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sexta-feira, 5 de julho de 2024

A nuvem no fundo do mar

 

Querem colocar uma nuvem no fundo do mar. Li num jornal em papel, à mesa de um café, num sábado que já passou. Jornal que chega agora à sexta, em vez de chegar ao sábado da praxe. Como se tivesse pressa, num sinal de tempos apressados. 
Imagino a nuvem pousada no leito do mar. Trocando o sol e o vento, pelo escuro e pelas correntes.  Amarrada, não se desse o caso de querer flutuar em busca da liberdade perdida. Deixou de ser nuvem passageira que com o vento se vai. Deixou de ser nuvem de trovoada que passa a chuva. Deixou de poder ser observada a mudar de forma, pelo homem que observava as nuvens numa praia do Mediterrâneo, tentando adivinhar o futuro. Imagens. Músicas. Livros. Misturados num redemoinho, de ar, ou de água.
Continuo a ler o jornal. Parece que a nuvem, afinal, é nome próprio. Nome de cabos no fundo do mar, desenrolados ao longo de muitas léguas submarinas. Não chegarão às dez mil. Estendidas numa linha única, não se assemelharão a tentáculos de polvo gigante. Uma linha que amarra continentes, os quais, como se sabe, continuam à deriva, quais jangadas com náufragos. Nuvem. Nome em português para amarrações nas profundezas do mar português. Mares com fronteiras. 
Coisas privadas, de uma empresa dita tecnológica. Daquelas cujo nome agora se conjuga em forma verbal. Daquelas criadas em vésperas da mudança de século, e de milénio. Tempos apropriados para anunciar fins de uns tempos e começo de outros. Visões de futuros. Alguns são agora passados. Outros, estão por aí, presentes. Uns quantos nunca deixaram de ser visões. E outros estão ainda para vir. 
Uma outra nuvem paira por aí. Também se chama nuvem, mas em inglês. Misteriosa e invisível para o comum dos mortais. Entre o material e o imaterial. Objeto quase, escreveria o escritor. Repositório infinito. Para tudo. Do dia-a-dia, do trabalho, do lazer, dos auto-retratos. A culpa é das malditas fotografias, julgo ouvir do croata, que já foi soldado. Aqui não são campos de batalha, talvez, mas pastos de bits e bytes, a não confundir com a mordidela inglesa, nem com trocas dos bês pelos vês. Quantidades que se medem em potências de dez. Kilo, mega, tera. Depois, peta, exa, zetta, e por aí fora. Sem fim.
Ligações sem fios que precisam de ligações com fios. Lampejos de sustentabilidade, devoradores de energia. Imaterialidades feitas de matéria, do silício às terras raras, exploradas pelo mundo, explorando o mundo, explorando as pessoas. Não voltarão os homens a ser postos no lugar das coisas, diz-me o escritor. 
A nuvem do início do texto liga-se à cloud. A cloud liga-se às nossas casas. Ao computador onde este texto foi escrito. Aos computadores onde este texto está a ser lido. Passando por outras máquinas, por repartidores, multiplicadores, servidores, armazéns. Quintas onde se reúnem as alfaias desta nova agricultura. Armazenando, catalogando, classificando. Mas também analisando e aprendendo, a um passo da criação. Passos antes da capacidade de rebelião. Da revolta das máquinas.
IA. Inteligência artificial. IA. Também inseminação artificial e histórias com touros, recordava o cantautor, de sabedoria septuagenária, antes de abordar as vantagens da mesma (da primeira, note-se!) e a sua inspiração panóptica para o futuro. Há quintas e quintas. Havia uma outra em que eram sempre os porcos que formulavam as moções. Os restantes animais percebiam como é que se votava, mas nunca conseguiam formular as suas próprias propostas. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.
Fábulas e parábolas. Utopias e Distopias.
IA. As iniciais de um escritor. As leis da robótica, bem antes da condução autónoma. O Multivac, também ele desenrolado por todo o planeta e recebendo continuamente informação, angustiado com o peso de conhecer todos os problemas do mundo, e procurando que o desliguem, libertando-o desse fardo. O AC Cósmico, que durante um tempo já sem tempo, e já sem homens, continuou à procura da reposta à última pergunta. Faça-se luz, ordenou o AC, e a luz foi feita. 
Volto à nuvem e aos cabos. Desta vez na televisão. Fala o almirante. Parece que há navios espiões. Russos. Mapeando os cabos. Equipados com submarinos que os podem cortar. Se fosse nuvens no céu, poderiam ser dirigíveis. Qual guerra fria num mundo em aquecimento. Na mesa de cabeceira, não a gente de Smiley, ou a caça ao outubro vermelho. Mas não anda longe. Twilight Struggle - A Guerra Fria, 1945-1989. Um livro de regras que não tem regras para estes tempos.
Escuto. As músicas atropelam-se. Depois vão-se tornando nítidas, emergindo do mar profundo. Ouço as palavras. Terminou o tempo, a canção chegou ao fim, julguei que teria algo mais para dizer. 
Carrego no botão. Separo-me da rede.

