sábado, 31 de janeiro de 2015

Da sabedoria

"Falta avançar com segurança na informação e no conhecimento, mas com respeito por um paradigma mundializado de valores. Não é suficiente o paradigma europeu da sociedade da informação e do saber: tem de acrescentar-se a sabedoria. A voz da Universidade livre e capaz é indispensável para enfrentar, com tal paradigma, os desafios desta perigosa modernidade. Esta necessidade enfrenta, no período de protetorado em que estamos, e em decorrência do neoliberalismo repressivo, o agravamento da crise da escola pública, de novo com presidência, talvez nem consciente, do credo do mercado."

Adriano Moreira (2013), Memórias do outono ocidental. Um século sem bússola.

Universidade livre. No pensamento. Na diversidade. Na discussão. Na ação. Evitando os caminhos fáceis. Resistindo a mimetizar os excessos externos. Criticando os desvios. Participando na sociedade. Universidade capaz.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O que se estuda na União Europeia?

Os dados estão lá, disponíveis, à distância de poucos minutos de teclado. Vindos do Norte e do Sul da Europa. Do Leste e do Oeste.

Uma vista sobre o que estudam quase 20 milhões de pessoas, em 26 países da União Europeia a 28 (por ausência de dados da Estónia e da Suécia), e tendo em consideração 8 grandes áreas: Educação; Artes e Humanidades; Ciências Sociais, Comércio e Direito; Ciências, Matemática e Informática; Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção; Agricultura; Saúde e Proteção Social; Serviços.

Dando mais uns passos, passamos a contagem de pessoas para uma folha de cálculo; adicionam-se umas fórmulas simples, altera-se o formato, afastam-se as colunas que de momento não interessam e obtemos uma nova visão. As pessoas passam a percentagens. As áreas de ensino adquirem pesos relativos. Semelhanças e diferenças.

A Alemanha é, de longe, o país que apresenta um perfil mais homogéneo, em que 5 das 8 áreas têm mais de 13% do total de estudantes.

Por toda esta UE26 estuda-se, em abundância, Ciências Sociais, Comércio e Direito. Área de estudo de mais de 1 em cada 3 estudantes, e a área mais representada em todos os países.

Em todos? Não! Há uma exceção: a Finlândia, o país da Nokia, onde há mais estudantes em Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção (1 em cada 4). Domínio em que é seguida de perto por Portugal e Roménia. É possível que o balanço entre Engenharias e Construção seja diferente em cada um destes países.

Na Saúde e Proteção Social o destaque vai para Bélgica e Dinamarca (acima de 20%).

Reino-Unido, Irlanda e Itália são cimeiros em Artes e Humanidades.

Luxemburgo e Áustria em Educação.

Em Ciências, Matemática e Informático lideram Alemanha e Grécia, em conjunto com o par Reino Unido e Irlanda (cerca de 15%).

Nos Serviços a Hungria é o único país a alcançar 10%.

Na Agricultura o recorde é Grego (5%).

Aqui ficam os dados de Portugal:
31% Ciências Sociais, Comércio e Direito
22% Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção
16% Saúde e Proteção Social
10% Artes e Humanidades
07% Ciências, Matemática e Informática
06% Educação
06% Serviços
02% Agricultura

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Dados referentes a 2012, disponíveis na PORDATA.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Abro os olhos.

Sinto o sol de inverno que se apaga. As sombras que chegam. O vento quase em silêncio. Os murmúrios da cidade que anoitece. Abro os olhos. À minha frente os edifícios ondulam, suavemente. As árvores dobram-se. Acendem-se as primeiras luzes. Caem gotas de chuva, pesadas, espalhando círculos que se abrem sobre as fachadas. O mundo multiplica-se em reflexos. É tempo, penso. Debruço-me. Estico o braço. A mão entra na água. A superfície encolhe-se. A cidade desaparece.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Internacionalizar

Última emissão de 2014, no Click de 27 de dezembro, Antena 1.

Internacionalizar é a palavra de 2014 para o Ensino Superior. Internacionalizar e Exportar. Neste ano foi criado o Estatuto do Estudante Internacional, abrindo uma via de acesso para estudantes não comunitários; a AICEP - Agência para o Investimento e o Comércio Externo de Portugal, interessou-se por esta área, num claro sinal da relevância económica do setor; e foi divulgado o relatório de um grupo de missão, que contém 40 recomendações sobre esta matéria. A isto juntam-se os novos programas comunitários Horizon 2020 e Erasmus+, o estabelecimento de parcerias internacionais e a participação em feiras dedicadas à educação.

