segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sobre copos e colocações no Ensino Superior

 






Este é um copo meio cheio. Ou meio vazio. Grande demais para a água que leva. Ou com o tamanho certo para não a entornar. Talvez a água já tenha sido bebida. Ou talvez ela tenha faltado. Interpretações para além dos números, que só contam uma parte da história. Conjeturas para além do significado de meio, metade, 1/2, 0,5, 50%. Porque, por norma, é necessário contexto. Há um antes e um depois. E até um muito antes. Sendo que um muito depois pode estar perdido num futuro por alcançar.
Vem isto a propósito dos resultados da 1ª Fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. Pelas notícias e comentários parece que correu bem. Mais alunos colocados do que no ano anterior. A nota à comunicação social, divulgada pelo instituto responsável por este processo, dá conta disso mesmo, ao comparar os resultados destes dois últimos concursos. Um aumento de 13,9%. Números certos. Números curtos. Números de curtíssimo prazo. Dois pontos não bastam para determinar tendências. E é sabido que o ano passado não correu bem. Ora, então, que dados temos para além da recuperação do que tinha sido um mau ano?
A referida nota contém, também, os dados do concurso de acesso anterior, o de 2024. Certamente, porque o atual Primeiro-Ministro assumiu as funções nesse ano. Certamente, porque a preocupação com o ciclo político se sobrepõe à preocupação com a evolução de médio e longo prazo do sistema de ensino superior, que requer uma análise mais abrangente. 
Interpretações e conjeturas, aqui sem números.
Comparando 2026 com 2024, o resultado está longe de apresentar o mesmo brilho:
  • Este ano houve apenas mais 28 colocados do que há dois anos.
  • Apesar de terem sido disponibilizadas mais 936 vagas.
  • Ou seja, a taxa de colocação desceu de 91,4% para 88,9%.
  • Quatro universidades tiveram menos colocados: Beira Interior (73), Aveiro (33), Madeira (28) e Trás-os-Montes e Alto Douro (26).
  • Apenas cinco institutos politécnicos tiveram mais colocados.
  • Quatro institutos politécnicos tiveram uma redução superior a 100 colocados: Bragança (197), Guarda (154), Leiria (133), Viana do Castelo (103).
Com mais algum trabalho, seria possível ter uma imagem temporalmente mais abrangente, sobre os últimos cinco ou dez anos. Olhar apenas para o último ano é, definitivamente, insuficiente. Como as grandes subidas na bolsa, após descidas prolongadas ou intervaladas ainda maiores.
Numa outra ótica, por apego à minha formação em Engenharia do Ambiente, há largas décadas, e fascínio de sempre pela exploração espacial, uma moda em crescendo, fui observar as colocações dos cursos com as designações Engenharia do Ambiente e Engenharia Aeroespacial, no concurso deste ano:
  • As vagas em Engenharia Aeroespacial somam já 340, o dobro das vagas em Engenharia do Ambiente.
  • Os colocados no espaço são cerca do triplo dos colocados na Terra.
  • A nota do último colocado na estratosfera foi de 144, enquanto a do último colocado no subsolo foi de 113.
  • Engenharia do Ambiente em Aveiro, curso pioneiro que frequentei de 1982 a 1987, teve escassos 9 colocados, superando apenas o Instituto Superior de Agronomia (7) e Coimbra (5), claramente distante dos concursos homónimos do Porto, Nova e Técnico. 
Se tomássemos isto, abusivamente, como indicador, diríamos que os jovens universitários acreditam que o futuro está mais no espaço, e que o ambiente do planeta já era.
Interpretações e conjeturas.