segunda-feira, 30 de março de 2009

Crescimento económico

Segundo muitas previsões a economia recomeçará a crescer, em breve, embora se desconheça o momento exacto (2010, 2011, 2012...). É uma questão de tempo. O Banco Mundial, por exemplo, aponta para um crescimento global do PIB de 3% para 2010, largamente superior à previsão para este ano (0,9%) e superior ainda aos 2,5% registados em 2008 [Global Economic Prospects 2009].

Crescimento sempre, mesmo num mundo que nunca teve tanta gente e que nunca consumiu a uma taxa tão elevada. Os nossos hábitos de consumo parecem confirmar esta crença inabalável - por certo muitos já esqueceram o petróleo a 140$/barril, há apenas um ano. Os indicadores que utilizamos vão no mesmo sentido: número de novas casas, mesmo quando excedam o número de famílias; número de novos carros, mesmo que destinados a cidades saturadas; número de telemóveis, em que somos recordistas; número de computadores; e muitos outros números. Números cuja manutenção requer agora o forte apoio dos governos. Números provavelmente insustentáveis e que vão gerar mais desemprego.

Em O fim do petróleo James Kunstler escreve:
"A imaginação colectiva do povo, no entanto, não consegue entender a noção de uma economia sem crescimento, embora os limites do crescimento se evidenciem em tudo o que nos cerca, desde as paisagens suburbanas pavimentadas, até aos preços da gasolina que sobem em flecha, às formações aquíferas esgotadas, ao fim da pesca do bacalhau no Atlântico. Não somos capazes de conceber outra via económica que não seja o crescimento. Somos reféns do nosso sistema."

segunda-feira, 16 de março de 2009

Autárquicas à vista

Fazem-se passeios, onde durante anos se caminhou sobre terra ou lama. Reparam-se estragos há muito causados por raízes de árvores. Buracos tapados vezes sem conta são substituídos por tapetes de asfalto. As obras multiplicam-se, na cidade, nas cidades, no país.
Gostava que fosse apenas coincidência...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Hey, teacher, leave the kids alone!

No Público de 25 de Fevereiro:

"Bolonha prevê um ensino mais centrado no aluno e estes queixam-se de ter demasiado trabalho. Além dos exames, há avaliações contínuas, trabalhos individuais e de grupo, teóricos e de laboratório, é preciso assistir às aulas porque também contam para a nota, enumera Filipe Almeida, presidente da Federação Académica do Porto. "Os estudantes estão com mais trabalho, mas a questão é: por que é que têm de se submeter a este tipo de avaliação, quando Bolonha não diz que seja obrigatório passar o dia inteiro na faculdade?", interroga."

Sem comentários.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pequenas coisas

Estou convencido que uma parte significativa da tão falada falta de produtividade do nosso país se deve à incapacidade de fazer, bem, um sem número de pequenas coisas. Coisas que sendo mal feitas causam desperdício de tempo, energia, motivação e dinheiro, alguns dos principais recursos ao nosso dispor para fazer face aos desafios que temos pela frente.

Um exemplo, entre muitos outros, existentes nos mais diversos domínios, é a recente alteração do calendário escolar para o 11º e 12º anos. As actividades lectivas que estavam programadas para terminar a 9 de Junho, terça-feira, serão agora dadas por concluídas a 5 de Junho, a sexta-feira anterior. A menos que os dias agora subtraídos tenham sido, à partida, dados como “perdidos”, será agora necessário efectuar ajustes de programação, afectando professores, alunos e famílias envolvidas.

Justificações apresentadas no despacho publicado: a necessidade de concluir o processo de exames antes das férias, a conciliação dos interesses das famílias com os decorrentes da organização das escolas, o direito às férias dos intervenientes nas actividades escolares, o processo de acesso ao ensino superior e os constrangimentos associados aos feriados nacionais.

Aspectos sem dúvida relevantes e que deverão ser tidos em conta em todos os anos lectivos, mas que não surgiram, subitamente, em Janeiro de 2009! Fica assim por explicar porque não foram considerados há 6 meses, no momento da definição do calendário escolar para o ano 2008/09.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Justiça social

Competitividade, internacionalização, rankings, prestígio, parcerias com empresas, contributo para o desenvolvimento económico, prestação de serviços, diversificação do financiamento, atracção dos melhores estudantes, eficácia, eficiência, qualidade.
Estas são algumas das expressões mais frequentemente usadas na formulação de políticas para o ensino superior, e também na definção de estratégias pelas próprias instituições.

Vale por isso a pena ler a transcrição da palestra proferida por Lord Giddens a 11 de Novembro de 2008, por ocasião da 6ª palestra anual do Higher Education Policy Institute, e que intitulou Reflections on the future of universities.

Este antigo director da London School of Economics (LSE) decidiu focar a sua intervenção na relação entre ensino superior e justiça social, tema que considera ser um dos mais importantes em matéria de ensino superior.

No cerne da sua reflexão encontra-se a constatação de que subsiste uma enorme estratificação social no acesso ao ensino superior, apesar de todas as mudanças ocorridas nas últimas décadas no que se refere à estrutura da sociedade, ao mercado de trabalho e aos sistemas de ensino. No caso inglês, refere, citando trabalhos recentes da LSE, que apenas ingressam na universidade 11% dos filhos e 15% das filhas de trabalhadores não qualificados! Mais preocupante ainda a constatação de que cerca de 10% da população não é apenas pobre, mas encontra-se realmente encurralada na pobreza, sem mecanismos adequados que lhe possibilitem uma saída.

Embora as raízes destes problemas estejam a montante dos sistemas de ensino superior há aqui um enorme campo de intervenção em que também os actores do ensino superior têm de participar. Políticas de acesso e de apoio social, aproximação entre as instituições e as comunidades locais (o que significa não só trazer outras pessoas às universidades mas também levar as universidades às pessoas), valorização social do conhecimento e da aprendizagem, desenvolvimento de percursos individuais apropriados, informação sobre o ensino e sobre as actividades profissionais.

Nestas décadas de tempo acelerado é cada vez mais necessário saber fazer uma pausa, reflectir, questionar algumas "inevitabilidades" e escolher novos rumos.