Visto de fora pode parecer que se está no início de um processo estimulante. Mas na verdade, a universidade, como instituição, atravessou já oito séculos, com a internacionalização sempre presente: no movimento de pessoas, através da Europa, em busca dos mestres mais afamados; na correspondência entre cientistas; na construção do conhecimento ignorando as fronteiras dos estados; na exploração de outros territórios.

No Portugal das décadas de 70 e 80 o ensino superior expandiu-se, e os docentes doutoravam-se no estrangeiro, numa viagem de ida, com volta garantida. A adesão do País ao projeto europeu abriu as portas dos programas-quadro de investigação e desenvolvimento e de mobilidade, fomentando a inserção em redes. As avaliações e comparações internacionais são, hoje, práticas comuns e aceites.

Neste mundo, que entretanto cresceu e se transformou, abrem-se muitas outras possibilidades: ensino presencial, à distância ou misto; cursos e recursos online; o uso do português como língua estratégica e o uso do inglês como língua franca; ou o uso de outras línguas; uma captação quase regional de estudantes nacionais, em simultâneo com a captação de estudantes estrangeiros, de mais países e de maior distância, geográfica ou cultural; a criação de consórcios, de pólos ou de instalações em países terceiros.

E há ainda muito mais por explorar, na relação com os antigos alunos, na internacionalização do pessoal administrativo, na chamada terceira missão das universidades, na criação de um verdadeiro ambiente internacional.

Este é uma área de grande competição entre instituições, e mesmo entre países. Que requer opções. E uma procura dos novos desequilíbrios que são motores de mudança.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Profissão: docente.

"Actualmente a falta de prémios para as letras, as despesas dos tempos e a diminuição dos estudantes nas universidades são tão notáveis e as remunerações e salários dos professores são tão abaixo do que costumavam ser que, como resultado, os académicos sábios e sérios não podem manter-se nas universidades e procuram posições mais adequadas ao seu sustento."

Não é conversa de corredor. Não é exposição de sindicato. Não é negociação salarial. Não é pedido de financiamento ao Governo. Não é, sequer, uma situação generalizável no tempo e no espaço. Neste caso é uma declaração das Cortes Espanholas de ... 1627! Já não falta muito para fazer 400 anos!

Pagamentos em géneros. Condições diferenciadas em termos de impostos ou de outras obrigações. Rendimento dependente do número de alunos e, portanto, da disciplina lecionada e da fama alcançada. Salários governamentais ou da cidade. Pagamentos avultados para atrair docentes talentosos. Exercício de outras atividades remuneradas. Exercício de cargos em conselhos de universidade ou de faculdade. Aulas privadas em paralelo com as aulas nas instituições. Falta de pagamento regular.

Absentismo. Aulas confiadas a substitutos de segunda classe.

"Em Coimbra são muito frequentes as ausências dos lentes titulares, muitas vezes autorizadas e formalmente compensadas pela nomeação momentânea de substitutos, feita nalguns casos pelo próprio professor que se ausentava."

Meios, reputação.

"Não é coincidência que as universidades cujos professores não tinham estes problemas financeiros, tais como Leida no século XVII, fossem capazes de se expandirem e gozassem de uma boa reputação científica."

Exclusividade.

"Em Königsberg, o governo proibiu os professores de exercerem funções paralelas num esforço bem intencionado de forçar o professorado a prestar toda a atenção aos assuntos académicos. Infelizmente, aqui o governo não deu o passo lógico seguinte que seria aumentar os salários dos professores."

Séculos XVI, XVII, XVIII ... XXI?

ECDU, Exclusividade.

Vale a pena ler. Momentos diferentes mas buscas de pontos de equilíbrio semelhantes. Circunstâncias distintas mas iguais lutas de poder. E dilemas entre o individual, o institucional, o coletivo maior.

Os extratos são de "Uma história da Universidade na Europa", vol II, As Universidades na Europa Moderna (1500-1800), edição coordenada por Hilde de Ridder-Symoens.