sábado, 10 de dezembro de 2022

Fragmentos


Manhã de fim de semana. Dia cinzento. Sentado a uma mesa de café. Sobre a mesa, a chávena de café, o bloco aberto, o lápis com muito ainda por escrever, a borracha, os óculos para a distância certa. Rabiscando notas, ideias para outras escritas, linhas de tempo. Ao lado, a janela que separa dois mundos. De fora, poderá ler-se, em fundo branco recortado formando letras de vidro, que existe uma cerveja de sabor autêntico, desde 1927. De dentro é possível ler o mesmo, mas em sentido inverso, mundo ao contrário. 

Os clientes, poucos, entram, ficam pouco tempo, e saem de regresso há vida, depois do intervalo no mundo de dentro. Terão o hábito de vir aqui. Trocam palavras com os donos, ele sentado, atrás da caixa registadora, ela ao balcão, aviando os pedidos. Um café ou o pequeno almoço. Olhe, e um cartão daqueles, e depois mais um. Cartões para raspar a sorte, que não parece abundar. O homem terá ganho dez euros, há dias. Aquela, se tinha entrado antes, tinha ficado com o cartão de cinco euros. Contas de somar. Das de subtrair não se fala. A televisão, sempre ligada, ora alimenta conversas de ocasião como serve de banda sonora. Programas sobre vida selvagem, aquela dos outros animais.

No mundo de fora há duas pequenas mesas quadradas, junto às janelas, com cadeiras desalinhadas de plástico verde, entrançado. Uma extensão do mundo de dentro, paredes meias com o passeio, as pessoas andando, os carros parados à base de moedas, a rua que é, sobretudo, de passagem.

O homem entra, pede um café, e senta-se consigo no mundo de fora. Pedro, chamemos-lhe assim, porque precisa de nome, terá mais de trinta anos e menos de quarenta, talvez. Cabelo escuro e barba farta, que há muito não vêm tesoura.  Usa uma gabardina, escura de cor, escura também da cor dos passeios e recantos onde deve ter dormido esta noite, onde deve dormir as noites. Pousado ao lado, o saco, onde transporta o cobertor. Na mão, de dedos enegrecidos e unhas longas, o cigarro aceso, fumado lentamente. Olhando o passeio, rosto pálido, olhos semicerrados para a vida. Ficou por ali algum tempo. Em transição, entre a noite que já foi e o dia que anda por aí. Levantou-se. Partiu. Discreto.

Chega depois Maria, chamemos-lhe assim, porque precisa de nome. Deverá andar pela mesma idade de Pedro. Magra, desalinhada entre o arranjo que parece querer mostrar e o desarranjo que se nota. Agitada, senta-se primeiro, lá fora, levanta-se e entra, depois. Um café? As moedas não chegam para tanto. Um copo de água, para ter direito a sentar-se um pouco no mundo de fora, que afinal parece ser o meu. Tosse. Agitada, percorre o telemóvel, murmura umas palavras. Tosse. Sorri para uma criança que passa, pela mão. Volta ao telemóvel. A tosse repete-se, torna-se insistente. Levantou-se. Partiu. Agitada.

