Sobre a racionalização (leia-se redução do número de instituições) da rede e a projecção internacional das universidades portuguesas, disse recentemente o Reitor da U. Lisboa, António Nóvoa: "Não há hipótese de ter uma universidade de referência nos rankings internacionais se não se fizer esta reforma. Sobretudo em Lisboa", Expresso, 09/10/2010.
Para proceder a uma racionalização é preciso, previamente: a) compreender a situação actual; b) definir o objectivo a alcançar.
Fui ver um ranking recente, o do THES. Nos 50 primeiros lugares figuram 5 universidades do Reino-Unido: Cambridge, Oxford, Imperial College London, University College London e Edimburgo. Fui ver o seu orçamento. Todas estão no top 6 do que seria um ranking orçamental britânico. O seu orçamento conjunto, em 2008/2009, ascendia a cerca de 4.000 milhões de libras, o que representa quase 16% do orçamento de todas as instituições do Reino-Unido, com destaque para Cambridge, com mais de 1.100 milhões de libras. Edimburgo, com o menor valor das cinco, tinha um orçamento de perto de 590 milhões de libras. Fui ver os efectivos de pessoal académico a tempo inteiro. Conclusão análoga: mantém-se no top 6. Coincidência, causa ou consequência?
Refira-se que o orçamento de funcionamento atribuído anualmente pelo estado português a todas as instituições de Ensino Superior, universidades e politécnicos, ronda 1.000 milhões de euros (não libras). A este valor haverá ainda que adicionar verbas específicas para a acção social, receitas próprias e financiamento para investimento, mas permite ter uma ideia da diferença entre ambas as realidades.
Não pretendo embarcar em comparações simplistas, e muito menos estimar o montante necessário para construir uma universidade capaz de entrar no top 50 de um qualquer ranking. Estes dados são apenas um pretexto para considerações de outra natureza. Os números que referi para as universidades britânicas estão disponíveis na internet, à distância de alguns cliques. De igual forma poderia ter referido o número de estudantes, os países de proveniência, o pessoal académico e não académico, a inclusão de minorias, o número de abandonos, etc. etc. A Higher Education Statistics Agency encarrega-se disso (http://www.hesa.ac.uk/).
Não conseguiria dizer o mesmo das universidades portugueses. Por cá escasseiam os dados de acesso público, sobretudo em matéria financeira. Vagas, inscritos, diplomados e docentes permitem apenas traçar uma imagem muito parcial do sistema de ensino superior, revelando pouco sobre o seu desempenho e não constituindo uma base para qualquer discussão séria sobre a racionalidade ou irracionalidade do sistema, e sobre os caminhos a seguir. Pretende-se reduzir o número de instituições? Para reduzir custos? Para aumentar a dimensão? Para fomentar um melhor desempenho? Para atrair investimento? Para reordenar o território? E quais as consequências?
Esta reflexão, a propósito do Ensino Superior, aplica-se a muitos mais domínios do nosso quotidiano. Fala-se muito da sociedade do conhecimento mas estou convencido que ainda não chegamos sequer à sociedade da informação. Temos os meios tecnológicos mas parece faltar a vontade. Enquanto assim for o poder continuará a residir na posse privilegiada de informação, ou até na sua ausência, permitindo jogos e manipulações que de outra forma não seriam possíveis.
domingo, 10 de outubro de 2010
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Mudança
"Change can be essential, but it should only be made with careful consideration and just cause. Losing can persuade you to change what doesn't need to be changed and winning can convince you everything is fine even if you are on the brink of disaster. If you are quick to blame faulty strategy and change it all the time, you really don't have any strategy at all. Only when the environment shifts radically should you consider a change in fundamentals."
Garry Kasparov em "How life imitates chess"
Garry Kasparov em "How life imitates chess"
terça-feira, 5 de outubro de 2010
3 000 000 de telemóveis
No primeiro semestre de 2010 foram vendidos 3 000 000 de telemóveis. Colocados em fila chegarão do Porto a Lisboa. Colocados na balança pesarão 240 toneladas. E são produtos encarados como "de usar e deitar fora". Só assim se explica que nos primeiros de seis meses do ano anterior tivessem também sido vendidos 2 500 000 e que, antes disso, Portugal já apresentasse um dos números mais elevados de telemóveis por habitante.
