quinta-feira, 23 de abril de 2026

Sem escolha

 

Votar. 
Participar. 
Escolher futuros.
De entre pessoas ou projetos. 
Como manifestação de democracia.
Para escolher, são necessárias opções. Na ausência deste plural, o voto torna-se quase irrelevante, oscilando entre a mera confirmação do inevitável, o vazio do voto em branco ou o ruído do voto nulo. Por isso, a vitalidade democrática das sociedades ou instituições depende, acima de tudo, da sua capacidade de gerar alternativas. Até porque a unanimidade, em teoria possível, raramente corresponde à realidade e, ainda mais raramente, a uma realidade saudável. 
Vem isto a propósito de ter olhado para alguns processos recentes de eleição para Reitor em universidades públicas, vários dos quais com um único candidato. E, de entre estes, destacam-se os das Universidades de Aveiro e do Minho, nas quais o Reitor em funções não era elegível, por ter atingido o limite de mandatos. Universidades gémeas, curiosamente, nascidas em 1973 e com um modelo de organização baseado em departamentos, em vez das tradicionais faculdades.
Considerando a ausência de alternativas como sintoma de debilidade institucional, questiono-me sobre as possíveis causas dessa ausência.
Uma candidatura destas é sempre uma opção individual. A este nível, não duvido que existam pessoas com apetência para o cargo, como, aliás, tem acontecido em eleições passadas. Uma vontade de culminar uma carreira com um certo reconhecimento que o cargo traduz, o desejo de afirmar um projeto institucional, o sentido de serviço público, ou qualquer combinação destes fatores, com pesos diferentes para cada pessoa. Não será esta, portanto, a causa principal.
É certo que o processo de eleição do Reitor é peculiar, uma vez que é escolhido por um grupo bastante restrito de pessoas, os membros do Conselho Geral. Assim, as eleições para este órgão eletivo transformaram-se numas autênticas primárias para a eleição do Reitor. Como consequência, o período de posicionamento eleitoral foi dilatado sobremaneira. Como consequência perversa, a gestão de influências e o controlo do futuro colégio eleitoral tornaram-se fatores decisivos. Persuasão ou pressão. Alinhamento ou marginalização. Fidelidade ou vassalagem.
Em si, este processo não impede a multiplicidade de candidaturas, como se pode comprovar pelo histórico eleitoral, e pelos casos recentes das Universidades do Porto e Nova de Lisboa, com cinco candidatos admitidos inicialmente. No entanto, acredito que, desde logo, reduz a disponibilidade de determinados perfis individuais, menos propensos a certos jogos de bastidores. Depois, o resultado das primárias não deixará de influenciar a decisão final de apresentar, ou não, uma candidatura. Ainda assim…
Mais preocupante, será considerar que a ausência de competidores pode ser o resultado acumulado, ao longo de um par de décadas, da verdadeira escassez de pessoas com perfil de liderança institucional, da aversão à discussão genuína, ao debate e ao contraditório, da não valorização das diferenças, e mesmo da supressão, ativa ou percecionada, de potenciais lideranças emergentes. Verdadeiramente preocupante porque, se as verdadeiras razões andarem por aqui, no todo ou em parte, o que poderia ser um problema meramente conjuntural ter-se-á convertido num problema estrutural.
O futuro o dirá.

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