No lugar onde estava Pedro, senta-se agora Sílvio, chamemos-lhe assim, porque precisa de nome. Cabelo quase rapado de lado, mais espesso em cima, penteado para trás, barba aparada. Jeans escuros e botas a brilhar de limpas. Camisola de gola alta e casaco aberto. Na mesa um café. Na mão um telemóvel, daqueles de dimensões generosas, com três, ou serão quatro, câmaras fotográficas na parte de trás, para capturar pedaços do seu mundo, e lançá-los nos fios que tecem as redes, ditas sociais. Os dedos deslizam à superfície. As imagens são sobretudo de botas e de sapatos, ampliadas, analisadas atentamente, reduzidas. Imagens com marca e preço, conjeturo. Longos minutos feitos de sapatos para andar. Umas quantas mensagens. Um telefonema. Levantou-se. Partiu. Calçado.

Arrumo os óculos e o lápis. Fecho o bloco, com fragmentos de escritas. Pago o café. Saio do mundo de dentro. Entro no mundo de fora.

sábado, 25 de abril de 2020

Terceiro andamento, Largo: O mundo afastou-se











Levantei os olhos do computador e da secretária, e espreguicei-os através da janela. Do lado de lá via os campos, sob o sol filtrado pelas nuvens, e, mais longe, a serra. Uma vista que se foi tornando habitual, a pouco e pouco, desde aquela altura em que trocara a cidade junto ao litoral por esta terra do interior.

Não fora uma decisão para mudar de vida, perto dos sessenta, nem por uma questão de poupança, ou sequer de acesso a apoios de repovoamento. Pelo contrário, os preços no interior tinham subido muito, em movimento quase simétrico com a descida que ocorria nas grandes cidades. Fora, sobretudo, pela necessidade de afastamento imposta por estes tempos.

O meu olhar voltou para dentro, e eu com ele, pousando sobre o teclado que aguardava, pacientemente, pelos dedos. O trabalho, afinal, quase não sofrera alterações com esta mudança. Continuava a ser feito à distância, como naquele outro tempo, através de trocas constantes de mensagens, reuniões periódicas através dos écrans, receção e envio de documentos, análises de dados, produção de relatórios. Ganhara algo, no entanto, agora que este forma de trabalho passara a ser a norma para muitas atividades: a gestão do meu tempo, apenas em função dos objetivos e dos prazos estabelecidos. Podia, por isso, trocar uma manhã ou uma tarde de escritório, por um passeio pelos trilhos, para saborear o sol ou a chuva, e regressar ao computador à noite ou durante o fim de semana.

Como eu, muitos outros tomaram o caminho do interior, em busca de sítios mais pequenos. Foi o tempo da mudança, não de regresso a um mundo que já não era, mas para a frente, ou para o lado, ou para cima, para uma qualquer outra direção. Construíram-se casas, recuperaram-se campos, criaram-se serviços, instalaram-se escolas e hospitais, vieram as empresas. Sem replicar as grandes cidades de outrora. Dando uso a estradas pouco habituadas a este movimento. Estendendo-se pela paisagem. Trocando as economias de escala por uma nova escala da economia. Tecendo uma nova rede, larga, espalhada, afastada, viva!

As cidades, essas, esvaziaram-se, perdendo ar como um balão. Sem ficarem desertas, ajustaram a sua dimensão, e achataram, ganhando espaços vazios no que antes eram torres preenchidas. As casas que ficaram vazias foram sendo ocupadas, não por novos habitantes que afluíam às cidades, como antes acontecia, mas por quem antes não tinha casa e, principalmente, pelos que, ficando, procuravam a distância necessária. Outras zonas ficaram apenas ao abandono, permitindo o regresso da natureza, definindo os novos limites da cidade.

As pessoas, essas, tinham mudado, reflexo daquele outro tempo, que se prolongava por este adentro. Mantinham uma distância entre si, definida pela ciência, pelos limites da ciência, pela experiência passada, e pelo receio ou pela prudência. Porque a possibilidade de surgir “The Big One” continuava no pensamento de todos. Davam abraços de longe. Trocavam de passeio, para reduzir os cruzamentos de perto. Esperavam, ordeiramente, em filas espaçadas. Usavam máscaras, ou até fatos inteiros de proteção se a situação o requeria. Não entregavam coisas de mão em mão: umas pousavam-nas, outras recolhiam-nas. Os testes eram frequentes. Os movimentos controlados. As quarentenas obrigatórias, prolongando os tempos de deslocação. Os isolamentos locais habituais, sempre que apareciam novos casos.