Algumas associações de ideias soltas que estes números me suscitam:
- Moda, consumo, consumismo, exagero, desperdício.
- Matérias-primas, circuitos, plástico, lixo, insustentatiblidade, inconsciência.
- Custos, importação, défice, improdutividade.
- Mais palavras, menos reflexão, menos acção.
Algumas associações de ideias soltas que estes números me suscitam:
- Moda, consumo, consumismo, exagero, desperdício.
- Matérias-primas, circuitos, plástico, lixo, insustentatiblidade, inconsciência.
- Custos, importação, défice, improdutividade.
- Mais palavras, menos reflexão, menos acção.
sábado, 18 de setembro de 2010
O rigor dos números
O Público, o Expresso e creio que diversos outros meios de comunicação noticiaram, em título, destaque ou quadros informativos, que a Universidade do Porto (UP) foi a única universidade pública a preencher a totalidade das vagas disponibilizadas para o concurso de acesso ao ensino superior.
Essa informação não é verdadeira. A UP foi a universidade que mais se aproximou do pleno, tendo faltado pouco, muito pouco: 12 lugares em 4155. Totalistas apenas as Escolas Superiores de Enfermagem de Coimbra, Lisboa e Porto, instituições que têm uma natureza distinta.
Erros como estes ficam a dever-se, por vezes, a leituras apressadas ou à dificuldade de interpretar o real significado dos dados. No caso presente, a nota informativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior apresenta, para a UP, uma taxa de preenchimento de 100%. Este valor, obtido por arredondamento às unidades, está correcto. Mas o quadro que contém esta informação tem também o número de vagas e de colocados por instituição, e revela a existência de vagas não preenchidas. Os resultados, curso a curso, publicados em alguns dos mesmos comprovam isso mesmo.
Neste caso "preenchimento de 100% das vagas" não é igual a "preenchimento de todas as vagas". O destaque correcto seria "a UP preenche a quase totalidade das vagas" ou "a UP é a universidade com maior taxa de colocação". Títulos talvez menos fortes, mas correspondentes a uma informação mais rigorosa.
Essa informação não é verdadeira. A UP foi a universidade que mais se aproximou do pleno, tendo faltado pouco, muito pouco: 12 lugares em 4155. Totalistas apenas as Escolas Superiores de Enfermagem de Coimbra, Lisboa e Porto, instituições que têm uma natureza distinta.
Erros como estes ficam a dever-se, por vezes, a leituras apressadas ou à dificuldade de interpretar o real significado dos dados. No caso presente, a nota informativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior apresenta, para a UP, uma taxa de preenchimento de 100%. Este valor, obtido por arredondamento às unidades, está correcto. Mas o quadro que contém esta informação tem também o número de vagas e de colocados por instituição, e revela a existência de vagas não preenchidas. Os resultados, curso a curso, publicados em alguns dos mesmos comprovam isso mesmo.
Neste caso "preenchimento de 100% das vagas" não é igual a "preenchimento de todas as vagas". O destaque correcto seria "a UP preenche a quase totalidade das vagas" ou "a UP é a universidade com maior taxa de colocação". Títulos talvez menos fortes, mas correspondentes a uma informação mais rigorosa.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Sério a Sério ?
José Sócrates citado no portal do Governo a propósito da meta para o défice orçamental: "É esse o nosso compromisso e vamos levá-lo muito a sério."
Compromissos, compromissos para levar a sério ou compromissos para levar muito a sério:
- Obrigação de cumprir resultante de promessa.
- Promessa conjunta de duas ou mais pessoas ou entidades.
- Concordata entre o falido e os credores.
- Escrita vincular.
- Acordo, ajuste, convenção.
Definições para "compromisso", Grande Dicionário Enciclopédico Ediclube.
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