sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Baixando as Expectativas Sempre - BES

O caso BES mostra bem porque há  uma generalizada falta de confiança, que atinge políticos, economistas, empresários, dirigentes, comentadores, jornalistas. Um apanhado de duas ou três semanas de declarações sobre o BES seria bem elucidativo. E daria qualquer coisa como isto:

Os problemas do setor não financeiro do grupo não contaminarão o Banco.
O BES não é o GES.
O Banco é muito sólido.
Mesmo que o Banco venha a ter problemas há um almofada suficiente.
Não afetará os outros bancos nem a economia.
Não será necessário o Estado intervir.
O Estado acompanha com atenção este problema privado.
Há ligações entre o BES e empresas do GES que não se conheciam.
Terá que existir uma recapitalização.
Existirão efeitos na economia.
Espera-se que a economia seja resiliente a mais esta adversidade.
Há investidores interessados no BES.
Os prejuízos são muito superiores ao previsto.
Suspendam-se as transações do BES.
O Estado vai entrar no Banco.

Há o que não se sabe.
Há o que se julga saber.
Há o que se sabe e não se diz.
E há a realidade.

domingo, 27 de julho de 2014

Duas cidades

A cidade que era uma, como costumam ser as cidades, dividiu-se. E como não há cidades-meias ou meias-cidades, onde antes havia uma passaram a existir duas. Uma cidade com bairros esvaziados, vazios de pessoas, de carros, de vozes. Com janelas fechadas, persianas corridas, casas que dormem. Com espaço que cresceu, nas ruas, para os pássaros, para as pedras, para o silêncio. Ficaram,à noite, as mesmas luzes, fazendo sombras diferentes. Cidade abandonada. Enquanto esta se esvazia há, ao lado, outra que se enche. Atravessada por sandálias com gente em cima. Vista por olhares filtrados por lentes. Capturada pelas máquinas. Com sons de outras paragens, vozes de outras línguas. Cores, muitos tons, nas roupas e na pele. Gente conquistando a cidade, esta cidade, sobre dois pés ou duas rodas. Barcos repletos de novos descobridores, que desbravam os canais estreitos, antes de se lançarem numa nova invasão, em busca de comida, de troféus para mais tarde recordar, de um novo ponto no mapa, ou de uma simples sombra. Saberão eles que, na sua ausência, as suas próprias cidades se dividiram, e, também elas, não são agora uma, mas duas?

sábado, 26 de julho de 2014

Letras errantes

Há muito que as letras não se juntam.
Andam soltas, dispersas, sem rumo.
Na corrente ou contra a corrente.
Letras errantes.
Em colisão, amontoadas, enredadas.
Breves encontros, mal fazendo uma palavra.
Esboços de frases.
Fragmentos de ideias.
À espera.
À espera de fazer sentido.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Mercados aplaudem TC

11 de junho fica marcado pelo forte aplauso dos mercados ao Tribunal Constitucional, traduzido na comprar de mais dívida pública portuguesa do que o previso e aos juros mais baixos de quase uma década. Esta seria a interpretação coerente de quem sempre salientou a importância de ir de encontro às expetativas dos mercados, ou seja, de quem empresta o dinheiro suficiente para que o país vá funcionando. Aprovação ou rejeição de medidas, avaliação de maior ou de menor risco, com reflexo, quase instantâneo nas taxas de juro; mais ainda quando o recurso aos mercados está iminente e, portanto, a avaliação não constitui um mero indicador para o médio prazo mas uma decisão de compra no presente. Ou então as medidas chumbadas foram consideradas, pelos investidores,  irrelevantes do ponto de vista da credibilidade externa ou, pelo menos, facilmente substituídas. Sem dramas, nem soluços nos juros. Governo, partidos e comentadores, sempre tão atentos nesta matéria, nada disseram.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Entre linhas (4)

Continuação da série sobre as linhas de orientação estratégica para o Ensino Superior, propostas pelo Governo. Linha n.º 3: consolidar a rede de instituições de ensino superior públicas como forma de as tornar mais atrativas e sustentáveis.

Medidas propostas:
- Regulamentar a figura de consórcio;
- Promover a integração das escolas politécnicas não integradas em institutos politécnicos;
- Incentivo à consolidação das instituições e unidades orgânicas com menor dimensão;
- Criar oferta politécnica nas universidades dos Açores e da Madeira;
- Atrair estudantes para as instituições de regiões de menor pressão demográfica.

A chave da rede de ensino superior parece agora passar por consórcios e coordenação regional, deixando aparentemente para segundo plano a fusão ou a discussão sobre o número de instituições, que marcaram as fases iniciais do atual Governo, até pouco depois da fusão entre a Universidade de Lisboa e Universidade Técnica de Lisboa. Fusões que aparecem, agora, condicionadas a uma avaliação prévia "de modo a que sejam demonstrados os ganhos de eficiência e a melhoria nos serviços educativos da produção e da difusão do conhecimento". Seria interessante ver...

Teremos portanto os consórcios, já previstos na Lei, regulamentados e dirigidos para a coordenação da oferta e para a partilha de recursos humanos e materiais. E, neste âmbito, o ponto eventualmente crítico, e diferente do que até agora tem sido feito, é a partilha de recursos humanos, que terá implicações legais em termos de gestão, de carreira ou dos mecanismos de avaliação de cursos. Não é explicitamente abordado, mas esse sim poderia ser um caminho a seguir, é a partilha de serviços entre instituições. Cooperação ou Concorrência? Em que dose? Interna ou Internacional?

Uma vez mais o Governo acentua, também, o cariz predominantemente regional que quer conferir a estes mecanismos, muito questionável num País com a dimensão do nosso.

A integração das escolas politécnicas não integradas é apresentada com base na necessidade de ganhar escala. Discurso contraditório com a apregoada especialização das instituições. Quanto maior for a concentração mais parecidas serão, pelo menos, em abrangência da oferta. Abordagem diferente, talvez mais coerente, seria a sua integração num consórcio, o que permitiria, por exemplo, diluir os custos administrativos próprios.

Já quanto ao programa +Superior, que já tinha sido anunciado, continua tudo por dizer: quais as regiões abrangidas? A atração é apenas pelo poder do dinheiro? As regiões com "menor pressão demográfica" têm a capacidade financeira necessária? E as outras regiões, e instituições, vão ser impedidas de ter mecanismos próprios de atração? A generalidade das instituições têm programas próprios quer de atribuição de prémios ou bolsas, quer de apoio social, que funcionam como instrumentos de atração.

Isso não implicará, necessariamente, quer uma redistribuição das vagas quer dos próprios cursos? Veja-se, por exemplo, onde há cursos de Direito (e com muitas vagas abertas anualmente): apenas em Braga, Porto, Coimbra e Lisboa. O interior é paisagem.

Não se conhecem estudos que fundamentem estas linhas, que, na verdade, não dão grande orientação estratégica. Ficamos a aguardar pelas táticas.