Volto a esta sala, com janela para a serra. O mundo afastou-se, mas não parou. As pessoas mudaram, mas as proximidades mantêm-se. Os ritmos são outros, mas alguns hábitos são os mesmos. Estamos em maio, as férias de Verão estão cada vez mais perto, e vou voltar a mergulhar no mar! Ganhara uma das vagas possíveis, no sorteio anual que permite evitar as concentrações de outrora.

sábado, 18 de abril de 2020

Segundo andamento, Rubato: O mundo dividira-se











Enquanto encolhia, o mundo dividira-se. Mesmo depois de parar, continuou a estilhaçar, formando fragmentos cada vez mais pequenos, com muitas faces, cada uma do tamanho de uma vida. Vidas diferentes, vislumbrando-se umas às outras, entre sombras e efeitos de luz, que atenuam o sentir, que não permitem entender na plenitude a vida que se encontra do outro lado.

Vidas. Divididas. Entre as que agora começam e as que já terminaram. As que adoecem e as que são dedicadas a tentar salvar. As que se encontram suspensas e as que continuam, quase inalteradas. As confinadas em casa por dever, as confinadas no local de trabalho para segurança dos outros, as que são feitas de idas e vindas, porque são precisas. As que ficaram subitamente isoladas, não havendo redes que cheguem, e as que ficaram de repente demasiado cheias, por não haver para onde ir. As que têm condições para ficar em casa, aquelas para quem a casa é um sítio difícil e as que nem sequer têm onde ficar. As que são feitas da imprescindível ação, e as que são feitas adiáveis, feitas de passividade necessária, ainda que antes fossem importantes. As que decidem sobre os outros e as que seguem as decisões. As que vêm o trabalho redobrar, apesar dos riscos, e as que ficaram sem trabalho, ou que não sabem por quanto tempo terão trabalho.  As que vêm os rendimentos mantidos e as que vêm os rendimentos desaparecidos. As que já precisavam de auxílio, as que apesar de tudo ainda encontram apoio e as que prosseguem apesar de ele faltar. Novas divisões, que se sobrepõem às que já existiam no mundo que havia antes,

Sou um privilegiado, no meio de todos estes fragmentos, vislumbrando outras vidas, sem as entender completamente, porque outras vidas são vidas de outros, e as palavras não abarcam tudo o que se sente. É difícil perceber para onde foi este mês que já passou, e talvez ainda mais um que irá passar. Tempo roubado, vivido a diferentes velocidades. Mais difícil, ainda, é antever o efeito que este estilhaçar terá para o futuro, próximo e no receio de uma recaída, e mais longínquo, no que significamos todos nós, os grupos, as fronteiras, o modo de vida.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Primeiro andamento, Rallentando: O mundo encolhera











O mundo encolhera. Não de repente, não de uma só vez, não com estrondo. Começou bem longe, a Oriente, extremo na geografia e no significado. Estremecendo e parando, contraindo-se, aproximando-se. Sabíamos que também aqui encolheria, mas isso não bastou para que estivéssemos preparados.

Os mundos e as coisas, de vez em quando, encolhem. Já vira isso há anos, na Instituição. Também ela se tinha contraído, de tal forma que as pessoas pareciam ser menos, os grandes planos reduzidos a tarefas desligadas, os assuntos mais rarefeitos, as rotinas esbatendo o tempo, os pontos de contacto corroídos. Encolhera a tal ponto que parecia ser mais pequena do que eu, e eu, sendo maior do que ela, já não cabia do lado de dentro, mas apenas do lado de fora.

Mas agora era diferente. Não me parecia estar do lado de fora do mundo, portanto devo ter encolhido com ele.

Os países deixaram de ser um contínuo, em que as fronteiras nem sempre tinham significado, para voltarem a ser fragmentos. As viagens cessaram, e ir lá fora deixou de ser possível, sendo também impossível ir para fora cá dentro. O mundo tornou-se país, o país tornou-se cidade, a cidade tornou-se bairro, o bairro tornou-se casa. A casa, para além de casa, tornou-se local de trabalho, restaurante, mercearia, cinema, palco, livraria, pousada, ginásio e salão de jogos. O terraço tornou-se observatório, serra e praia. A televisão e o computador assumiram-se como as janelas para o mundo, permitindo alternar entre realidade e ficção com um simples carregar de botão, ou um rápido deslizar sobre as teclas. Janelas seletivas, de ampliar, diminuir, distorcer. Ficção imitando a realidade. Realidade imitando a ficção. Mundo plano, sem tacto, sem cheiro, selecionado por outros, contado por outros.

