sábado, 9 de maio de 2009

Falar verdade

A verdade anda por aí, como tema oportuno da campanha eleitoral que já se desenrola. O Presidente da República entendeu que era importante falar verdade aos portugueses; o PSD adoptou como slogan “política de verdade”; os discursos políticos dos mais variados partidos estão cheios de referências à verdade e, pelo menos em igual medida, à sua companheira do politiquês – a inverdade.

Confesso que me causa profunda desconfiança este anúncio sistemático de que se está a falar verdade. Como se alguém detivesse “a” verdade, absoluta, única, inatacável. Como se bastasse mencionar a verdade para dela se apropriar. Como se tal menção conferisse credibilidade e a sua omissão descrédito. E o que pensar das afirmações anteriormente proferidas, pelos mesmos, sem este novo quadro de verdade? Seriam inverdades?

Em política tenho, para mim, que falar verdade é:
- considerar que o único voto útil é o que expressa a opinião do eleitor;
- não pedir maiorias absolutas, ou o evitar das mesmas, quando essa questão não é colocada no boletim de voto;
- admitir que um voto, ou uma maioria, não significa a concordância com todos os pontos de um programa eleitoral;
- reconhecer que os votos têm muitas razões;
- apresentar candidatos que vão cumprir os seus mandatos;
- propor metas realistas;
- prometer apenas o que não depende de terceiros;
- admitir a gravidade da situação e a incerteza sobre os efeitos das medidas adoptadas;
- manifestar dúvidas;
- explicar as relações entre objectivos, medidas e meios;
- fomentar o voto em consciência dos deputados, sem uma disciplina de voto que os transforma num mero número;
- adoptar os princípios que se defendem mesmo quando estes não são traduzidos em lei;
- propor uma moção de censura quando se reputa um governo de prejudicial ao país;
- reconhecer as virtudes de medidas propostas pelos adversários;
- propor as alterações eleitorais consequentes com o desejo, ou não, de facilitar a formação de maiorias absolutas.

Mais verdade em política é sem dúvida necessária, nas palavras e nos actos.

Publicado no jornal Público, Cartas ao Director, em 9/5/09

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Coerência

Marcelo Rebelo de Sousa, numa das suas intervenções dominicais, defendeu a continuidade de Durão Barroso na presidência da Comissão Europeia alegando a necessidade de manter a estabilidade em tempo de crise. Será que, pelo mesmo princípio, também defende a renovação da maioria absoluta do PS e a recondução de José Sócrates como Primeiro-Ministro?

segunda-feira, 30 de março de 2009

Crescimento económico

Segundo muitas previsões a economia recomeçará a crescer, em breve, embora se desconheça o momento exacto (2010, 2011, 2012...). É uma questão de tempo. O Banco Mundial, por exemplo, aponta para um crescimento global do PIB de 3% para 2010, largamente superior à previsão para este ano (0,9%) e superior ainda aos 2,5% registados em 2008 [Global Economic Prospects 2009].

Crescimento sempre, mesmo num mundo que nunca teve tanta gente e que nunca consumiu a uma taxa tão elevada. Os nossos hábitos de consumo parecem confirmar esta crença inabalável - por certo muitos já esqueceram o petróleo a 140$/barril, há apenas um ano. Os indicadores que utilizamos vão no mesmo sentido: número de novas casas, mesmo quando excedam o número de famílias; número de novos carros, mesmo que destinados a cidades saturadas; número de telemóveis, em que somos recordistas; número de computadores; e muitos outros números. Números cuja manutenção requer agora o forte apoio dos governos. Números provavelmente insustentáveis e que vão gerar mais desemprego.

Em O fim do petróleo James Kunstler escreve:
"A imaginação colectiva do povo, no entanto, não consegue entender a noção de uma economia sem crescimento, embora os limites do crescimento se evidenciem em tudo o que nos cerca, desde as paisagens suburbanas pavimentadas, até aos preços da gasolina que sobem em flecha, às formações aquíferas esgotadas, ao fim da pesca do bacalhau no Atlântico. Não somos capazes de conceber outra via económica que não seja o crescimento. Somos reféns do nosso sistema."

segunda-feira, 16 de março de 2009

Autárquicas à vista

Fazem-se passeios, onde durante anos se caminhou sobre terra ou lama. Reparam-se estragos há muito causados por raízes de árvores. Buracos tapados vezes sem conta são substituídos por tapetes de asfalto. As obras multiplicam-se, na cidade, nas cidades, no país.
Gostava que fosse apenas coincidência...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Hey, teacher, leave the kids alone!

No Público de 25 de Fevereiro:

"Bolonha prevê um ensino mais centrado no aluno e estes queixam-se de ter demasiado trabalho. Além dos exames, há avaliações contínuas, trabalhos individuais e de grupo, teóricos e de laboratório, é preciso assistir às aulas porque também contam para a nota, enumera Filipe Almeida, presidente da Federação Académica do Porto. "Os estudantes estão com mais trabalho, mas a questão é: por que é que têm de se submeter a este tipo de avaliação, quando Bolonha não diz que seja obrigatório passar o dia inteiro na faculdade?", interroga."

Sem comentários.