta de ter audiência.
- Ainda assim, custa-me a perceber como é que ninguém duvidou...
- A Criminologia deu nas vistas, assim que chegou. Essa miúda tornou-se um alvo, atraente. Fica bem nas fotografias e nos cabeçalhos. Mas não foi ela, e isso é que importa.

Caso resolvido. Visto a gabardina e pego no chapéu.

- Chefe?
- Sim?
- Acha que a Criminologia, alguma vez ... alguma vez será a mais procurada?
- Talvez ... quem sabe?

Fecho a porta do escritório. Faço ranger os degraus da escada de madeira. Saio para a rua mal iluminada. O poste inclinado parece olhar para mim. A luz pálida estremece. Números e Indicadores. É preciso pensar como eles. Pelo menos, hoje, não irei sonhar com o sistema de equações impossível de resolver.