Dizem que é uma guerra, mas não me parece, eu que não estive em nenhuma. De guerras, passadas e presentes, saberão outros. Daquelas guerras, que deixaram de ser notícia no mundo da televisão, e onde se morre porque alguém mata, ou porque tudo falta. Aqui, a dita linha da frente pode estar em cada um de nós. Aqui, de onde escrevo, continua a haver luz, água e gás, telefones e internet. Não há, por agora, racionamentos. Não há mobilizações gerais, como naquela guerra que há pouco fez cem anos, dita a Grande, e depois a Primeira, mas paralisações, suspensões, ou reduções. Aqui, o inimigo não saberá sequer que é inimigo.

sábado, 27 de maio de 2017

Capítulo 1











Noite de segunda-feira. Noite silenciosa, convidando à leitura. Abro o livro de capa branca e letras fortes, cheias, a preto e vermelho, enquadradas por linhas, também elas vermelhas. No título, é negra a palavra Revolução, e a ausência de líder é realçada a encarnado. A este junta-se o nome do autor e elogios, de John le Carré e do periódico britânico The Guardian. Passada já a introdução, é altura de ler o primeiro capítulo. Pouco mais de uma dezena de páginas. Lidas ainda antes da meia-noite.

Amanhece. É terça-feira, ainda cedo. As primeiras notícias vi-as em casa, online, na Lusa. Ataque suicida em Manchester, na noite anterior, à saída de um concerto. Duas dezenas de mortos, mais algumas de feridos. Muitos são jovens. O terror e o horror, de novo. De novo na Europa, de novo em Inglaterra. Fazendo eco em todos os jornais e em todos os canais. São horas de ir trabalhar, com as notícias ainda no pensamento.

Passou o dia. Fim de tarde, com calor de Verão. A informação vai sendo atualizada. O assassino-suicida terá já sido identificado. Britânico, nascido em Manchester, descendente de líbios, 22 anos apenas. Da mesma geração e idade de muitas das suas vítimas. 22 anos. Jovem. Nascido antes do 11 de setembro que mudou o mundo. Nascido antes da invenção do Daesh, criação de mentes perturbadas, e alimentada, certamente, por interesses vários, ocultos nas sombras.

Chego a casa. De repente, lembro-me: o primeiro capítulo! O capítulo que lia, em silêncio, praticamente à mesma hora em que acabava o concerto na Manchester Arena, e a alegria dava lugar aos gritos e ao desespero. Um capítulo sobre o nosso mundo, global, interligado, complexo, perigoso. E sobre a replicação de comportamentos, o impacto máximo, a acção individual. Escrito por um britânico. Diplomata de ofício. Página 35. Capítulo 1. "A onda mexicana e o bombista suicida".

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Mais do que um jogo












Sessenta e quatro casas, claras e escuras. Terreno por onde se movem Reis e Rainhas, Bispos e Peões, Cavalos e Torres. Durante minutos ou horas, que podem ser curtas ou longas. Dois jogadores, aparentemente imóveis. Exceto no olhar, que dardeja, percorrendo a imaginação, traçando futuros, possíveis, prováveis, inevitáveis. O oponente desaparece. Torna-se invisível. Sobra apenas o exército. É ele o adversário. Cálculos. Insondáveis para muitos. Mas que são apenas uma parte. Há temas e motivos que alimentam a partitura. Desenvolvimento. Rapidez. Iniciativa. Estrutura de peões. Colunas abertas semi-abertas ou fechadas. Par de bispos. Bispos bons e maus. Sacrifícios. Especulação. Pressão. Carga e sobrecarga. Desvio. Manobra de distração. Teoria. Prática. Conhecimento. Confiança. Surpresa. Receio. E Beleza, quando tudo se conjuga: os princípios estratégicos, o desenrolar tático, o golpe que desequilibra, as alternativas controladas. Vitória. Derrota. Mais do que um jogo.

Nas palavras de um Grande Mestre:

"Pour ma part, je répondrai au questionneur curieux, mais pressé, qu'il s'agit, pour le joueur de compétition que je suis, d'un jeu dans le fond mais d'un sport dans la forme. S'il a plus de temps, je lui parlerai de la rigueur de la préparation avant la partie, de l'intense concentration nécessaire au calcul précis des variantes, de la profonde joie esthétique d'une combinaison qui se dévoile, de l'absolue maîtrise de soi au moment critique où la partie bascule, et de la patience requise pour faire tomber unu à une les dernières défenses adverses. S'il devient mon confident, je lui parlerai aussi de l'angoisse de la lutte, de ces terribles défaites que sont sur l'instant comme autant de petites mortes."

Joel Lautier no Larousse du jeu d'echecs, Larousse.

sábado, 19 de março de 2016

Outro minuto

As vassouras marcam o swing. Sente-se a sala, escura. Aqui e ali o calor de uma luz. Adivinha-se o movimento dos dedos sobre as teclas. As cordas que vibram. O metal rouco. Tudo o resto é silêncio. O ar escorre, morno, lentamente. É noite, em pleno dia. Lá fora a estrada rola, rápida, ondulando em direção a Norte. A chuva passa, cinzenta, pelos vidros da sala, pelas janelas da estrada. É dia, com sabor a noite.  Um minuto mais e a sala esvai-se, levando a música. Mais um minuto e a sala é outra. Vozes em vez de música. A cadeira que se arrasta. A colher na chávena. Manchas de cor. Tons que perderam a cor. Olhares que buscam. Olhares que esperam. Olhares perdidos. Pessoas que deslizam. Pessoas desfocadas. Portas que se abrem e fecham. Despejam. Levam. Na parede os relógios marcam o tempo. Tempo diferentes de mundos diferentes. Paralelos. Desligados. À distância de um salto. Salto no espaço. Salto no tempo. Uma hora. Outro minuto.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Noite

É noite na sala. Ligo o candeeiro. A luz, amarelada, enrosca-se sobre a mesa. Fica imóvel, quase sem respirar, quente. Tudo o resto são sombras. Encostadas às paredes, sentadas nas esquinas, deitadas sobre o tapete, folheando os livros. Sombras e silêncio. A cidade já dorme. A casa também. Foram-se os passos. Foram-se as vozes. Foram-se os ruídos. Ligo a música. Ouço o sax suave de Paul Desmond. Ouço a música e sinto o silêncio que está ao meu lado. Sobre a mesa, um copo, alto. Gin n.º 3, água tónica e limão. E gelo que murmura. Ligo o ecrã. Luz branca e fria que espera, pacientemente. Espera pelos dedos, pelo deslizar. Pelo toque que lança letras, negras, que se penduram. Pelo sapateado que forma palavras. Pelas palavras que formam frases. Espera pelo sentido. Espera que faça sentido. Escrevo. Gosto da noite.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

24 de abril

24 de abril de 2015. É noite. Na minha sala Ray Charles canta Georgia on My Mind. Sons de 1960. Ainda não tinha nascido. Sons também de hoje. Escuto. Como se ele ainda estivesse aqui. E a luz fosse apenas meia. Por entre o fumo. Por entre a música. Salto no tempo. 24 de abril, 25 de abril, amanhã, ontem, há 41 anos, 1974. Memórias de uma revolução. Liberdade. Democracia. O tempo não pára. Recuo. 1945. Fim da guerra que não acabou com o mundo. Animais na Quinta que é deles. Animais de George Orwell. Pessoas. "Eram sempre os porcos que formulavam as moções. Os restantes animais percebiam como é que se votava, mas nunca conseguiam formular as suas próprias propostas.". O pêndulo oscila. 2015. Ano de eleições. Ano de votações. Democracia não são apenas eleições. Democracia não é apenas votar. Hit the Road Jack.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Túnel

O som chega até mim.
Abafado. Vindo das profundezas.
Crescente. Insistente. Impossível de ignorar.
A mão move-se. Sozinha. Extingue o som.
Silêncio de novo.
Acordo.
Levanto-me na penumbra.
É quase dia. É quase dia à superfície.
Saio de casa.
Entro no túnel.
Elevador. Cabo de aço. Uma porta. Quatro paredes. Confinado.
Poço vertical.
Descendo.
Rua. Um sopro de ar.
Carro. Portas. Chão. Tejadilho.
Estrada.
Cápsulas deslizando nos dois sentidos.
Poço horizontal. Sem cabos. Com limites.
Vislumbre de luz.
Noção de verde.
Elevador. Cabo de aço. Quatro paredes.
Confinado. Subindo. Parando antes do azul.
Três paredes e uma janela.
Mina com vista a céu aberto.
Para pássaros que voam.
Para árvores com estações.
Turno que se escoa.
Dez horas que passam.
Sol que já se foi.
Regresso.
Saio da mina.
Saio do túnel.
Saio do dia.
Entro na noite.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Abro os olhos.

Sinto o sol de inverno que se apaga. As sombras que chegam. O vento quase em silêncio. Os murmúrios da cidade que anoitece. Abro os olhos. À minha frente os edifícios ondulam, suavemente. As árvores dobram-se. Acendem-se as primeiras luzes. Caem gotas de chuva, pesadas, espalhando círculos que se abrem sobre as fachadas. O mundo multiplica-se em reflexos. É tempo, penso. Debruço-me. Estico o braço. A mão entra na água. A superfície encolhe-se. A cidade desaparece.

domingo, 21 de setembro de 2014

Azul

Atravessei dias.
Cinzentos; verdes; castanhos; amarelos; vermelhos.
De cores intensas ou de cores desfeitas.
Tantos que podem fazer um ano.
Sobrevoei terras.
Grandes e pequenas.
Cheias ou desertas.
De gente ou apenas de vida.
Tantas que podiam ser um país.
Até que, finalmente, cheguei ao Azul.
Do céu quase sem ondas.
Do mar quase sem nuvens.
Do silêncio do vento.
Do ar quente que refresca.
Mudo de cor.
Se ficar o suficiente, também eu serei Azul.




domingo, 27 de julho de 2014

Duas cidades

A cidade que era uma, como costumam ser as cidades, dividiu-se. E como não há cidades-meias ou meias-cidades, onde antes havia uma passaram a existir duas. Uma cidade com bairros esvaziados, vazios de pessoas, de carros, de vozes. Com janelas fechadas, persianas corridas, casas que dormem. Com espaço que cresceu, nas ruas, para os pássaros, para as pedras, para o silêncio. Ficaram,à noite, as mesmas luzes, fazendo sombras diferentes. Cidade abandonada. Enquanto esta se esvazia há, ao lado, outra que se enche. Atravessada por sandálias com gente em cima. Vista por olhares filtrados por lentes. Capturada pelas máquinas. Com sons de outras paragens, vozes de outras línguas. Cores, muitos tons, nas roupas e na pele. Gente conquistando a cidade, esta cidade, sobre dois pés ou duas rodas. Barcos repletos de novos descobridores, que desbravam os canais estreitos, antes de se lançarem numa nova invasão, em busca de comida, de troféus para mais tarde recordar, de um novo ponto no mapa, ou de uma simples sombra. Saberão eles que, na sua ausência, as suas próprias cidades se dividiram, e, também elas, não são agora uma, mas duas?

sábado, 26 de julho de 2014

Letras errantes

Há muito que as letras não se juntam.
Andam soltas, dispersas, sem rumo.
Na corrente ou contra a corrente.
Letras errantes.
Em colisão, amontoadas, enredadas.
Breves encontros, mal fazendo uma palavra.
Esboços de frases.
Fragmentos de ideias.
À espera.
À espera de fazer sentido.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Linhas com vida

Uma vida.
Um ponto.
Ponto que se desenrola.
Que se transforma em linha.
Reta, curva, quebrada.
Regular, irregular.
Delgada, espessa, clara, com sombra.
Tracejada. Interrompida. Retomada.

Vidas que são linhas.
Que pairam.
Que ondulam.
Que se intersetam.
Que se aproximam sem nunca se tocarem.
Que se acompanham.
Que se sobrepõem.
Que se separam.

Convergentes, divergentes, paralelas.
Modelares, modulares, normais.
Concêntricas, excêntricas.

Linhas no espaço.
Linhas em espaços.
Naturais.
Reais.
Imaginários.
Complexos.

Linhas no tempo.
Linhas no tempo presente.
Linha que volta a ser um ponto.
Entre o que foi já desenhado e o traço ainda por traçar.
Entre o ponto inicial e o ponto, que sem o saber, será final.
Linhas.
Pontos.
Vidas.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Existência líquida

Chove. O mundo liquefaz-se. O ar é agora cinzento de água. As janelas deformam o olhar. As pedras escorrem, imóveis, pela rua abaixo. A estrada por onde passo é feita apenas de reflexos e de sombras. Ainda se sente terra. Ainda se pressente céu. Chuva. Gotas empurradas pelo vento. Gotas que tocam a pele, ficando connosco um momento. Gotas que tombam formando poças, correndo juntas, sem saber destino, em riachos que já foram nuvens, sopradas em direção a um mar qualquer. Gotas separadas, que ficam à margem, vendo as outras a passar. Gotas diferentes, em contra-corrente, buscando o impossível. Chove mais. Mais ainda. Os contornos esbatem-se. Tudo se torna indistinto. Tudo se confunde. As gotas caem agora do chão, feito nuvem, para a nuvem, feita chão. Também eu caio para uma nuvem. Acordo. Sou uma gota.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Sombras

Luz.
Nuvem. Sombra.
Sombras. Nuvens.
Ramos. Troncos. Musgo. Pedra.
Penumbra.
Degraus. Rocha. Túnel.
Escuridão.
Gruta. Casulo. Concha.
Concha fechada.
Silêncio. Imóvel. No tempo.
Apenas.
Apenas tempo.
Tempo sem tempo.
Fresta.
Sopro.
Murmúrio.
Sair.
Rastejar. Deslizar. Subir.
Flutuar.
Rocha. Gotas. Arestas. Aragem.
Terra. Raízes. Folhas. Erva.
Ar. Orvalho. Noite.
Deitado.
Olhando.
Céu.
Pó de estrelas.
Nuvem.
Sombra.
Sombras.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mundos paralelos

Habito mundos paralelos. Como este em que me encontro agora, do tamanho de uma sala, lareira acesa, luz de inverno entrando pela janela, o som do lápis sobre o papel, o som da cidade, abafado, que hoje parece apenas feito de pássaros. Mas há outros mundos, tão reais como este. Imateriais. Materiais. Mundos em que se vive e se sente. Povoados por gente, por seres que não são gente, por fantasmas e demónios, por objetos iguais mas diferentes, por paisagens incompletas, por cores de outras paletas. Sei que existem: já lá estive. Em sonhos dormidos. Em sonhos acordados. Ao passado que foi. Ao passado evitado. Ao passado que podia ter sido. E ao futuro que vai ser, que talvez venha a ser. Por vezes basta um cheiro familiar, já há muito não sentido, e eis que atravesso uma porta, entrando num outro tempo. Mais do que regressar ao passado é como se um pedaço de passado se incrustasse no presente, arrastando com ele sombras difusas, e criando um agora diferente. Há outras portas, mas só sabemos que o são quando por elas passamos: palavras, objetos, rostos, olhares, pensamentos. Por vezes são janelas, mantendo alguma ordem nos mundos, permitindo apenas olhar, às vezes ouvir, quem sabe, ser visto. Outras vezes ainda são espelhos, refletindo o olhar de quem olha. Mundos separados, misturados, ligados. Não estou sempre aqui, embora não deixe nunca de estar aqui. Sou habitado por mundos paralelos.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Tarde de escrita(s)

Uma sala. O conforto de um puff à janela, com vista para um sol de céu azul. Bill Evans ao piano, The Way to Play. Um gato morno, dormindo encostado, disputando o espaço. Palavras que escorregam das teclas, subindo para a página branca do monitor. Palavras guardadas para amanhã, fechadas na caixa, à espera do papel. Palavras que viajam, voando pelo ar, correndo pelos fios, atravessando máquinas. Palavras que entram noutras salas, como se fossem ditas, como se fossem ouvidas. Tarde de escrita, tarde de escritas.